Tudo é feito de escolhas. E muitas há para fazer quando está uma bola no meio. Um penálti pede que alguém decida o lado para onde a rematar. Um passe obriga a meditar se o melhor é mantê-la na relva ou atirá-la pelo ar. E uma finta impõe que se invente a forma de o jogador, e a bola, ultrapassarem juntos um adversário. Qualquer caso, estes e outros, costuma ter várias hipóteses à escolha — o mais difícil está em acertar numa delas. E se errar é coisa de humano, também devia ser de futebolista.

Porque se, em hora e meia de bola a rolar, ninguém errasse, os golos seriam coisas bem raras. Ou não, pois durante quase meia hora em Moreira de Cónegos, poucos foram os jogadores que não se enganaram a tomar opções. Oriol Rosell, logo aos 50 segundos, atrapalhou-se com a bola sem ninguém por perto, perdeu-a, derrubou quem o roubara e viu um cartão amarelo. Depois, para lá da linha do meio campo, acertar um passe era coisa que jogador do Sporting raramente fazia.

Quem corria pelo Vizela chateava, sim. Os jogadores fechavam-se na sua metade do campo, juntavam-se e pressionavam apenas quando a bola espreitava nos espaços entre si. Depois, era ter paciência, esperar pelo erro de um leão vindo de dois andares acima (o Vizela está no Campeonato Nacional de Seniores, a terceira divisão) e aproveitar para contra-atacar. E cruzar a bola para a área, muitas vezes. Resultava, pois os leões perdiam muitas bolas, os extremos não ajudavam os laterais a defender e área do Sporting era território desprotegido. A escolha parecia acertada.

Ainda mais quando, aos 17’, a cabeça de Davide Bessa rematou a bola vinda de um desses cruzamentos e a fez passar perto, bem perto, do poste direito da baliza de Marcelo Boeck. Dois minutos depois, só aí, o Sporting conseguia, do outro lado, o primeiro canto. Entre passes errados, contra-ataques falhados e jogadas que nem três segundos duravam, o jogo estava aborrecido. Azar, neste caso, de quem escolhera comprar bilhete para na bancada assistir à eliminatória da Taça de Portugal que levara o Sporting a Moreira de Cónegos, casa emprestada ao Vizela pelo adversário que, no fim de semana, quase ganhara em Alvalade.

A só começou a mudar aos 33’. E escolheu enlouquecer. O primeiro traço de loucura veio de uma bomba que Cédric disparou no lado direito e que Pedro Albergaria, guarda-redes do Vizela, defendeu para a frente. O alarme soara para tirar a bola dali, mas a defesa não foi capaz e colocou-a nos pés de Fredy Montero, dentro da área. Talocha, à sua frente, foi perspicaz e lembrou-se de colocar os braços atrás das costas, não fosse o diabo tecê-las. Ou o árbitro, que nem assim o perdoou quando a bola lhe tocou no braço direito vinda do pé do colombiano. Apito, penálti e 1-0 para o Sporting, graças a André Martins, que não escolheu bem o lado — o guardião adivinhou –, mas bateu bem o suficiente na bola para Albergaria não a parar.

Depois foi tempo de louvar a escolha de Fininho. O alto e magrinho extremo do Vizela, canhoto que, em miúdo, até se apresentou à bola no Sporting — sim, mas no futsal. Durante cinco anos o português nada quis com relva e estádios ao ar livre. Esteve até na primeira divisão espanhola e pré-convocado pela seleção nacional o Mundial de 2004, mas “o bichinho” do futebol chamou-o. E Fininho escolheu ouvir. Hoje está com 31 anos e, por cá, sempre vagueou entre a terceira e segunda divisões. Mas foi da sua canhota que, aos 37’, num livre à esquerda da área do Sporting, saiu a bola que Marcelo Boeck quis agarrar, não conseguiu e deixou fugir para Talocha. Um erro, um golo, e o 1-1.

