Um jogo “disputado” e “digno” de uma liga onde moram campeões. A partida talvez, o relvado não, que “tinha falhas” e “não permitiu ter a bola no chão e fazer passes”. Hora e meia de bola a rolar. De passes, remates, correrias e luta. No final, um 0-0. Um nulo inalterável. Mas, de um lado, “foi tudo bem feito”. Isto contra o AS Monaco? Não monsieur. As palavras, contudo, disse-las Luisão, logo na ressaca de uma partida em França, sim, para Champions, também, mas não agora. Aconteceu lá longe, em 2005/06, tão distante que o brasileiro é o único que continua a jogar à bola no mesmo sítio.

Um 0-0 é quase sempre aborrecido. Este foi-o. E também foi outra coisa: o melhor resultado que o Benfica conseguiu em França, entre as cinco partidas que por lá realizou para a Liga dos Campeões. Isto num jogo em que o relvado, com buracos e solavancos, pouco ajudou. Parece hábito francês — no Mónaco, a relva do Estádio Luís II também se fez de difícil. E a partida sofreu com isso. E muito.

Os flancos que o digam. Os minutos passavam e, perto das linhas laterais, os pedaços de relva soltos multiplicavam-se a cada arrancada ou mudança de direção que se via. E para quem vive do que Gaitán e Salvio conseguem inventar com a bola no pé, a correrem e a sprintarem, isto não é bom. E não foi mesmo. A primeira parte de bem jogado teve pouco e de perigoso, para as balizas, ainda menos.

Um 0-0, costuma-se dizer, é sinónimo de duas equipas a cometerem poucos erros a defender ou a falharem muito quando é altura de marcar golos. Nem uma coisa, nem outra — Benfica e AS Monaco simplesmente não trocavam mais que três passes na metade do campo contrária. Os franceses, fechados e certinhos à moda de Leonardo Jardim, o treinador, poucos espaços abriam ao meio para a bola passar. Nas alas, quando a bola por lá andava, tinham sempre um homem a ajudar outro. E os encarnados demoraram a inventarem maneiras de arranjar espaço.

Algo que os gauleses até fizeram cedo. Foi logo aos 5’, quando Berbatov recebeu uma bola dentro da área, virou-se, e não nem olhou para a baliza: estava à procura de Lucas OCampo, a versão mexicana de um craque que os monegascos têm na equipa. O búlgaro encontrou-o com um passe, mas, no centésimo de segundo antes de a bola encontrar o pé de OCampos, a relva fê-la saltar. Resultado: o remate saiu alto e bem torto. Esperaram-se quinze minutos até Gaitán se lembrar de ser veloz, arrancar, ultrapassar dois adversários e cruzar a bola por alto, que Salvio deixou bater na relva antes de rematar. Ou seja, não acertou na baliza.

Só aos 28’, aliás, é que um remate inofensivo de Toulalan, a 25 metros da baliza, fez com que um guarda-redes tocasse na bola. Aos 39’ apareceu a segundo — e a mais perigosa –, quando Talisca, de primeira, cruzou a bola desde a direita e a fez fugir a toda a gente. Menos a Lima, que a rematou, já na relva, para Subasic, o croata guardião da baliza do Monaco, defender. E pronto. Enzo e André Almeida, no meio, continuava a poucos passes trocarem entre si, enquanto Gaitán e Salvio, com bola, tentavam, sozinhos, arranjar espaço para cruzar para uma área de onde Talisca fugia e Lima era engolido por Ricardo Carvalho e Raggi.

O intervalo melhorou as coisas. E o jogo. Toda a gente começou a arriscar mais no ataque e a errar na defesa. Aos 48’ foi Luisão, a quem a idade pesou nas perdas para correr atrás de Anthony Martial, que se desmarcou e conseguiu rematar — mas a bola passou ao lado. As equipas atacavam mais rápido. Os jogadores mexiam-se mais e percebiam que, a tabelarem a bola, abriam espaços na defesa contrária.

Ou a abrir túneis. Como fez Gaitán, aos 59’, quando a bola lhe chegou na esquina da área, a meteu por entre as pernas de Fabinho e, logo depois, a rematou com força e contra as mãos de Subasic. Invenção do jogo. E, aos 65’, apareceu a jogada: um contra ataque foi à boleia da canhota de Talisca, que soltou a bola para a entrada de Salvio que, ao invés de a passar para Lima, preferiu rematar e deixar o guarda-redes defender. No minuto seguinte, um remate de André Almeida, à beira da área, também era defendido.

Por esta altura Gaitán já pouco corria quando era preciso defender, e Enzo recuava devagar após avançar a sprintar. O Benfica tornava-se melhor amigo dos contra ataques. E a defender juntava os jogadores e esperava que o Monaco errasse, pois capacidade para desmontar os encarnados havia pouca. Isto até Lisandro López arriscar. Numa jogada dividida com João Moutinho, o argentino entrou de sola na bola e tirou-a dos pés do português, tocando-lhe depois na perna. O árbitro achou de mais. E mostrou-o com um cartão vermelho. Menos um jogador para o Benfica.

Ficava mais complicado. Em teoria. Pois na prática a equipa de Leonardo Jardim quase nada fazia que resultasse em perigo. Só Ferreira-Carrasco e Martial tentavam fazer coisas, mas sozinhos, em dribles contra o mundo, que os encarnados anulavam. Os contra ataques do Benfica não mais apareceram e, até ao fim, só Toulalan, o francês cuja aparência lhe acrescenta anos de vida, rematou para Artur defender sem problemas, aos 86’. O jogo terminou e os encarnados amealharam o primeiro ponto nesta Liga dos Campeões. Um fruto insuficiente para o que a equipa precisava de levar do Mónaco.

O empate deixa a equipa de Jorge Jesus em último, a ver ao longe as restantes equipas do grupo, com um golo marcado e cinco sofridos. Pouco. Insuficiente para quem, nas últimas duas épocas, esteve na final da Liga Europa — no outro jogo do grupo, o Bayer venceu (2-0) o Zenit em Leverkusen e, assim, continua a liderar esta corrida a quatro. Restam três jogos para terminar a fase de grupos e, agora sim, o Benfica terá de os vencer todos para tentar depender só de si. Tentar, porque três vitórias seguidas poderão não chegar caso os encarnados não anulem a diferença de golos no confronto direto com o Zenit de André Villas-Boas. Sim, já chegámos à fase das contas.