Tudo é feito de escolhas. E muitas há para fazer quando está uma bola no meio. Um penálti pede que alguém decida o lado para onde a rematar. Um passe obriga a meditar se o melhor é mantê-la na relva ou atirá-la pelo ar. E uma finta impõe que se invente a forma de o jogador, e a bola, ultrapassarem juntos um adversário. Qualquer caso, estes e outros, costuma ter várias hipóteses à escolha — o mais difícil está em acertar numa delas. E se errar é coisa de humano, também devia ser de futebolista.
Porque se, em hora e meia de bola a rolar, ninguém errasse, os golos seriam coisas bem raras. Ou não, pois durante quase meia hora em Moreira de Cónegos, poucos foram os jogadores que não se enganaram a tomar opções. Oriol Rosell, logo aos 50 segundos, atrapalhou-se com a bola sem ninguém por perto, perdeu-a, derrubou quem o roubara e viu um cartão amarelo. Depois, para lá da linha do meio campo, acertar um passe era coisa que jogador do Sporting raramente fazia.
#VIZxSCP: Este é o sexto confronto entre Vizela e #SportingCP. 100% de vitórias por parte da turma leonina. #playmaker #TacaPortugal
— Playmaker (@playmaker_PT) December 17, 2014
Quem corria pelo Vizela chateava, sim. Os jogadores fechavam-se na sua metade do campo, juntavam-se e pressionavam apenas quando a bola espreitava nos espaços entre si. Depois, era ter paciência, esperar pelo erro de um leão vindo de dois andares acima (o Vizela está no Campeonato Nacional de Seniores, a terceira divisão) e aproveitar para contra-atacar. E cruzar a bola para a área, muitas vezes. Resultava, pois os leões perdiam muitas bolas, os extremos não ajudavam os laterais a defender e área do Sporting era território desprotegido. A escolha parecia acertada.
Ainda mais quando, aos 17’, a cabeça de Davide Bessa rematou a bola vinda de um desses cruzamentos e a fez passar perto, bem perto, do poste direito da baliza de Marcelo Boeck. Dois minutos depois, só aí, o Sporting conseguia, do outro lado, o primeiro canto. Entre passes errados, contra-ataques falhados e jogadas que nem três segundos duravam, o jogo estava aborrecido. Azar, neste caso, de quem escolhera comprar bilhete para na bancada assistir à eliminatória da Taça de Portugal que levara o Sporting a Moreira de Cónegos, casa emprestada ao Vizela pelo adversário que, no fim de semana, quase ganhara em Alvalade.
A só começou a mudar aos 33’. E escolheu enlouquecer. O primeiro traço de loucura veio de uma bomba que Cédric disparou no lado direito e que Pedro Albergaria, guarda-redes do Vizela, defendeu para a frente. O alarme soara para tirar a bola dali, mas a defesa não foi capaz e colocou-a nos pés de Fredy Montero, dentro da área. Talocha, à sua frente, foi perspicaz e lembrou-se de colocar os braços atrás das costas, não fosse o diabo tecê-las. Ou o árbitro, que nem assim o perdoou quando a bola lhe tocou no braço direito vinda do pé do colombiano. Apito, penálti e 1-0 para o Sporting, graças a André Martins, que não escolheu bem o lado — o guardião adivinhou –, mas bateu bem o suficiente na bola para Albergaria não a parar.
Depois foi tempo de louvar a escolha de Fininho. O alto e magrinho extremo do Vizela, canhoto que, em miúdo, até se apresentou à bola no Sporting — sim, mas no futsal. Durante cinco anos o português nada quis com relva e estádios ao ar livre. Esteve até na primeira divisão espanhola e pré-convocado pela seleção nacional o Mundial de 2004, mas “o bichinho” do futebol chamou-o. E Fininho escolheu ouvir. Hoje está com 31 anos e, por cá, sempre vagueou entre a terceira e segunda divisões. Mas foi da sua canhota que, aos 37’, num livre à esquerda da área do Sporting, saiu a bola que Marcelo Boeck quis agarrar, não conseguiu e deixou fugir para Talocha. Um erro, um golo, e o 1-1.
