Faltas há muitas. As feias, como um pisão, a rasteira com os pitons da chuteira à mostra ou um cotovelo apontado à cara durante o salto para ser o primeiro a tocar na bola. As pensadas, como um puxão que se dá na camisola quando se perde uma bola sem desculpa e se quer por um travão ao contra-ataque oferecido aos outros. E depois há as faltas quase a pedido — quando, por exemplo, o jogador que está a ser agarrado ou abrandado por uns braços deixa de tentar, para de correr, esquece a bola e abre os braços, como um alarme para lembrar o árbitro que é altura de apitar.

É o costume. Mas Fredy Montero, aos 26’, nada disse, nem mostrou. O colombiano tinha a bola, encostou-a a um lado, tentou enganar Prince e o central do Rio Ave, corpulento demais para o avançado, ganha-lhe a frente com a ajuda de um dos braços, que agarra a camisola do avançado. Montero não reage e, quando ouve o apito do árbitro, até olha para trás, surpreso. É penálti. Os jogadores do Rio Ave nem acreditam — apressam-se a cercar o árbitro, gritam-lhe na cara, protestam, e Diego Lopes até lhe dá um empurrão valente. Recebe um amarelo em troca, ele e Tarantini, o capitão.

Sporting: Rui Patrício; Cédric Soares, Paulo Oliveira, Tobias Figueiredo e Jefferson; William Carvalho, João Mário e André Martins; Nani, André Carrillo e Fredy Montero.

Rio Ave: Cássio; Lionn, Prince, Nélson Monte e Zeegelaar; Wakaso, Tarantini e Diego Lopes; Ukra, Del Valle e Hassan.

São quatro minutos de confusão que terminam com o golo de Nani. 1-0. Sporting passava a ganhar, mas a partida não mudava. Antes, mesmo com a arrancada, finta e bomba de Cédric, logo aos 4’, que Cássio empurrou com as mãos para longe, foi o Rio Ave a mostrar que ali estava para ser perigoso. E matreiro. Os vila-condenses só pressionavam os leões a partir da linha do meio campo, mas sabiam que o adversário, a atacar, levaria sempre um dos laterais para a frente, quase até à linha de fundo, ora Jefferson, ora Cédric. Por isso esperavam. E aproveitavam.

Faziam-no, sobretudo, com a velocidade de um venezuelano. Yonathan Del Valle não párava. Encostava-se à linha, do lado do lateral do Sporting que atacara, e esperava que a bola lhe chegasse para, com ela, disparar em direção à baliza e rematar ao sinal de qualquer espaço. Ukra, do outro lado, fazia o mesmo com a missão de cruzar e ambos eram servidos ora por Diego Lopes, o miúdo brasileiro que serve de número 10, ou Hassan, avançado egípcio que se encarregava de prender nele um dos centrais do Sporting.

A estratégia resultava várias vezes, porque os leões insistam em ficar na corda bamba entre o estarem muito encostados à frente, no ataque — para poderem pressionar logo assim que perdessem a bola –, e o ficarem uns metros mais atrás para não darem espaços no relvado e na ousadia do adversário. William Carvalho, o trinco, quase nunca fechava do lado do lateral que atacara e a equipa, uma e outra vez, teve de sprintar para perseguir contra-ataques adversários. Num deles de nada serviu: aos 35’, cinco minutos após o golo de Nani, o tal venezuelano recebeu um passe de Ukra, correu, fugiu a Rui Patrício e marcou. 1-1 e o Rio Ave castigava a falta de cuidado do anfitrião.

Aos 43’ um remate do mesmo Del Valle, após receber a bola na esquerda e com ela correr para a entrada da área, fez a bola passar muito pouco ao lado do poste direito da baliza do Sporting, a quem o intervalo teria que ser uma aula de Marco Silva sobre como precaver e defender contra-ataques alheios. Tanto terá falado nisso que, nos primeiros cinco minutos da segunda metade, os leões ficaram encolhidos: perderam bolas atrás de bolas e erraram muitos passes no próprio meio campo.

