Para muitos, o diagnóstico de cancro é uma sentença de morte, para Bruce, foi uma sentença de vida. Poderá parecer estranho mas é o próprio que o diz, num testemunho onde conta a sua história. “Eu digo várias vezes que tive sorte em ter cancro. Pode parecer estúpido mas, esta jornada ensinou-me muito e ensinar-me-á tantas coisas sobre a vida enquanto aqui estiver. Foi uma verdadeira chamada de atenção.”
Para que outros homens não precisem de uma chamada de atenção tão intensa, desde 2012 que quer angariar dinheiro para se encontrar a cura deste cancro, levar os homens a fazer análises, partilhar a sua terapia e alertá-los que o “cancro não descrimina”. A história de Bruce é igual a tantas outras e tão diferente. É diferente porque, um em cada seis homens morre vítima de cancro da próstata, Bruce sobreviveu isso mudou a vida dele.
Tinha 53 anos quando fez o teste de rotina não havia margem para dúvidas. Com a impressão dos exames e o diagnóstico chegaram duas notícias: uma menos má e uma má. A seguir à operação para retirar a próstata teria que aprender a controlar a sua bexiga e poderia não conseguir voltar a ter uma ereção. A solução para ajudar a digerir o problema? Motas. “As motas são a minha terapia, pelo que o que fazia sentido era conduzir a minha velha amiga Trumpy até Perth. Nada como uma boa corrida depois de uma má notícia é o que eu digo sempre.”
É através das corridas que Bruce angaria dinheiro, e leva a sua história a todo o mundo. The Distinguished Gentleman’s Ride, é “uma celebração da arte de se ser elegante e do estilo de uma mota clássica feita à medida” no fundo, é a corrida onde os homens tiram os casacos de tweed, os laços e as calças vincadas do armário, aparam os seus bigodes e barbas e desfilam em cima de motas clássicas. Este domingo esperam-se 20.000 pessoas em 220 cidades do mundo, incluindo Lisboa e Porto. O objetivo inicial de angariação era 786,626€ ( 1 milhão de dólares), já se reuniram 807,097€ quatro dias antes do evento.
Tudo começou naquele dia. Depois da corrida, contar à mulher. Antes da operação um cruzeiro a dois para celebrar os 25 anos de casados. No regresso a cirurgia. Depois da cirurgia as dores: “Quando passou o efeito dos medicamentos eu desejei estar morto. Não consigo explicar a intensidade das dores que senti naquele dia. Só sei que se eu morresse naquela cama seria um alívio.”
Ainda no hospital teve uma grave reação aos medicamentos, perdendo quase a vida, em casa com um cateter e uma algália. Depois aprendeu a divertir-se com a situação. Quando começou a aprender a controlar a bexiga aprendeu que o ideal seriam calças escuras. Beber cerveja, baixar-se, espirrar, tossir qualquer esforço era o suficiente para ter um ‘acidente’.
Demorou alguns meses mas, reaprendeu a controlar a bexiga. A grande vontade e o maior teste, para Bruce, seria conseguir ter relações sexuais com a mulher. Durante a operação não lhe cortaram todos os nervos que permitem a ereção mas Bruce precisaria sempre de ajuda. Tentou Viagra, mas como tem a tensão alta provocava-lhe dolorosas dores de cabeça. A solução encontrada era injetar um estimulante diretamente no pénis. Mas nem isso parecia estar a dar resultado, como vivia a uma hora do seu médico, um dia numa consulta o médico injetou-o para ver o que Bruce fazia mal. E Bruce fazia mesmo qualquer coisa mal, talvez pelo seu medo a agulhas e por se tratar do seu pénis.
“No momento em que eu saí do consultório comecei a sentir um movimento “na estação”. Quando cheguei ao carro já estava… Vocês sabem. Quando cheguei ao fundo da rua tive que desapertar as minhas calças e soltar a fera, por assim dizer.”
Bruce conduziu, em excesso de velocidade, uma hora para ir ter com a mulher enquanto pensava no que aconteceria se a polícia o mandasse parar. Operação, convalescença e tratamentos. No meio disto tudo Bruce nem se apercebeu que alguma coisa de errado se passava com ele. Arriscava a vida todos os dias, sempre que tinha oportunidade. Foi a mulher, preocupada, que o convenceu a procurar ajuda.
“Eu percebi aí que tinha desistido porque já não me sentia um homem, já não me portava como um homem. E isso, meus amigos, é o tipo de pensamentos estúpidos a que temos que estar atentos. Eu tinha-me esquecido que tinha sorte de estar vivo. (…) Tinha-me esquecido que, independentemente de tudo, eu tinha uma mulher que me amava incondicionalmente e uma família que me apoiava. Se eu tivesse feito alguma estupidez eles iam sofrer até ao final da vida. Eu não estava deprimido, eu estava zangado, zangado com o que me tinha acontecido. Sim, eu perguntava: Porquê a mim? – coisa que eu jurei nunca fazer. Estava a ser egoísta.”
Hoje, Bruce ainda tem dias mais negros e de frustração mas encontrou a terapia: o motociclismo. Constrói, monta, conduz motas e convence outras pessoas a fazer o mesmo. Essa é a paixão que anda a espalhar pelo mundo com resultados cada vez maiores, no primeiro ano (2012) 2.500 pessoas participaram em 64 cidades. No ano passado houve um indiscutível aumento 10.000 pessoas em 145 cidades. Todo o dinheiro angariado é doado a organizações não-governamentais que procuram a cura para o cancro da próstata. E estes cavalheiros vestidos a rigor, como qualquer cavalheiro vestido a rigor, não dizem que não à presença de mulheres no evento.
Em Portugal, são diagnosticados cerca de 4000 casos de cancro da próstata por ano, e a Associação Portuguesa de Doentes da Próstata alerta para homens fazerem exames regulares. Em Lisboa a corrida vai começar às 15h30 no Cais das Colunas, e esperam-se cerca de 200 cavalheiros elegantes. No Porto são mais de 200 no evento que começa mais cedo (14h30), em Leça da Palmeira. A Distinguished Gentleman’s Ride ainda aceita inscrições ou donativos. Bruce deixa o apelo: