Os indígenas do povo Terena, moradores do Mato Grosso do Sul, no centro-oeste do Brasil, ameaçam, em carta ao governo, que irão retomar “fazenda por fazenda” que esteja na terra indígena Taunay/Ipegue, ainda não demarcada oficialmente.

“Não há por parte do governo brasileiro nenhuma intenção de dar prosseguimento à demarcação de terras. É triste o facto de que nosso povo tenha de se organizar para buscar o território através das ações de retomada”, já que existirá “enfrentamento com capangas”, afirmou à Lusa Lindomar Ferreira, 40 anos, do povo Terena.

Na madrugada do último dia 28, 200 indígenas Terena viram-se envolvidos com com seguranças armados numa das fazendas do Mato Grosso do Sul onde haviam montado um acampamento.

E é no seguimento desses confrontos que agora enviam uma carta formal ao governo, reafirmando as ações de ocupação e exigindo apoio.

PUB • CONTINUE A LER A SEGUIR

“Não aceitamos que o governo falte com vontade política para resolver nosso impasse, que passa de geração a geração. Os que não morrem, ficam enfermos”, acrescentou Ferreira.

O processo de demarcação de 33 mil hectares da terra indígena Taunay/Ipegue iniciou-se na década de 1980, mas foi suspenso em 2010 pela Justiça após ações de fazendeiros da região. Em abril deste ano, a decisão judicial foi revogada, e, desde então o povo Terena aguarda a expedição de uma portaria do governo federal que dê continuidade ao processo.

Atualmente, afirmou Ferreira, entre seis e sete mil indígenas Terena vivem em três mil hectares de terra, o que é insuficiente para sua subsistência. “O espaço não oferece perspetiva de vida, a terra está cansada e não temos espaço para produzir o nosso próprio alimento. Sempre vivemos da agricultura”, afirmou.

O restante da área reivindicada pelo povo Terena integra atualmente fazendas de criação de animais, maioritariamente. Segundo Ferreira, as ocupações são pacíficas e, assim que as famílias chegam se instalam na terra, costumam levar arroz, feijão e açúcar para cultivo, além de lonas a para o acampamento, com a esperança de fixar residência. Entretanto, sofrem retaliações de seguranças.

“A gente sabe que, se lutar, corre o risco de morrer. Mas, se ficarmos de braços cruzados, morremos do mesmo jeito”, disse.

Lindomar Ferreira realçou que os indígenas se apoiam em instituições como o Ministério Público e a Funai (Fundação Nacional do Índio) para denunciar a violência e obter proteção. Apesar da disposição para reivindicar as terras, ele reconhece que, em 2015, o panorama não é favorável.

“A perspetiva é a de que a luta seja mais difícil, vemos um Congresso mais conservador e um governo reeleito que retrocedeu na nossa questão. Para o segundo mandato, esperamos que a presidente deixe transparecer uma imagem melhor, de quem já sofreu e lutou contra abusos”, disse Ferreira, referindo-se à atuação política de Dilma Rousseff durante a ditadura militar brasileira.