Essa fase terminou aos 49’ e, lá está, num contra-ataque. Agora a favor, no qual André Martins foi rápido a enviar um passe longo para Nani, que desde a esquerda foi para dentro, rematou e viu a bola ser desviada antes de ser defendida por Cássio. Este foi o sinal para o Sporting tirar do bolso uma metralhadora de oportunidades. Aos 50, 53’, 54’ e 55’, Montero, num canto, o mesmo colombiano, com um míssil, Paulo Oliveira, com a cabeça, e Carlos Mané, num remate em arco, desde a quina da área, estiveram perto de marcar para os leões. Começava a loucura.

O Sporting já atacava com velocidade, apressado, e via-se que assim, a abrir, conseguia abanar o Rio Ave. O maior abanão viria aos 59’, quando um desses ataques rápidos foi para ao pé canhoto de Jefferson, do qual saiu um cruzamento rasteiro para a área, onde estava Fredy Montero para fazer um passe rumo à baliza e acertar no 2-1. Golo, vantagem para os leões e queixas de Nélson Monte — o defesa do Rio Ave foi-se queixar ao árbitro que o colombiano o empurrara pelas costas, na jogada.

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Minutos depois e aparecia outra estreia. Além de Tobias Figueiredo, central de 20 anos que estava ao lado de Paulo Oliveira, também Ryan Gauld, o pequenote escocês que a Alvalade chegou com a etiqueta de mini-Messi, ia a jogo. E fê-lo com estilo: na primeira vez que a bola lhe chegou, vestiu uma cueca a Ukra (bola entre as pernas), passou a Nani que, na esquerda, cruzou a bola para, na área, João Mário a rematar, com o ombro, para golo. E ainda os leões festejavam o 3-1 quando, de repente, apareceu o 3-2.

Porque na jogada seguinte, após o Rio Ave seguir a bola desde o meio campo e, após um cruzamento de Ukra, um ressalto deixou a bola à mercê na área e o egípcio Hassan transformou-a num míssil que entrou junto ao ângulo superior esquerdo da baliza de Patrício. Ainda restavam 20 minutos por jogar e serviram para mostrar de tudo: chapéus e bombas saídas do pé direito de Fredy Montero (70’ e 76’), Tarantini, na área (73’), e Ukra, num livre (74’), a quase marcarem, e Cássio, aos 80’, a atirar-se aos pés de João Mário para o impedir de rematar.

Tudo misturado, agora sim, só com contra-ataques que se encarregavam de partir o jogo e manter acelerada a rotação do vaivém de baliza a baliza. Todos queriam fazer depressa e bem. A segunda parte, sobretudo, encaixa no diagnóstico de jogo que dá cabelos brancos aos treinadores, no banco, pela desorganização e inquietude em campo, mas dá gozo aos adeptos que assistem na bancada ou pelo ecrã da televisão.

A história fechou-se como se fechara nos últimos três encontros dos leões — com um golo vindo da canhota de Junya Tanaka. Do japonês que, desta vez, esperou que William Carvalho roubasse a bola a um adversário junta à linha de fundo e a remetesse para si, para, com a receção, tirar um defesa do caminho e rematar para golo. 4-2 e terceiro golo do nipónico esta época, que voltou a ser abraçado por tudo e todos. E só quando o árbitro apitou pela última vez é que alguém, em Alvalade, conseguiu respirar.

A loucura com penáltis, empurrões ao árbitro, contra-ataques de partir o jogo, remates de todo o lado e golos com fartura dava a oitava vitória consecutiva — contando todas as competições — ao Sporting. O terceiro lugar continua seu, mas, para o Rio Ave, ir buscar quatro golos ao interior da sua baliza pareceu castigo exagerado para uma equipa que foi a Alvalade a saber, de cor e salteado, como fazer mal ao Sporting de Marco Silva e dar uma lição de como contra-atacar no futebol. Foi de loucos? Foi, e quem assistiu vai agradecer.