O “progresso limitado” em Lima vai exigir grande esforço para o Acordo em Paris, que deverá substituir o Protocolo de Quioto. O balanço é da organização ambientalista portuguesa Quercus e é partilhado por organizações internacionais como a Green Peace e a WWF.

A Conferência terminou este domingo “com as grandes questões e debates para Paris”, onde o novo acordo global pelo clima deverá ser assinado em dezembro de 2015. “A necessidade de eliminar as emissões dos combustíveis fósseis até meio do presente século, deixando-os no subsolo, e a mudança de investimentos para as energias renováveis” mereceu o apoio de mais de uma centena de países, economistas e instituições, refere a Quercus, mas as duas semanas de debate não foram suficientes para acordar nas questões-chave.

Para a Quercus, um dos maiores falhanços foi “a falta de ambição e de concretização de medidas e apoios até 2020, quando o Acordo de Paris entrará em vigor”. A organização lembra que, nos últimos meses, “os países apresentaram 10 mil milhões de dólares para, através do Fundo Climático Verde, financiar a ação de países em desenvolvimento a seguirem um caminho de baixo carbono e a tornarem as suas comunidades mais resilientes”. Mas esses apoios com que os países em desenvolvimento podem contar para a adaptação às alterações climáticas, de forma a até 2020 se atingir o valor de 100 mil milhões de dólares por ano como previsto, não ficaram claros.

De acordo com o documento final da cimeira aprovado, em Lima, intitulado “A chamada à ação de Lima”, todos os países terão de apresentar à Organização das Nações Unidas (ONU), antes de 1 de outubro de 2015, compromissos “quantificáveis”, “ambiciosos” e “justos” de redução de gases de efeito de estufa. Também ficou decidido que terão de apresentar informação detalhada das ações para conseguir que essa diminuição se cumpra efetivamente.

Esta manhã, a Organização internacional Não Governamental WWF publicou um comunicado onde lembra que 2014 foi o ano mais quente da história do planeta. Ainda assim, os Governos “optaram por um plano insuficiente para cortar as emissões” de gases de efeito estufa. “O resultado em Paris ainda é um mistério e os Governos podem resolvê-lo”, acredita a organização. Mas antecipa que conseguir uma solução no próximo ano de forma adequada – baseada em ciência e não em política – não vai ser fácil.

O balanço do Green Peace vai no mesmo sentido. Lembram que a ciência é clara acerca da necessidade de deixar para trás o carvão, o petróleo e o gás, mas criticam os Governos por empurrarem o problema, ao continuarem a falhar num futuro de energias limpas “já ao nosso alcance”, disse Martin Kaiser, responsável pela política climática internacional. “O sucesso do acordo de Paris no próximo ano depende agora das decisões que os políticos fizerem quando chegarem em casa”, pode ler-se no comunicado.

Fóssil do Dia para Portugal

O encontro em Lima começou a 1 de dezembro para desenhar a fórmula que será usada pelos países durante 25 anos para proteger a Terra do aquecimento global. Deveria ter terminado na sexta-feira, com os representantes dos 190 países presentes na cimeira a desenharem um esboço para um novo acordo, que irá substituir o Protocolo de Quioto, mas no sábado à noite as negociações chegaram a estar paralisadas.

O ministro português do Ambiente, Jorge Moreira da Silva, esteve presente em Lima. Mas Portugal recebeu logo ao início um “fóssil do dia”, a par da Austrália, Bélgica, Irlanda, Áustria, Islândia e Grécia, por ser um dos únicos países desenvolvidos que ainda não tinham contribuído financeiramente para o Fundo Verde para o Clima.

O “Fóssil do Dia” é o galardão da Rede Internacional de Ação Climática (CAN, na sigla em inglês), que inclui a Quercus, para as piores prestações nas conferências internacionais sobre o clima. No discurso oficial de Portugal em Plenário, o Ministro do Ambiente, Jorge Moreira da Silva, apresentou o compromisso de Portugal fazer a sua contribuição em 2015, “facto relevante também do ponto de vista simbólico e político e que a Quercus considera como um passo importante e positivo”, escreveu a organização portuguesa em comunicado.

No discurso que Jorge Moreira da Silva fez na cimeira, deixou um apelou aos países para que aprovassem urgentemente uma substituição do protocolo de Quioto, uma vez que a temperatura mundial não para de subir.

Na segunda-feira, 8 de dezembro, foram divulgados os resultados do Climate Change Performance Index 2015, que efetua um ranking climático dos 58 países industrializados. Portugal ficou classificado em 4.º lugar, mas para a Quercus “esta boa posição não deve, no entanto, impedir Portugal de ter um cuidado maior em áreas como o setor dos transportes e da eficiência energética dos edifícios e setor residencial, onde a pontuação atingida não foi muito elevada”.