O Parlamento britânico aprovou esta terça-feira o recurso a uma técnica de reprodução medicamente assistida que conta com o contributo de três dadores: o pai, a mãe e um terceiro dador feminino. Enquanto os defensores da técnica consideram se podem evitar muitas mortes e defeitos genéticos em crianças, os opositores dizem que se trata de manipulação genética dos bebés e que isso pode ter implicações graves no futuro.

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Apesar de serem necessários três dadores, os defensores da técnica dizem que não se pode falar em três pais. 99,9% do material genético terá origem no pai e na mãe – nos núcleos do espermatozoide e do óvulo, respetivamente – e o restante (0,1%) será de um terceiro dador feminino, mais especificamente um óvulo ao qual se tirou o núcleo. A célula do terceiro dador tem todos os componentes funcionais para poder receber o material genético dos pais, após a fecundação, e para originar um novo bebé.

A maior parte do ADN está no núcleo das células, mas as mitocôndrias – pequenos compartimentos dentro das células, responsáveis, entre outras coisas, por produzir energia – também têm o seu próprio material genético, que a mãe passa para os filhos. Quando ADN mitocondrial da mãe tem defeitos genéticos esses são passados para os filhos e podem causar-lhes a morte. Com esta técnica de transferência do material fecundado para uma célula com mitocôndrias saudáveis, pretende-se evitar que as crianças sofram desses problemas. “Uma em cada 200 crianças nasce com ADN defeituoso nas mitocôndrias. A maior parte dos casos não têm gravidade, mas um de cada 6.500 casos pode ser uma situação muito grave ou mesmo mortal”, nota John Gearhart, médico da Universidade John Hopkins, citado pelo El Mundo.

O núcleo que se retira do óvulo da mãe pode já ter sido fecundado pelo espermatozoide do pai - Milton Cappelletti/Observador

O núcleo que se retira do óvulo da mãe pode já ter sido fecundado pelo espermatozoide do pai – Milton Cappelletti/Observador

Vários especialistas de todo o mundo, incluindo alguns prémios Nobel, escreveram ao Parlamento Britânico dando um parecer positivo à técnica, refere o El Mundo. São cerca de 2.500 as mulheres no Reino Unido que se sabe terem defeitos genéticos nas mitocôndrias e que poderiam usufruir deste método a partir de outubro,

A igreja católica e a igreja de Inglaterra uniram-se para dizer que ainda não existem estudos suficientes para aprovar esta metodologia, mas a Autoridade para a Fertilidade e Embriologia Humanas dizem que 15 anos de experiências em primatas são suficientes para provar que pode ser usada de forma segura em humanos.

“Estamos a falar, nem mais nem menos, do que legalizar a engenharia genética”, afirma Fiona Bruce, deputada conservadora, citada pelo El Mundo. “A nova técnica consiste em alterar um futuro ser humano, substituindo uns genes por outros.” Mas John Sulston, prémio Novel da Medicina 2002, discorda: “Não estamos a propor a criação de bebés a la carte, apenas trocamos uma parte da máquina que não está a funcionar bem.” O defensor da técnica, citado pelo mesmo órgão de comunicação, relembra o grande debate que causou a fecundação in vitro, mas que agora é assumida como uma prática normal.

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Uma técnica semelhante começou a ser usada nos Estados Unidos nos anos 1990, mas foi proibida em 2002 pela entidade reguladora de alimentos e medicamentos dos Estados Unidos (FDA, na sigla em inglês para Food and Drug Administration) devido a questões éticas e de segurança, refere a BBC. Uma das preocupações era a transmissão desta “adição” genética à descendência. Preocupação essa que ainda se mantém.

Outra questão em relação à técnica desenvolvida pela equipa de Jacques Cohen, nos anos 1990, é que apenas uma parte das mitocôndrias da dadora saudável eram transferidas para o óvulo da mãe, não se sabendo que impacto isso poderia ter. A equipa reportou que algumas das crianças nascidas com recurso a esta técnica desenvolveram problemas mais tarde, mas não lhes foi possível confirmar se estava relacionado com o método de reprodução assistida usado.