O recente acidente com armas nos Estados Unidos que resultou na morte de Veronica, de 29 anos, pelo filho de dois trouxe mais uma vez a público a discussão da legalidade do porte de arma no país. O avô da criança e sogro da mulher rejeita a discussão:

“Estão a pintar a Veronica como irresponsável, e esse não é o caso. Eu eduquei o meu filho no meio de armas e ele tem experiência em atirar. A Veronica já tinha tido aulas de tiro, tinham os dois licença de porte, não foi só uma arma que ela pôs dentro da mala.”

O Washington Post conta exatamente essa história, a história de um casal que adorava armas numa cidade onde as armas fazem parte do dia a dia e que vivia no meio delas. Eram clientes habituais das carreiras de tiro, adoravam caçar e tinham licença e Veronica nunca saía de casa sem ter a arma carregada no coldre. Foi, por isso, normal para os dois incluir nos presentes de Natal parafernália relacionada com o seu hóbi. É exatamente um desses presentes que está no centro do homicídio: uma mala com um bolso especial para carregar a arma.

Como a maioria das mulheres que recebe uma mala pelo Natal, Veronica estreou-a no dia a seguir numa ida ao supermercado com o filho de dois anos e as sobrinhas. Esta seria a última vez que a usava. Foi na zona de eletrodomésticos que se distraiu, pousou a mala no carrinho das compras perto do filho. O avô conta o sucedido na história que teve o pior desfecho: “Uma criança curiosa de dois anos chegou à mala, abriu o fecho do compartimento, encontrou a arma e deu um tiro na cabeça da mãe. É um acidente terrível, terrível.”

O marido de Veronica, que o avô diz estar muito mal, foi o primeiro a chegar ao local onde ainda estavam as sobrinhas e uma criança de dois anos em choque. O menino tem perguntado pela mãe e porque é que ela não chega a casa, pergunta que a família sabe que se vai repetir ao longo da vida e cuja resposta vai atrair mais perguntas. Uma conversa complicada que vai fazer com que este episódio dure para sempre, explica o jornal americano.

Para já há outra questão incontornável: porque é que uma mãe anda com uma pistola enquanto vai às compras com o filho bebé?

Para o sogro a explicação é simples: “Eles [o filho e Veronica] transportavam uma arma todos os dias nas suas vidas, e atiravam várias vezes. Eles adoravam isso. Por mais estranho que possa parecer nós somos pessoas de armas.”

O avô assegura que a nora não tinha “uma única fibra de malícia no seu corpo”, os amigos contam que era uma mulher académica, licenciada em química e autora publicada, que gostava do campo “para caçar, passar tempo no exterior e estar com o filho”. Criada no Idaho, os colegas de escola lembram-se dela como sendo “extremamente inteligente, primeira da turma e muito motivada.” Há uma outra amiga que lembra a paixão que a acabou por matar: “Ela estava tão confortável no meio do campo ou num campo de tiro como estava numa sala de aulas.” No Facebook, as páginas de que gostava – National Rifle Association, Guns.com – e as constantes publicações à volta do tema também mostravam o óbvio.

Neste Estado, mais de 85.000 pessoas (7% da população) têm licença de porte de arma e ainda este ano foi aprovada uma lei que permite aos cidadão transportar armas para dentro de campus Universitário. O chefe da polícia confirma: “É muito comum por aqui. Há imensas pessoas que andam com armas carregadas.”

Se para nós seria motivo de alarme ver alguém armado, uma amiga de Verónica desmistifica falando na realidade onde vivem: “No Idaho, nós não nos temos que preocupar com criminalidade ou coisas como essas. Ver alguém com uma arma não é nada bizarro. [Veronica] não estava a transportar uma arma por se sentir insegura. Transportava-a porque foi educada no meio de armas. Isto foi só um acidente horrível.”