O olho humano é muito melhor a reconhecer padrões do que um computador, por isso todo o trabalho de análise de células tumorais tem de ser feito por cientistas. Ou tinha. Porque agora qualquer pessoa pode ajudar a identificar estes padrões duma forma muito simples: jogando no telemóvel. O jogo lançado pelo Cancer Research UK, no Reino Unido, permite que uma grande quantidade de imagens seja analisada em muito menos tempo, permitindo aos cientistas melhorar as opções que podem apresentar aos doentes oncológicos.

“A aplicação das regras de um jogo à ciência permite que os dados que levariam 18 meses a serem analisados pelos cientistas, possam ter tratados por milhares de jogadores em todo o mundo em apenas duas semanas. Basicamente é acelerar o nosso conhecimento sobre o cancro e sobre como o tratamos”, disse ao Guardian Samuel Godfrey, gestor de comunicação de ciência no Cancer Research UK.

Os doentes com tumor na bexiga têm de decidir se fazem um tratamento de radioterapia ou se retiram a bexiga. Em qualquer dos casos, a decisão vai alterar de forma significativa a vida dos pacientes. O que o laboratório de Anne Kiltie, investigadora no Cancer Research UK, pretende fazer é ajudar os doentes a escolher qual a melhor opção para o próprio caso, com base na presença de determinadas proteínas (ou biomarcadores). A ajuda que procura nos cidadãos-cientistas é que identifiquem se a amostra tem células cancerígenas, se as proteínas aparecem coradas e que classifiquem a intensidade da cor. Mas não se preocupe, não precisa de ser um cientista experiente para o fazer. Basta ter vontade de jogar.

A investigadora explica a importância deste projeto de citizen science (trabalho científico realizado por não especialistas)

A aplicação do jogo “Reverse The Odds” (“Inverter as probabilidades”) pode ser descarregada na Apple App Store, Google Play ou Amazon e é gratuita. E permite que várias pessoas vejam as mesmas imagens em várias partes do mundo reduzindo a possibilidade de existir algum erro na identificação.

Os cientistas recolheram 800 amostras de 300 doentes, cortaram-nas em pequenos pedaços e fotografaram-nas. Agora que os doentes já foram tratados, o trabalho dos cidadãos-cientistas vai permitir aos investigadores verificar se o tratamento utilizado foi a melhor opção, esperando melhorar o tratamento de outros doentes no futuro, conforme refere o blogue da instituição.

Este é o terceiro jogo promovido pela instituição sempre com o mesmo objetivo – contar com a ajuda de cidadãos-cientistas para analisar grandes quantidades de dados -, como o “Cell Slider”, que também pretende analisar imagens de cancro, ou “Play to cure: Genes in Space”, para analisar dados genéticos de cancros que podem abrir caminho a novos tratamentos para os tumores.