O encontro enlouquecera de vez. E não parava. Aos 39’ foi André Martins, também num livre, a ver Paulo Oliveira correr, cruzar para lá a bola e a ver o central leonino saltar mais alto que os outros para cabecear a bola rumo à baliza. Só parou na rede. 2-1 e segundo golo do português pelos leões. O alívio não durou muito e bastou a bola chegar de novo a Fininho. O tal que, em jeito de futsal, a pisar a bola com a sola e a encurtar todas as fintas que fazia, ganhou uma falta à direita da área do Sporting, bateu o respetivo livre e obrigou Marcelo Boeck a parar a bola junto ao ângulo superior da sua baliza.
Canto. Para Fininho também bater e Talocha voltar a marcar. O defesa central do Vizela, na pequena área, aproveitou o bocadinho que falta a Naby Sarr para tocar na bola e o bocadão com que Marcelo se atrasou a atacar a bola para, de novo, empatar o jogo. 2-2 e o Sporting confirmava uma coisa: dava-se mal com o que vinha (Moreirense empatara 1-1 em Alvalade, no domingo), ou acontecia, em Moreira de Cónegos. Ao intervalo parecia que ambas as equipas fizeram a mesma escolha — só marcarem golos quando a bola parasse em livres ou cantos.
E a segunda parte deu outra pista para o indicar. O jogo recomeçou com os leões mandões, a reclamaram mais a bola para si e a abusarem mais da velocidade de Carrillo e Mané, nas alas. Se uma equipa está no primeira degrau da escada do futebol português e a outra surge no terceiro, os ritmos a fazer as coisas serão diferentes. Mas só aí se começaram a notar. O Sporting ia rematando mais, os cantos apareciam e o Vizela encolhia-se. E aos 59’, lá está, num canto, André Martins cruzou a bola, Naby Sarr desviou-a e Carlos Mané, mais perto da baliza, rematou-a. Golo e 3-2.
#VIZxSCP: Carlos Mané iguala o total de golos da época passada pelo #SportingCP. O internacional sub-21 leva 4 golos esta época. #playmaker
— Playmaker (@playmaker_PT) December 17, 2014
Os anfitriões abrandavam. Parecia não haver energia para mais reação. Os leões, contudo, não aceleraram para o aproveitar. Mantiveram o ritmo, o assim-assim na velocidade de trocar a bola. Ainda deu para, aos 63’, João Mário rematar à entrada da área e só não dar golo porque Pedro Albergaria parou a bola junto à barra da baliza. Depois o Sporting pareceu ter escolhido o piloto automático: abrandar, segurar a bola, trocá-la com paciência e tentar cansar ainda mais o adversário.
O Vizela percebeu-o — e optou por ir às reservas e dar tudo. Quase resultava. Por duas vezes. Na primeira, aos 70’, Marcelo Boeck escolheu confiar na sorte e ela não o desiludiu, ao levar a bola vinda de um livre batido por Luis Ferraz, na quina da área, a bater na barra da baliza. Na segunda, com 77 minutos jogados, Fininho, noutro livre, este à direita, rematou a bola com força, mas o guardião brasileiro conseguiu defender.
E o Sporting parecia ter escolhido sofrer. Conseguir uma vitória a custo. Porque Junya Tanaka, aos 84’, deixou que Albergaria parasse a bola que Slimani lhe oferecera para marcar. E porque, durante 90 e poucos minutos, o Sporting foi titubeante. Por escolha própria ou não, Naby Sarr continua a sofrer para defender jogadas rápidas, Oriol Rosell falha onde mais lhe ensinaram a não errar — no passe, porque cresceu em La Masia, na escola de futebol do Barcelona –, ou Carrillo e Mané, com dribles, arranques ou simulações, nunca conseguiram desequilibrar adversários habituados ao terceiro escalão do futebol português.
Os leões estão nos quartos-de-final da Taça de Portugal. Mas há que acordar e mostrar, jogo sim, jogo sim, a velocidade, eficácia a atacar, certidão a defender e a passar a bola que, por exemplo, chegaram a evidenciar, esta época, na Liga dos Campeões. E não é só querer — há que escolher fazê-lo, também.