António Lobo Xavier, ex-dirigente e deputado do CDS, defende, em entrevista a Maria João Avillez para o Observador, uma remodelação do Governo e diz que o candidato a primeiro-ministro do PS, António Costa, pede os votos à esquerda mas se tiver que fazer alianças será à direita.
“António Costa diz que olha para a esquerda, mas é para ter os votos da esquerda, não é para fazer alianças”, diz o ex-presidente do grupo parlamentar do CDS, que não acredita que os problemas do PS se resolvam com a vitória de Costa: é preciso esclarecer que rumo escolherá o partido em relação à Europa e à União Europeia.
António Costa e a esquerda portuguesa: “Costa não quer fazer alianças à esquerda”
“Há um problema que não está resolvido. (…) O partido está dividido, é preciso acertar um discurso. Não sei bem o que é ser esquerda hoje, nestas condições. (…) Como é que é possível, realmente, ter um caminho pragmático e respeitador da Europa, embora discutidor, se quiserem, reivindicador, e ao mesmo tempo ter uma legião de pessoas que julgam que é possível fazer isto tudo ao contrário”, questiona António Lobo Antunes.
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Sobre o crescimento dos partidos e dos movimentos mais à esquerda da governação, Lobo Xavier menospreza a força destes projetos em cenário eleitoral: “A única coisa que coisa que eu acho que existe e que pode realmente abanar [o sistema] é quem tem uma alternativa completa que é romper com o pacto orçamental, romper com a Europa”. Lobo Xavier deu, como exemplo, Francisco Louçã que deseja um “regresso a um Portugal autárcico, dono de si próprio”, “mas no meio de uma pobreza e dificuldades enormes”.
Segundo o advogado, o caminho de António Costa, caso seja eleito primeiro-ministro nas eleições legislativas de 2015, passará sempre por uma aproximação à direita, até porque a coligação com os restantes partidos de esquerda não está, verdadeiramente, em cima da mesa. “Com franqueza, acho que António Costa diz que olha para a esquerda, mas é para ter os votos da esquerda, não é para fazer alianças”.
O futuro da coligação: “Não há, ainda, uma clara definição dos caminhos eleitorais de PSD e CDS”.
Sobre o Governo, António Lobo Xavier critica os atuais “falhanços”, referindo-se à colocação dos professores e aos problemas no sistema informático da justiça que, a seu ver, estão a criar atrito entre os parceiros, quando estamos em vésperas de eleições. “Em qualquer país do mundo, isto seria um escândalo absolutamente inultrapassável (…) Não é possível ir para eleições trazendo este lastro [de destruição]”.
Todavia, as críticas mais duras do comentador da Quadratura do Círculo, que divide este espaço, precisamente, com António Costa, recaem sobre o desempenho da ministra da Justiça, Paula Teixeira da Cruz: “Se eu tivesse sido arrogante ao ponto de considerar a obra feita e me tivesse sentado de braços cruzados, e depois, de repente tudo cai, eu tinha vergonha de mim próprio”.
Assim sendo, Lobo Xavier assume como imperativo remodelar o Governo porque, “com este elenco exatamente como está, não pode correr bem”. Ou seja, sem a demissão de alguns dos ministros mais contestados, como Nuno Crato, mas sobretudo Paula Teixeira da Cruz, PSD e CDS arriscam-se a perder as eleições, até porque, do outro lado, está um PS em crescendo.
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Embora considere que as notícias sobre a cisão entre os parceiros de coligação sejam “bastante empoladas”, Lobo Xavier acredita que a união de facto entre PSD e CDS atravessa um momento decisivo, cujo plano mais delicado é a definição do Orçamento de Estado para 2015.
“Paulo Portas e Pedro Passos Coelho são muito diferentes. (…) Passos Coelho é aquela linha rígida – temos de ter um tratamento de choque e depois tudo virá por acréscimo. Paulo Portas acha que tudo o resto não virá por acréscimo. [E o António Lobo Xavier o que acha?] Eu acho que é preciso dosear o travão e o acelerador”, diz.
Sobre o caso Tecnoforma, que envolve o primeiro-ministro, confessa que, se fosse consigo, teria agido de outro modo. “A resposta de [Passos Coelho ao caso Tecnoforma] foi muito tímida. Assim não se consegue acalmar nem devolver a confiança às pessoas”.
O futuro depois de Portas: “Ninguém sabe encontrar” um sucessor de Portas
A hipotética derrota do Executivo PSD/CDS nas próximas eleições coloca uma questão: quem sucederá a Paulo Portas na liderança do partido? António Lobo Xavier, que, em 1992, foi candidato à liderança do partido, faz uma comparação curiosa: “Acontece um pouco com o CDS, neste momento, o que acontece com o Futebol Clube do Porto e com Pinto da Costa. Toda a gente pensa que talvez fosse útil haver uma transição, haver novas figuras (…), mas ninguém sabe como isso se faz, nem ninguém sabe encontrar a pessoa”.
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As primárias no PSD: Aproximação do PSD a Costa é “utopia”
Quando confrontado com as notícias de que apoiantes do ex-autarca do Porto, Rui Rio, se preparam para pedir eleições primárias – para que aquele se apresentasse como adversário de Passos Coelho -, o advogado não acredita que tal seja possível. Acrescenta, ainda, que a ideia de que as primárias no PSD e uma eventual mudança de liderança serviriam de aproximação a António Costa “é uma utopia”.
“Quem são hoje os críticos da coligação? António Capucho, Bagão Félix, Manuela Ferreira Leite, Rui Rio – bastante mais contido, ainda assim. É possível que isso dê um movimento? Não me parece”, diz.
O perfil do próximo Presidente da República: “É preciso alguém com autoridade moral”
A terminar, além de não afastar a possibilidade de regresso à vida política ativa, Lobo Xavier traça o seu perfil ideal de futuro Presidente da República. O sucessor de Cavaco Silva terá de ser alguém com “autoridade humana” e moral, posicionado ao centro, longe das lutas partidárias recentes, “com relevo na sociedade portuguesa” e cujo percurso seja bastante consensual, considerando que Leonor Beleza e Artur Santos Silva, em quem admitiu poder votar, encaixariam bem neste perfil.