O advogado João Araújo revelou esta quinta-feira que os indícios de corrupção que estão no processo contra o ex-primeiro-ministro José Sócrates, detido em Évora, respeitam a um período anterior ao desempenho do cargo de chefe do Governo.

Entrevistado no “Jornal das Oito”, da TVI, João Araújo foi perentório ao afirmar que “a janela temporal [a que se referem os alegados crimes de corrupção constantes do processo] não bate certo com José Sócrates-primeiro-ministro”.

Desafiado pelo pivô, José Alberto de Carvalho, a esclarecer se os factos foram praticados “antes ou depois” de Sócrates desempenhar as funções de primeiro-ministro, o causídico respondeu: “Antes”.

“Isto levanta problemas levados da breca”, comentou de seguida o advogado, segundo o qual o despacho, de 236 páginas, que fundamentou a detenção de Sócrates não contém “um único facto que aponte corrupção”. João Araújo sustentou que, apesar de neste processo “a corrupção ser o pai de todos os crimes”, de concreto no despacho nada existe de concreto.

“Corrupção não é uma alcunha, não é um apelido, é um tipo de crime”, recordou o advogado, resumindo toda a fundamentação do caso Sócrates a uma ideia: “Como é que ele ganhou [todo aquele dinheiro] Não foi a trabalhar, não foi na estiva! Mas ele tem o dinheiro, logo foi corrompido”.

Segundo o causídico, tanto Sócrates como o amigo de infância Carlos Santos Silva “estão os dois presos, um porque pediu o dinheiro e o outro porque o emprestou”.

Quanto às 236 páginas do despacho, João Araújo disse não perceber nada. “Não percebo nada daquilo. Não está mal escrito, mas está mal organizado. Ou está bem organizado demais”, ironizou.

João Araújo admitiu estar a violar o segredo de justiça apenas para responder às questões que são colocadas nalguns jornais contra o seu constituinte, como a ideia de que “a defesa de Sócrates admitiu que o dinheiro de Carlos Santos Silva era seu”.

“Isso está desmentidíssimo. O dinheiro é do engenheiro Carlos Santos Silva. Não vejo quais os factos que levam à conclusão de que o dinheiro é do engenheiro José Sócrates”, salientou. O advogado revelou, por outro lado, que Sócrates “pretende constituir-se assistente” no “rigoroso inquérito” que foi anunciado pela procuradora-geral da República sobre as violações do segredo de justiça no âmbito do processo que justifica a sua detenção.

“O engenheiro José Sócrates pediu para ser ouvido nesse inquérito, porque há factos que gostaria de expor, quer constituir-se como assistente, quer intervir no processo”, adiantou.

João Araújo dirigiu fortes críticas ao procurador-geral adjunto “dono do processo”, sobretudo por não conseguir impedir as sistemáticas violações do segredo de justiça.

“Esta justiça é capaz de guardar o eng. José Sócrates, mas é incapaz de guardar um monte de papéis. Acho isto fantástico”, desabafou o causídico no final da entrevista, na qual prognosticou a libertação do seu constituinte no âmbito do recurso que entregou no tribunal da Relação de Lisboa no passado dia 19 de dezembro.

“Acredito que os senhores desembargadores vão olhar para o recurso e vão libertar o engenheiro José Sócrates”, concluiu. José Sócrates, detido no estabelecimento prisional de Évora há cerca de dois meses, está indiciado dos crimes de branqueamento de capitais, fraude fiscal qualificada e corrupção.

Em causa está a alegada ocultação ilícita de património e transações financeiras de milhões de euros. O processo judicial envolve outros arguidos, incluindo Carlos Santos Silva, empresário e amigo de longa data de Sócrates, que encontra-se igualmente em prisão preventiva.