Brian Atwood, antigo conselheiro da administração Clinton e do ex-secretário-geral da ONU, Kofi Annan, diz estar preocupado com a maneira como a direita europeia está a reagir à vaga de imigração vinda de África e do Médio Oriente. Em entrevista ao Observador, quando da sua vinda a Portugal como orador nas Conferências de Lisboa, Atwood alertou, ainda, para os perigos do agravamento de crises quer se trate de doenças ou de terrorismo a nível mundial, sem se tratar das suas causas através da ajuda ao desenvolvimento. Para a política americana em 2016, Atwood só vê uma opção: Hillary Clinton.

A União Europeia é umas das organizações que mais contribui para o desenvolvimento em países terceiros. Pensa que esse dinheiro está a ser bem empregue? A quantia é mais importante do que a qualidade das políticas implementadas no terreno?
Se estivéssemos a fazer investimentos de capital privado, diríamos que o retorno de 50% seria bom. Estamos a trabalhar em algumas das zonas mais duras do mundo e as parcerias variam consoante os programas implementados, mas há um maior enfoque nos resultados desta ajuda na última década e de facto, somos mais eficazes. Muito disto vem também de termos percebido que os países que ajudamos são nossos parceiros e, se tivermos um bom parceiro, temos uma boa parceria. Mas ainda há muito a fazer.

Quando se fala de questões de desenvolvimento, especialmente nos países à volta da Europa, é inevitável falar sobre imigração. Qual é a forma mais eficaz de evitar tragédias como as que acontecem diariamente em Lampedusa? O que é que a Europa ainda não fez?
É preciso investir mais nesses países para que haja oportunidades lá. Qualquer pessoa com ambição, se viver num país pobre, vai querer sair de lá. A maioria das pessoas que chega ilegalmente tanto à Europa como aos EUA é muito talentosa e corajosa. Mas penso que eles preferiam ter mais condições nos seus próprios países e aí entra o desenvolvimento. A recente medida do presidente Obama de legalizar os imigrantes foi muito corajosa porque íamos ter a separação de muitas famílias e não queremos isso, embora os republicanos se oponham a esta decisão. Na Europa, estou cada vez mais preocupado com a reação da direita à imigração. Se estudarmos a imigração, vemos que quem veio para a Europa ajudou a economia e ficou com trabalhos que ninguém queria. O problema na Europa é a integração e penso que nos Estados Unidos resolvemos isso. Os árabes americanos continuam a falar a sua língua, mas sentem afiliação com os Estados Unidos e penso que é mais difícil isto acontecer no Reino Unido.

E como vê a integração em Portugal?
Portugal faz isso bem. Muitos imigrantes vêm de países língua portuguesa e o mesmo se passa em França, onde a maior parte dos imigrantes vem de países francófonos. Isso faz com que as pessoas se sintam parte da sociedade. Há um grande problema na Europa com os roma e estive também, recentemente, numa reunião em Varsóvia sobre o crescente anti-semitismo. Há muitos problemas que precisam de ser resolvidos, mas não podemos politizá-los. Temos de dar informação às pessoas para que não haja medo da imigração.

O que é que sobre as restrições que estão a ser impostos à circulação de imigrantes provenientes de países dentro da própria União Europeia?
Eu vi o que Sarkozy disse no outro dia sobre Schengen e pareceu-me uma abordagem muito negativa, já que ia contra aquilo que Schengen significa. O que eu penso é que, se a zona euro não está a conseguir ajustar a sua moeda aos seus problemas económicos, a imigração entre Estados-membros tem de acontecer e Schengen é um dos grandes benefícios de pertencer à União Europeia.

Houve uma mudança na política americana após as eleições intermédias de novembro, com os republicanos a conquistarem maiorias no Senado e no Congresso. Acha que isso vai afetar a ajuda ao desenvolvimento dada pelos Estados Unidos?
Eu penso que haverá mais pressão no financiamento da ajuda ao desenvolvimento em países terceiros, mas penso que há um consenso bipartidário, que este é um tema importante e que se relaciona com a política de defesa dos EUA. Os republicanos sob a alçada de Bush inventaram a estratégia dos três D: diplomacia, defesa e desenvolvimento. Há, por isso, mais apoio político ao desenvolvimento, exceto, claro, da parte do Tea Party. Acho que vamos ver algumas reduções, mas não significativas.

Pensa que, de alguma forma, estas ajudas ao desenvolvimento vão substituir os investimentos na Defesa já anunciados por Obama em países como o Iraque e o Afeganistão?
Eu espero que sim, mas a ligação não é feita dessa maneira. Essa troca também não é visível em termos de orçamento já que os fundos para a Defesa e os fundos para o Desenvolvimento vêm de sítios diferentes. Mas agora, com o desafio do ISIL [Islamic State of Iraq and the Levant, auto-intitulado Estado Islâmico], vai haver um aumento no orçamento da Defesa.

Mas considera que pode haver um esforço de defesa bem-sucedido nos países onde há toda esta agitação, como a Síria ou o Iraque, sem haver um esforço, não só da parte dos Estados Unidos, mas também de outros países na questão do desenvolvimento, especificamente um investimento na educação?
Eu acho que devíamos estar a trabalhar na prevenção destas crises e que o investimento a longo prazo no desenvolvimento ia ajudar a isso. Na maior parte das vezes, acorre-se à crise em si, em vez de se tentar travar a situação antes de acontecer e isso é muito triste. Na proporção a que a população mundial está a crescer, nós já não conseguimos lidar com as crises, quer seja com a fome a grande escala, quer sejam doenças como o ébola – um caso que pudemos verificar recentemente – e o mesmo se passa em relação ao terrorismo. Não temos essa capacidade e toda a gente precisa de pensar no que pode fazer.

Vê Hillary Clinton como candidata dos democratas à presidência dos Estados Unidos em 2016?
Eu já disse a várias pessoas que o que precisamos em 2016 é de alguém com experiência, que tenha vivido na Casa Branca durante alguns anos, que tenha sido senadora, que tenha sido Secretária de Estado durante quatro anos e que seja uma mulher. Portanto, estou a falar de Hillary Clinton.