Era o primeiro dia do mês de junho de 1993 e o Festival Internacional de Cinema de Tróia – Festróia – iniciava a sua nona edição. No cardápio incluíam-se filmes romenos, islandeses e checoslovacos, mas também um documentário de António Campos, Terra Fria. Além dos filmes em competição, o cineasta brasileiro Nelson Pereira dos Santos foi homenageado e a rapariga do olhar felino, Lauren Bacall, que morreu a 12 de agosto passado, foi a convidada de honra.

Bacall chegou a Lisboa vinda de Paris, onde tinha acabado de filmar Prêt-à-Porter, com Sophia Loren e Marcello Mastroiani. “Vinha com quatro malas que você nem imagina!”, relembra Fernanda Silva, atual diretora do Festróia, que conviveu de perto com a estrela de Hollywood durante os dez dias que durou o festival. As malas eram grandes, a roupa era muita e o hotel onde Bacall foi instalada era pequeno, pelo que os desafios logísticos foram tremendos.

Antes de chegar, porém, a atriz “fez muitas, muitas exigências”, refere Fernanda Silva. Uma maquilhadora, um segurança, uma cabeleireira, um motorista e uma limusina foram alguns dos pedidos. O festival disponibilizou-lhe tudo isso. “Ela chegou ao aeroporto e a limusina foi acompanhada por batedores da polícia”, lembra a atual diretora do Festróia, para quem a situação foi um tanto risível.

Não tão engraçado foi ter que arrendar um apartamento contíguo ao hotel de Bacall para hospedar a equipa de maquilhagem e cabeleireiro sem que a atriz alguma vez tenha recorrido à sua ajuda. “Ela não as recusou, mas nunca lhes pediu os serviços”, diz Fernanda Silva. Mas então não tinha feito essa exigência? A diretora tem uma teoria: “As raparigas [maquilhadoras] eram muito bonitas e aquilo fazia-lhe um certo prurido.”

E a própria Lauren, ainda era bonita naquela altura? “Era muito interessante, envelheceu bem”. À data, Bacall tinha 69 anos e, junto da equipa masculina do festival e dos homens com quem conviveu durante esses dias, fez o mesmo sucesso que teria feito quase 50 anos antes, quando aparecera no grande ecrã pela primeira vez, em Ter ou não ter. “Ela sentia-se bem era na companhia dos homens”, junto de quem dava “aquelas gargalhadas” de diva, recorda Fernanda Silva.

Fora em Ter ou não ter que Bacall conhecera Humphrey Bogart, o homem que mais marcou a sua vida e que, em 1993, já estava morto há 36 anos. Ainda assim, os jornalistas insistiam em fazer-lhe perguntas sobre o galã, esquecendo mesmo a própria relevância que era ter uma atriz do seu gabarito em solo nacional. “Irritava-se muito quando falavam do Bogart. Chegou a dizer ‘Sou eu que estou aqui e não ele’“, lembra Fernanda Silva.

O alarido da diva

O sarcasmo, as exigências, alguns percalços e uma certa arrogância, própria das grandes estrelas, foram algumas das coisas que marcaram a passagem de Lauren Bacall pelo Festróia. Mas o episódio mais caricato deu-se no último dia do certame. Coube a Bacall, como aliás coubera a todas as outras estrelas de Hollywood que passaram pelo festival, a honra de descerrar a placa comemorativa daquela edição. Só que a placa “era ligeiramente mais pequena do que as outras” – mais pequena do que a de Kirk Douglas, Robert Mitchum, Mickey Rooney e Jane Russell. E isso não deixou Lauren contente. “Ela fez ali um alarido porque a placa era mais pequena do que as outras”, relembra Fernanda Silva. A organização do festival teve de se comprometer, ali mesmo, a mandar substituir a placa por uma maior. E a pequena “ainda está no escritório” do evento.

Mas não foi o último problema. O Golfinho (prémio atribuído pelo Festróia) que Lauren recebeu  tinha um erro ortográfico no seu apelido – dois C em vez de dois L – e a atriz, que só se apercebeu da situação quando já não estava em Portugal, não se coibiu de pedir a correção. “Mandou o Golfinho dos Estados Unidos” e a organização mais uma vez se viu obrigada a resolver a situação.