A vida, se fosse sempre igual, não tinha piada nenhuma. O futebol, idem. Com o tempo as coisas mudam e isso vai abrindo janelas que inventam lufadas de novidade fresca. Parecia mentira ver Paulo Oliveira vestir a camisola, calçar as chuteiras e ser o mandão na defesa. Adrien Silva no banco, e não no relvado, era coisa para ser uma miragem. E ouvir assobios, mesmo que poucos, a reprovarem uma finta ou outra a mais de Nani, o craque retornado, poderia ser heresia. Em setembro, quando os leões se sentaram num autocarro, viajaram até Barcelos e atropelaram o Gil Vicente (4-0), isto eram coisas impensáveis.

Agora já não. O campeonato dobrou a esquina e desta vez eram os gilistas a viajarem. Alvalade abria-se para os receber e até eles tinham mudado, e bastante. A equipa que na primeira volta somara apenas nove pontos, por exemplo, já ia com oito amealhados nos quatro jogos da segunda. Estava ali na fronteira dos lugares que dão equivalência a descida de divisão, mas autocarro, esse, nem vê-lo. Como as coisas mudam. O Gil entrou na casa do Sporting atrevido, soltinho, a apontar os passes para a frente e a mandar os jogadores defenderem para lá do meio campo, sem medos.

Sporting: Rui Patrício; Miguel Lopes, Paulo Oliveira, Tobias Figueiredo e Jefferson; William Carvalho, João Mário e André Martins; Nani, Carlos Mané e Tanaka.

Gil Vicente: Adriano; Ricardinho, Berger, Cadú e Evaldo; Semedo, Vítor Gonçalves e Rúben Ribeiro; Diogo Viana, Yazalde e Simi.

Aos 3’, mesmo que frouxo e mais passe do que remate, Simi até fazia com que Rui Patrício fosse o primeiro guarda-redes a tocar a bola com as mãos. Os dez minutos do arranque até viram os gilistas a empurrarem os leões para a área, aguentando três ou quatro jogadas em que o Sporting cortava a bola e o Gil Vicente voltava, logo ali, a tentar atacar. Parecia claro — o Gil queria levar pontos dali. A equipa tinha mudado mesmo, com caras (Yazalde, Rúben Ribeiro, Berger ou Cadú) e atrevimentos novos. Mas eram os leões que, mesmo surpresos, iam mandando na bola, nos ritmos e no jogo. Afinal, palavra de José Mota, treinador do Gil, o Sporting era “favorito em Alvalade contra qualquer equipa do mundo”.

Os leões, a atacar, faziam por serem velozes. Mané e Nani, mesmo com uma ou outro finta a mais, faziam a bola rolar rápido, João Mário mantinha as coisas unidas e Tanaka era a referência para as tabelas. Mas a diferença estava na coisa, lá está, que mais tinha mudado: André Martins. O médio, que não era titular, na liga, desde 18 de janeiro, estava bem solto, rápido, a jogar para a frente e até a fazer roletas à Zidane (finta em que o jogador gira o corpo com a bola).

O Gil podia estar atrevido, mas o Sporting funcionava bem a atacar. Aos 24’, um passe de André encontro Nani na área, que de calcanhar isolou Mané para o outro extremo rematar e Adriano defender. No minuto seguinte, Tobias Figueiredo lançou um passe longo para a área, Tanaka saltou, deu um passe com o peito e João Mário, de primeira, rematou para o guardião brasileiro voltar a defender. Depois viu-se uma jogada com toca, passa, vai, toca outra vez a acabar com uma arrancada de Jefferson e um passe do brasileiro para Mané — , que recebeu a bola na área, mas para trás. Demorou a virar-se e, quando rematou, Berger bloqueou-lhe o remate.

Depois, aos 34’, quem não demorou nada a colar-se à bola, após a equipa fazer uma falta, foi Yazalde. O avançado queria impedir que William Carvalho marcasse rápido o livre. O médio bateu-o na mesma, contra o adversário, à espera que o árbitro apitasse outra falta. Nada se ouviu. O Gil arrancou no ataque, a bola chegou a Diogo Viana que, em dia de 25.º aniversário, não acertou com o remate na baliza. William não gostou, correu para refilar com o árbitro, mas João Mário foi lá dizer “shiiiuuu” e afastar o médio — pois um cartão amarelo tirá-lo-ia da partida frente ao FC Porto, na próxima jornada.

