“Numa idade em que as pessoas esperavam uma vida mais tranquila, com afeto e carinho na família, é muitas vezes lá que encontram os maus tratos”. As palavras de Teresa Morais, Secretária de Estado dos Assuntos Parlamentares e da Igualdade, sintetizam uma realidade complexa: a violência contra as mulheres com mais de 60 anos.

Teresa Morais reconhece que “habitualmente as campanhas contra a violência doméstica não têm qualquer referência à maior vulnerabilidade destas vítimas”. Para colmatar esta lacuna, a Comissão para a Cidadania e Igualdade de Género (CIG) lançou uma campanha institucional intitulada “Nunca é tarde para uma vida sem violência”. Todos os anos no dia Internacional pela Eliminação da Violência contra as Mulheres, 25 de novembro, a CIG lança uma campanha com um tema particular.

  • Em 2011, o foco estava no homicídio conjugal. O lema era “Quantas reconciliações terminaram assim?
  • Em 2012, o foco estava nos efeitos que a violência sobre as mulheres tem nos filhos. O lema era “Quando a agridem a si, há mais alguém que fica marcado para a vida”.
  • Em 2013, a campanha foi realizada em conjunto com a CPLP. Mulheres de vários países participaram na campanha com o lema “Contra a violência eu dou a cara. Diga não à violência contra as mulheres”.

A violência contra as mulheres idosas chega de várias formas. A mais comum é a “violência psicológica e financeira, seguida da física”, constata Teresa Morais. “Já não andas cá a fazer nada” é uma das frases que agride psicologicamente muitas mulheres com mais de 60 anos. A violência psicológica passa por transmitir à pessoa que “ela é um imbecilho, que já não é útil, que constitui um problema para a família”, exemplifica, sendo que, aqui, os agressores mais comuns são os familiares em geral, seguidos dos cônjuges.

“Dizem-me que o melhor é tomarem conta do meu dinheiro”, é uma das frases presentes nos folhetos, cartazes e vídeos realizados para a campanha lançada esta terça-feira. A privação dos rendimentos, apropriação das pensões ou até apropriação da habitação são as atitudes mais comuns em quem exerce violência financeira sobre as mulheres idosas, explica a Secretária de Estado dos Assuntos Parlamentares e da Igualdade. Neste caso, os principais agressores são os descendentes que introduzem nas mães a ideia de que estas “já não têm cabeça para tomar conta do seu dinheiro” e “já não sabem o que fazem”.

Os abanões, as bofetadas ou as tentativas de asfixia constituem agressões encetadas, na sua maioria, pelo cônjuge ou companheiro da vítima. “Aqui, a pessoa é acusada de ser desastrada, de fazer as coisas mal. As mulheres são acusadas de já não saberem tomar conta do que tinham de tomar”, explica Teresa Morais.

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Na realização do vídeo estiveram envolvidas sete pessoas, entre designers, copy, accounts e produtores da Inédito Agency. Mário Porfírio é o managing partner e refere que esta campanha é especial pela “brutalidade” da realidade implícita. “No processo de recolha de informação vemos vídeos, imagens e lemos sobre situações horríveis que podem acontecer a alguém que nos é próximo e isso gera, muitas vezes, sentimentos mais fortes do que campanhas de outros temas”, confessa, admitindo que, aqui, as imagens chocantes funcionam sempre. Em cada campanha é preciso identificar “as mensagens mais importantes”. Neste caso concreto “há uma responsabilidade de passar mensagens positivas de esperança”, conta o managing partner, Mário Porfírio.

“É das experiências mais traumáticas que se pode ter”, sintetiza Teresa Morais. Não há outra forma de qualificar estas situações que, muitas vezes, perduram no silêncio. Devido à idade avançada, “muitas destas pessoas estão numa situação de isolamento”. Além disso, as vítimas temem represálias por parte dos familiares. Estando numa situação mais vulnerável, muitas situações de violência nunca chegam a ser conhecidas pelas forças de segurança — ficam nas quatro paredes das casas. “Esta é uma campanha direccionada às próprias vítimas, mas é também para a comunidade em geral”, explica, para que se fale mais e se denuncie mais.

Em 2013, segundo o Relatório Anual de Segurança Interna, 8% das queixas por violência doméstica eram de mulheres com mais de 65 anos.

Vão circular folhetos em organismos públicos, como centros de saúde, câmaras municipais e juntas de freguesia. As mensagens serão divulgadas nas estações de rádio e televisão e estarão também nas fachadas dos autocarros e na rede multibanco. A mensagem mais importante está em reforçar a possibilidade de um novo horizonte para estas mulheres. “As pessoas não têm de estar numa relação violenta até morrerem. Aquelas mulheres podiam ser nossas mães e nossas avós.”

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