Durante vinte anos, ninguém me soube dizer o que se passava dentro de mim.

Tinha 16 anos quando tudo começou. Não com vozes, nem com nada do que se vê nos filmes. Tudo começou com uma raiva que não tinha nome. Ansiedade constante, irritação que não desaparecia, uma zanga que sentia contra o mundo inteiro sem saber porquê. Achava que era uma fase da adolescência agravada pela morte da minha avó que aconteceu naquela altura. A minha família achava o mesmo. Só a minha irmã tentava chamar-me à razão e eu não a ouvia.

Nessa altura, logo num dos meus primeiros surtos, talvez o segundo, bati várias vezes com a cabeça no espelho do meu quarto, tomada por uma fúria que não conseguia explicar nem controlar. Não queria magoar os outros. Só a mim.

Aí passei a ir a uma psicóloga, que me dava sempre razão e que hoje sei que em nada me ajudou. Depois fui a um psiquiatra que me medicou intensamente, mas que nunca chamou os meus pais, nunca lhes explicou o diagnóstico, nunca os envolveu. Infelizmente nem todos os médicos são capazes. Passei de uma jovem desatinada e zangada para uma jovem “drogada”, sem forças, deitada no sofá dias inteiros, incapaz de me mexer. Por dentro continuava a ser devorada por uma irritação constante. Ir à escola tornou-se um esforço monumental.

O tempo foi passando. Eu achava que estava a melhorar e a minha família e amigos viam-me cada vez pior. Essa distância, entre o que eu sentia e o que os outros viam, foi a parte mais difícil da minha história. Isolou-me do mundo e da vida que gostava de ter tido.

Pelo caminho mudei de médicos, mudei de medicação. Andei onze anos em consultas de psicologia. Nada me ajudou. Depois, durante três anos, fui a outro psicólogo que me ajudou a enfrentar medos que, vistos de fora, pareciam pequenos mas que por dentro eram paralisantes. Uma minhoca no chão de um jardim podia fazer-me mudar de caminho, evitar um passeio inteiro. Um palhaço numa festa de aniversário de uma sobrinha era motivo para eu sair da sala. A cor amarela fazia-me entrar em pânico, fugir. E sentia-me perseguida por estes medos, que me faziam encolher a vida, sempre mais um pouco, até restar muito pouco espaço para viver com naturalidade. Depois vieram a fadiga crónica, insónias, e sempre aquela zanga persistente. A única coisa que me trazia alegria genuína, nesses anos, eram as minhas sobrinhas.

Felizmente, se há uma pessoa que nunca desistiu de mim, foi a minha irmã. Desde o início, foi ela que insistiu que aquilo não era “uma fase da adolescência”, que havia algo mais a acontecer comigo. Ao longo dos anos, continuou a lutar, muitas vezes contra a vontade dos nossos pais, que preferiam acreditar que estava tudo bem, ou que melhoraria sozinha. Foi ela que não desistiu de procurar respostas, que insistiu em novas consultas, que procurou novos médicos, quando toda a gente à minha volta já parecia ter-se resignado à ideia de que “eu era assim”.

Foi essa insistência que, finalmente, me levou à Dra. Sofia Brissos que me resgatou e olhou para mim com vontade de me devolver a vida em vez de me dopar ou calar. Ao fim de vinte anos perdidos, veio o diagnóstico correto: esquizofrenia. Nessa altura foi ela que tomou uma decisão que me pareceu devastadora e de que eu própria fugi e lutei. Doentes com esquizofrenia, como eu, não querem ser tratados. Achamos que estamos bem e os outros é que nos querem mal. A polícia foi a minha casa buscar-me para me internar compulsivamente a mandato do Tribunal acionado pela Dra. Sofia. Não escolhi aquele momento. Foi o dia mais duro da minha vida. Mas foi o que me salvou.

Fiquei três meses internada no hospital e um ano e oito meses numa clínica. Foi um período difícil. Longe de casa, longe da rotina que conhecia, a reconstruir-me praticamente do zero. Mas foi também ali, entre paredes, que encontrei estabilidade pela primeira vez em duas décadas. Fiz amigos que compreendiam o que eu sentia sem precisar de explicações. Fui devidamente tratada com medicamentos que salvam. E saí dali, ao fim de quase dois anos, totalmente recuperada. Com vontade de viver, de trabalhar e ajudar outros.

O meu diagnóstico demorou vinte anos a chegar. Mas quando chegou, veio acompanhado do tratamento certo e isso mudou tudo.

Hoje estou estabilizada. Integrada. A viver, sem medo de minhocas nem fobia de amarelo, sem a zanga constante, sem o mundo a parecer-me inimigo. E sei que devo isto, em grande parte, a uma irmã que se recusou a desistir quando eu própria já não sabia pedir ajuda, e a um internamento que na altura senti como uma imposição e hoje reconheço como um resgate.

Se há algo que aprendi recentemente é isto: a esquizofrenia não é uma sentença. É uma doença séria, complexa, muitas vezes mal compreendida, mas é uma doença que se trata. O caminho até ao diagnóstico certo pode ser longo, dolorosamente longo, e por vezes o tratamento certo exige decisões difíceis, tomadas por quem nos ama quando nós próprios não conseguimos tomá-las. Mas existe caminho. A psiquiatria evoluiu, há hoje ferramentas e tratamentos que permitem histórias como a minha e ninguém precisa de esperar vinte anos como eu esperei.

Infelizmente, sei que ainda há muitos como eu era. Subdiagnosticados, subtratados, apenas dopados para não causarem distúrbios. Eu fui medicada de forma errada. Mas não tem de ser assim. Se és família de alguém a atravessar isto, não desistas, mesmo quando parecer mais fácil olhar para o lado. A tua insistência pode ser, um dia, a diferença entre vinte anos perdidos e uma vida a ser verdadeiramente vivida.

Tenho esquizofrenia. E então? Hoje, isso já não define o que consigo viver, amar e ser. Terminei o meu curso e estou a estagiar como Técnica auxiliar de Saúde na Covilhã. A ajudar outros e já com tantos outros sonhos para cumprir. E tenho a certeza que vou conseguir.

Mental é uma secção do Observador dedicada exclusivamente a temas relacionados com a Saúde Mental. Resulta de uma parceria com o Hospital da Luz e tem a colaboração do Colégio de Psiquiatria da Ordem dos Médicos e da Ordem dos Psicólogos Portugueses. É um conteúdo editorial completamente independente.

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