João Mário, depois, e já preocupado só com este jogo, remataria à entrada da área para Adriano voltar a defender. Antes do intervalo, e mesmo com um japonês com uma canhota com jeito para os livres (marcou assim em Braga), Jefferson disparou uma bomba contra a barreira ao bater uma falta mesmo na fronteira da grande área gilista. O descanso chegava com o Sporting rápido, senhor da bola e a inventar jogadas boas de se verem, mas algo tinha de mudar. Só com golos os leões se livrariam da séria de três jogos sem vitórias.

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Algo que apareceu não pelo pé, mas pela coxa de outra coisa nova, da mudança que Marco Silva resolvera fazer pela primeira vez no campeonato. Junya Tanaka, o tal japonês dos livres, marcava aos 52’ após a cabeça de Nani desviar, perto do primeiro poste, a bola cruzada num canto por Jefferson. 1-0 e quinto golo do nipónico esta época na primeira vez que era titular no campeonato — e numa altura em que, da Alemanha, chegava a notícia que Bas Dost, holandês que marcara dois ao Sporting na quinta-feira, voltara a inventar um bis (e vão 12 golos para este avançado do Wolfsburgo, em 2015).

A mudança aparecia quando Marco Silva até já tinha decidido mudar: André Carrillo e Fredy Montero já estavam com o fato de treino despido e prontos para entrar, mas ambos tiveram que esperar para pisarem o relvado. Como prémio, o golo dera a Tanaka mais uns minutos.

A ele e a Nani que, além de tempo, pareceu também ficar com confiança-extra. Isso viu-se, e bem, quando, quatro minutos volvidos, o extremo isolava-se à frente de Adriano, após um toque de Mané na bola cruzada por Jefferson. O guarda-redes defendeu-lhe o remate. Tal como, aos 57’, parou a bola que o internacional português rematou num livre a 30 metros da baliza. O Gil continuava sem autocarros ou fechaduras a defender, mas os leões não abrandavam e, por isso, iam conseguindo encostar os adversários à área. E assim estavam quando, num lançamento lateral, Nani pediu a Miguel Lopes para lhe atirar a bola.

O defesa obedeceu e o extremo fugiu para o meio. A bola lá foi, a saltitar, e Nani até teve que a ajeitar com um toque de cabeça para, a uns 30 metros da baliza, a rematar. Sim, logo dali, o craque que contava o 101.º jogo pelo Sporting, resolveu acender uma bomba e apontá-la para explodir na baliza. Conseguiu-o: Nani rematou de pé esquerdo e a bola entrou junto ao ângulo superior da baliza do Gil Vicente. Um golaço, um golão e um momento que até levou o jogador às lágrimas. O 2-0 aparecia assim e, uma vez mais, as coisas mudavam — Nani, afinal, já não marcava com a bola a mexer-se desde o golo ao Maribor, a 25 de novembro, para a Liga dos Campeões.

O momento alto da noite foi este. Haveria outro que bem alto também subiu, quando os reflexos de Adriano o deixaram desviar a bola que Tanaka desviara para a baliza, aos 84’, vinda de um cruzamento rasteiro de Miguel Lopes. Antes e depois, o Gil Vicente não mais conseguiu atacar com a velocidade atrevida da primeira parte e o Sporting, mesmo abrandando, continuou a controlar a bola e a roubá-la rapidamente quando o adversário a tinha.

Os três últimos apitos do árbitro confirmariam mesmo uma mudança — três jogos depois, o Sporting voltava a ganhar. A hora e meia de bola a rolar confirmou que outras coisas têm mudado: que Miguel Lopes tem pedalada para compensar Cédric; que William Carvalho, mesmo longe da versão da época passada, já colocou uma mudança acima; que em Junya Tanaka há um futebol simples que, por vezes, Montero não tem; e que Tobias Figueiredo, mesmo verdinho, é certinho (só agora viu o primeiro cartão amarelo na liga).

E mais: que um golaço fez Nani esquecer os saltos mortais e emocionar-se com o que fizera. “Pensei em mim e em tudo o que tenho vindo a passar. São coisas de jogador. Às vezes caímos de forma ou estamos a jogar com dores e ninguém sabe”, disse, no final. O extremo até referiu que ia “continuar a trabalhar para marcar golos desde a cada jogo”. O próximo é na quinta-feira e trará o desafio de dar a volta ao 2-0 com que o Wolfsburgo derrotou o Sporting na primeira mão dos dezasseis avos de final da Liga Europa.