Ninguém o conhecia. Palavra de Jesus. Dita e reforçada, com a ajuda de Dumas, D’Artagnan e um clássico da literatura. Veio da Bahia, do nordeste brasileiro, de cabelo pintado de amarelo e 20 anos de um suposto talento por lapidar. “Daqui a uns aninhos vale mais uns milhões”, disse o treinador, quando Talisca deixou três golos em Setúbal. Aí já passou a ser difícil para Jesus ser o único a conhecê-lo. E no Estoril mais complicado ficou.

Culpa do brasileiro, o alto e magricela, que logo ao terceiro minuto foi até à linha do meio campo pedir a bola. Estava de costas para a baliza, algo em que, na pré-época, Jesus via um problema por resolver. Nada disso, pois desta vez foi o início de algo bonito: Talisca recebeu a bola, virou-se, arrancou, passou por quatro adversários em corrida e só abrandou dentro da área, com Pavel Kieszek quase deitado à sua frente. Só teve de escolher o lado. Rematou, marcou e 1-0. Um belo golo.

E o Benfica começava a abrir, como um carro que arranca e deixa o alcatrão com cicatrizes dos pneus: Gaitán e Salvio, nas alas, não paravam quietos e tudo o que faziam, faziam-no a abrir, em velocidade. Estavam ativos, com genica e isso via-se cada vez que tinham a bola. E quando não a tinham também. Aos 7’, quando o Estoril tentava, com calma, sair de perto da sua baliza com a bola, Gaitán previu um passe de Diogo Amado e intercetou-o. Depois, na área, fixou em si a atenção de Kieszek e passou a bola a Talisca, que deu a bola à baliza deserta. 2-0, e nem dez minutos se contavam.

Era o quinto golo de Talisca na liga, igualava os de Jackson Martínez e dava mais uma razão para não ser desconhecido. Algo que Lima não é, graças aos 104 golos que até aqui marcaram em relvados portugueses. É muito, mas esta época tem sido pouco — conta apenas um, de penálti, contra o Moreirense. Aos 17’, contudo, recebeu uma bola à esquerda da área, levou-a para dentro e rematou a bola em arco. Kieszek tocou-lhe, foi ao poste e transformou a bola num ressalto que, após Talisca o rematar contra as costas de Salvio, sobrou de novo para Lima, que de pé esquerdo obrigou o polaco a defender.

Até à meia hora de bola a rolar viu-se Benfica. Apenas e só. Passes certeiros de Gaitán, correrias de Salvio, desarmes de Enzo e jogadas de ataque que não demoravam a levar a bola perto da área do Estoril. Depois, de repente, algo mudou. Os sprints de Sebá, na direita, começaram a fazer sentido. Os cruzamentos de Matías Cabrera começaram a entrar e os dribles para dentro de Kuca, na esquerda, apareceram. E mais: a bola lembrou-se de Kléber, o brasileiro, de 24 anos, que não jogava há dez meses e que o Estoril pediu emprestado ao FC Porto.

Foi ele que, aos 29’, rematou por cima de fora da área e que, no minuto seguinte, desviou ao primeiro poste uma bola que, ao segundo, Yohan Tavares, com a baliza aberta, não conseguiu rematar. Aos 38’ também foi ele que se isolou graças a um passe de Sebá, que rematou ao poste e que viu Diogo Amado aproveitar o ressalto para marcar. 2-1 e, do nada, o Estoril acordava. E o Benfica também, pois na jogada seguinte foi Jardel, com a cabeça, a rematar à trave. Antes do intervalo, ainda houve um livre batido por Kléber para Artur defender.

O Benfica ficava avisado e tinha 15 minutos para matutar sobre isso. Não serviu de nada. O jogo voltou e logo aos 53’ o Estoril empatou. E fê-lo também bem feito. Kuca, na direita, após receber um passe que, fruto de um tropeção, até levou a bola a tocar-lhe no braço, levou a bola para o meio, fingiu um remate, os encarnados acreditaram e, por isso, libertou Sebá na área — que, lá dentro, só teve de passar a bola a Kléber para o brasileiro marcar. 2-2 e, quase dois anos depois, o avançado voltava a marcar na liga (fizera-o pela última vez em maio de 2012, quando saiu com um hat-trick do Rio Ave-FC Porto).

Empate. E alarme. Para o Benfica. Este resultado não servia e nem deixaria a equipa aproveitar o empate de sexta-feira, em Alvalade, que deixou Sporting e FC Porto com um ponto cada. Ali, no Estoril, a missão era ganhar. Aos 60’, Gaitán quase puxava a equipa para a frente quando Kieszek, com a mira torta, aliviou a bola para os seus pés e o argentino, ao segundo toque, rematou a bola para a baliza desde a linha do meio campo. Falhou por pouco.

No minuto seguinte, Matías Cabrera, uruguaio que serviu de moeda de troca do Cagliari para tirar João Pedro Galvão do Estoril, rasteirou Enzo junto à linha e correu mal — valeu-lhe o segundo cartão amarelo, um vermelho e tirou um homem à equipa do Estoril. Era o sinal para Jesus arriscar: logo a seguir tirou Talisca, atirou Derley para o relvado e o Benfica ficava com dois avançados a sério. Resultou. O brasileiro, o ex-Marítimo, obrigou os centrais do Estoril a dividirem-se nas atenções a tomar e, aos 70’, não o viram a desmarcar-se para chegar a um passe do grego Samaris.

Não chegou por pouco, mas Kieszek, que alcançou a bola primeira, encolheu-se quando se tinha de agigantar e deu o ressalto de bola a Derley que, dentro da área e encostado à linha de fundo, desviou a bola em direção à baliza. Pelo sim pelo não, Lima apareceu a pontapeá-la para as redes e fez o 3-2. Alívio para o Benfica. Afinal, o golo metia-lhe à vista uma vantagem de, no mínimo, dois pontos na liderança do campeonato caso fechasse a partida com uma vitória — isto se o Vitória de Guimarães vencer o Marítimo, no domingo.

Assim foi. E com este resultado. Gaitán ainda fez para que houvesse mais golos, correndo entre os adversários, pedindo a bola e redirecionando-a com pequenos toques para outros pés. Como o fez aos 64’, quando o seu calcanhar deixou a bola à frente de Lima para o avançado, pobre e mal-agradecido, rematar bem por cima da baliza. O último apito aparecia e confirmava-se — o Benfica ganhava o jogo e, sobretudo, ficava com dois pontos a mais do que cada um dos rivais. Mas conseguiu-o à força e sobre um Estoril que aproveitou mais a vantagem madrugadora do adversário do que o próprio Benfica, que amoleceu e deixou os homens de José Couceiro crescerem no encontro.