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Xabier Pérez Gaubeka, um dos diretores do Museu Guggenheim de Bilbao, está em Lisboa para mostrar como a cultura pode ser uma ferramenta importante no desenvolvimento, seja de uma cidade ou de um país. “Fazendo as coisas de forma organizada e pensada, mais cedo ou mais tarde os resultados chegam”, disse ao Observador, na véspera do início da “Conferência Internacional de Património Cultural e Turismo: Conceitos, Realidades, Perspectivas”, que decorre entre 30 de outubro e 1 de novembro, na Universidade Lusófona.

A marca “Guggenheim” é, por si só, um atração turística. Mas não é uma garantia de sucesso. Em 2012, o pequeno Guggenheim de Berlim fechou as portas após 15 anos de atividade. Hoje, há quatro museus na rede: Nova Iorque, Veneza, Abu Dhabi e Bilbao. No último fim de semana celebraram-se 17 anos desde a abertura do museu na cidade do País Basco, e há razões fortes para festejar.

“No passado, Bilbao era uma cidade rica e industrial, mas com a crise dos anos 80 sofreu um descalabro tremendo. Os políticos da época apostaram em algo totalmente diferente: cultura”, contou o membro do comité de direção do museu. “Foi um projeto com tal aceitação que, 20 anos depois, pode dizer-se que mudou a cidade. É disso que vou falar, da cultura como fator de desenvolvimento, de tudo o que gerou e que vai continuar a gerar”, disse, sobre a apresentação que vai fazer na conferência, esta quinta-feira de manhã.

Não vem dar lições. Até porque admite que não conhece em profundidade o que se faz em Portugal. “Ensinar a culturas distintas é difícil”, avisa. Mas crê ser importante saber que “fazendo as coisas de forma organizada e pensada, mais cedo ou mais tarde os resultados chegam”.

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Xabier Pérez Gaubeka é “director de desarollo”, o que em Portugal se assemelha a direção comercial. É dele que depende o autofinanciamento do museu. No museu espanhol vigora o modelo de gestão mista, com público e privado. O orçamento do Guggenheim Bilbao é composto por duas partes distintas. “70% vem da própria atividade do museu, onde se englobam em três partes iguais as receitas de bilheteira, da loja do museu e os patrocínios das empresas parceiras. Os restantes 30% é financiamento público. Como somos uma entidade sem fins lucrativos, esses 30% cobrem o prejuízo anual”, explicou.

Guggenheim Museum, Bilbao (Spain)  (Photo by Taller de Imagen (TDI)/Cover/Getty Images)

O Museu Guggenheim Bilbao. ©Getty Images

“Creio que somos a instituição na Europa com maior índice de autofinanciamento”, lembrando que na maioria dos países europeus os números andam muito longe dos 70% do total. “Por norma todas as entidades culturais são deficitárias, mas houve um ano ou outro em que quase nos equiparamos a museus americanos. Antes da crise, claro”.

Nesse aspeto, a crise económica que atingiu Espanha não ajudou. As instituições públicas diminuíram as subvenções, o museu baixou os bilhetes privados. ” Tomámos as medidas necessárias para que a atividade se mantivesse igual e para que as exposições continuassem a ser atrativas”. A crise também não ajudou no planeamento organizado e pensado que Xabier defende. “Num período normal, quatro anos é um projeto a longo prazo. Mas numa situação de crise, não se pode trabalhar a quatro anos porque amanhã tudo muda. Então, face à realidade, o plano estratégico passou a dois anos, mas com uma meta fixada em 2020, em que teremos de atingir determinados objetivos”.

Aquando da sua construção, o objetivo era receber entre 400 e 500 mil visitantes por ano. Hoje o museu recebe cerca de um milhão de pessoas. “Em 2013 tivemos 931 mil pessoas, mas este ano devemos passar a marca de um milhão”, contou. A entrada mais cara no Guggenheim é de 13 euros, audioguia incluído. E que não se pense que a programação das exposições é secundária, face ao nome Guggenheim e ao monumento arquitetónico de Frank Gehry.

“No princípio, o fator edifício era muito relevante, porque chama muito a atenção”, admite. Mas é importante misturar bem a forma e o conteúdo.”17% dos visitantes são regressos, por isso creio que ao longo dos anos fomos gerando interesse nas pessoas para que queiram ver o interior do museu. A arte contemporânea na zona de Bilbao era um tipo de arte totalmente desconhecido, mas as crianças que começaram a desfrutar o museu há 20 anos vão ser os que vão continuar a consumir o museu nos próximos 20 anos”.

People walk among US artist Richard Serra's sculptures "The Matter of Time", during the presentation of the Guggenheim Bilbao Museum's latest exhibition "Brancusi-Serra", on October 7, 2011, in the northern Spanish Basque city of Bilbao.    AFP PHOTO/ RAFA RIVAS  (Photo credit should read RAFA RIVAS/AFP/Getty Images)

Esculturas “The Matter of Time”, de Richard Serra. ©Rafa Rivas/AFP/Getty Images

Quanto ao conteúdo, o diretor destaca a programação dinâmica, que leva a que haja anos com sete e oito exposições diferentes. Há obras pertencentes à rede Guggenheim, mas também fazem parcerias com outros museus fora da rede. “A coleção própria do museu tem 130 obras, das quais se destaca a instalação “The Matter of Time“, com as esculturas mais importantes do norte-americano Richard Serra. “É um sítio de peregrinação”, diz.

2014 é um ano importante para o Guggenheim Bilbao. Em dezembro renova-se o principal acordo com a Fundação Guggenheim de Nova Iorque, por mais 20 anos. Por essa razão, neste momento, o museu está todo dedicado a obras das coleções Guggenheim. Assim ficará durante os próximos três meses.

Já a “Conferência Internacional de Património Cultural e Turismo: Conceitos, Realidades, Perspectivas”, organizada pela Progestur e pela Universidade Lusófona, fica em Lisboa durante os próximos três dias. Nos painéis contam-se, por exemplo, especialistas mundiais de Turismo de Taiwan, Índia e Barcelona. Desenvolvimento, oportunidades de negócio, cultura popular, identidade, inovação, cooperação inter-regional, empreendedorismo, rotas turísticas, festivais, gastronomia e literatura são os temas que integram o programa.