O antigo diretor operacional do Serviço de Informações Estratégicas vice-almirante António Silva Ribeiro disse esta quinta-feira não compreender a impossibilidade de as secretas em Portugal realizarem escutas telefónicas, como acontece em “democracias centenárias” europeias e nos Estados Unidos.

As posições de Silva Ribeiro, que na quarta-feira foi empossado como comandante-geral da Autoridade Marítima, foram assumidas após o seu discurso num almoço/conferência do International Club of Portugal, num hotel de Lisboa, sobre “os serviços de informações aliados no combate ao terrorismo”, no período de perguntas e respostas.

“Na qualidade de académico que reflete sobre estas problemáticas, posso dizer que analisando os problemas relacionados com o combate ao terrorismo não vejo como se pode combater uma ameaça dessas sem instrumentos que deem capacidade aos serviços”, afirmou o também professor catedrático do Instituto de Ciências Sociais e Políticas.

Entre estes instrumentos, o vice-almirante apontou a capacidade de realizar operações encobertas, o recrutamento de operacionais no terreno ou a possibilidade de realizar escutas, tal como em “países que têm democracias há centenas de anos”, que “são parceiros na NATO [Organização do Tratado do Atlântico Norte, NATO, na sigla em inglês] e na União Europeia”.

Na resposta a uma pergunta da assistência, o ex-subchefe da Marinha afirmou que os serviços em Portugal “não são brincadeira nenhuma”, mas “uma coisa séria, com gente empenhada e dedicada”.

“Se beneficiamos da tranquilidade que existe no nosso país, isso não é só obra da Nossa Senhora de Fátima, que todos estimamos”, ironizou, ressalvando ter deixado os serviços “há muitos anos” e admitindo que possam existir “comportamentos desviantes”, que são “ampliados pela natureza” das informações.

“Os serviços são constituídos por pessoas, em todas as organizações há pessoas responsáveis, que cumprem os seus deveres de acordo com as normas, e pessoas com comportamentos desviantes”, observou.

No seu discurso, o militar considerou que os países europeus vivem “uma situação muito preocupante” por não haver “uma coordenação sistemática de meios” entre os vários serviços e que nem os recentes atentados em Paris levaram a União Europeia ou a NATO “a desenvolver os órgãos necessários para uma ação concertada”.

Numa intervenção centrada na situação dos serviços no Ocidente, Silva Ribeiro defendeu a constituição de “grupos operacionais especiais para a atuação fora do território” para “a localização de alvos terroristas” e a “constituição de redes de pesquisa de informações”, com uma “forma de atuação muito menos formal que a das forças militares especiais” e com maior “flexibilidade”.

O antigo diretor de operações do Serviço de Informações Estratégicas de Defesa e Militares (que em 2004 perdeu esta componente) afirmou ainda que “até à morte de Issam Sartawi, no hotel Montechoro [Albufeira], os serviços não funcionavam e foi preciso isso para se tomarem as medidas adequadas”.

Silva Ribeiro referia-se ao assassinato do emissário da Organização da Libertação da Palestina em Albufeira, a 10 de abril de 1983, onde se encontrava para participar no congresso da Internacional Socialista.

O vice-almirante afirmou que é aos cientistas políticos que cabe identificar uma solução que responda ao autoproclamado Estado Islâmico, antes que este fenómeno “se agigante ainda mais”. “Ninguém pense que se vai derrotar o terrorismo pela força militar”, alertou.

O julgamento do “caso das Secretas”, que tem o antigo director do Serviço de Informações Estratégicas de Defesa (SIED) Jorge Silva Carvalho como um dos arguidos, foi adiado de 09 para 16 de abril. Segundo fonte próxima do processo, o julgamento foi adiado devido à distribuição ao mesmo coletivo de juízes de um outro processo considerado urgente, por ter arguido preso.