O encontro enlouquecera de vez. E não parava. Aos 39’ foi André Martins, também num livre, a ver Paulo Oliveira correr, cruzar para lá a bola e a ver o central leonino saltar mais alto que os outros para cabecear a bola rumo à baliza. Só parou na rede. 2-1 e segundo golo do português pelos leões. O alívio não durou muito e bastou a bola chegar de novo a Fininho. O tal que, em jeito de futsal, a pisar a bola com a sola e a encurtar todas as fintas que fazia, ganhou uma falta à direita da área do Sporting, bateu o respetivo livre e obrigou Marcelo Boeck a parar a bola junto ao ângulo superior da sua baliza.

Canto. Para Fininho também bater e Talocha voltar a marcar. O defesa central do Vizela, na pequena área, aproveitou o bocadinho que falta a Naby Sarr para tocar na bola e o bocadão com que Marcelo se atrasou a atacar a bola para, de novo, empatar o jogo. 2-2 e o Sporting confirmava uma coisa: dava-se mal com o que vinha (Moreirense empatara 1-1 em Alvalade, no domingo), ou acontecia, em Moreira de Cónegos. Ao intervalo parecia que ambas as equipas fizeram a mesma escolha — só marcarem golos quando a bola parasse em livres ou cantos.

E a segunda parte deu outra pista para o indicar. O jogo recomeçou com os leões mandões, a reclamaram mais a bola para si e a abusarem mais da velocidade de Carrillo e Mané, nas alas. Se uma equipa está no primeira degrau da escada do futebol português e a outra surge no terceiro, os ritmos a fazer as coisas serão diferentes. Mas só aí se começaram a notar. O Sporting ia rematando mais, os cantos apareciam e o Vizela encolhia-se. E aos 59’, lá está, num canto, André Martins cruzou a bola, Naby Sarr desviou-a e Carlos Mané, mais perto da baliza, rematou-a. Golo e 3-2.

Os anfitriões abrandavam. Parecia não haver energia para mais reação. Os leões, contudo, não aceleraram para o aproveitar. Mantiveram o ritmo, o assim-assim na velocidade de trocar a bola. Ainda deu para, aos 63’, João Mário rematar à entrada da área e só não dar golo porque Pedro Albergaria parou a bola junto à barra da baliza. Depois o Sporting pareceu ter escolhido o piloto automático: abrandar, segurar a bola, trocá-la com paciência e tentar cansar ainda mais o adversário.

O Vizela percebeu-o — e optou por ir às reservas e dar tudo. Quase resultava. Por duas vezes. Na primeira, aos 70’, Marcelo Boeck escolheu confiar na sorte e ela não o desiludiu, ao levar a bola vinda de um livre batido por Luis Ferraz, na quina da área, a bater na barra da baliza. Na segunda, com 77 minutos jogados, Fininho, noutro livre, este à direita, rematou a bola com força, mas o guardião brasileiro conseguiu defender.

E o Sporting parecia ter escolhido sofrer. Conseguir uma vitória a custo. Porque Junya Tanaka, aos 84’, deixou que Albergaria parasse a bola que Slimani lhe oferecera para marcar. E porque, durante 90 e poucos minutos, o Sporting foi titubeante. Por escolha própria ou não, Naby Sarr continua a sofrer para defender jogadas rápidas, Oriol Rosell falha onde mais lhe ensinaram a não errar — no passe, porque cresceu em La Masia, na escola de futebol do Barcelona –, ou Carrillo e Mané, com dribles, arranques ou simulações, nunca conseguiram desequilibrar adversários habituados ao terceiro escalão do futebol português.

Os leões estão nos quartos-de-final da Taça de Portugal. Mas há que acordar e mostrar, jogo sim, jogo sim, a velocidade, eficácia a atacar, certidão a defender e a passar a bola que, por exemplo, chegaram a evidenciar, esta época, na Liga dos Campeões. E não é só querer — há que escolher fazê-lo, também.