A criatividade nas pontas dos dedos de quem escreve nem sempre tem a mesma fluidez e pinta daquela que escorre pelas botas de meninos como Gaitán e Jonas. Estas crónicas, aliás, muitas vezes soam ao filme de Bill Murray, “Groundhog Day” (“Feitiço do Tempo”), onde o protagonista acorda sempre, sempre no mesmo dia.

Esta tarde, pela milésima vez, tal como no filme, quem viu o jogo acordou na “realidade Jonas”, o craque que continua a dar que falar. Ao prémio de melhor jogador do mês de fevereiro juntou mais um golo, o quinto em quatro jogos seguidos. Benfica venceu o Sp. Braga por 2-0, com golos do avançado brasileiro e Eliseu, em dia de casa cheia, e respira fundo na liderança da Primeira Liga.

BENFICA: Júlio César, Maxi, Luisão, Jardel, Eliseu, Salvio, Samaris, Pizzi, Gaitán, Jonas, Lima

SP. BRAGA: Matheus, Baiano, Aderlan Santos, André Pinto, Tiago Gomes, Danilo, Pedro Tiba, Pardo, Rúben Micael, Rafa, Zé Luís

O Estádio da Luz estava cheio de almas esperançosas, ansiosas de que os jogadores de Jorge Jesus corrigissem os tropeções do passado frente aos guerreiros do Minho — duas derrotas em dois jogos, em 2014/15. E não só: a Luz recebeu olheiros de Atlético de Madrid, Belenenses, Club Brugge, Córdoba, Elche, Granada, Juventus, Lille, Manchester United, Montpellier, Reading, Sevilha e Villarreal.

A conferência de imprensa de Sérgio Conceição foi um dos momentos altos deste campeonato. Só quem não o conheça é que esperaria silêncio do outro lado. Calma é coisa que não lhe assiste, e ainda bem neste caso. A chapada na mesa de Conceição fez lembrar José Mourinho, no FC Porto, quando disse qualquer coisa como: “em condições normais, somos campeões. Em condições anormais… também somos campeões!”. Pum (murro na mesa). O antigo extremo, que até foi treinado por Jesus no Felgueiras a meio da década de 90, usou a palma da mão.

Apesar desse bónus motivacional oferecido por um ex-dirigente do Benfica, os minhotos nem entraram bem, não estavam agressivos como é hábito. O Benfica não deixou, provavelmente como o FC Porto não deixou no Dragão. As investidas contra a baliza do Sp. Braga começaram cedo: Jardel, depois de livre de Gaitán, testou Matheus, logo aos 8′.

Depois de os encarnados empurrarem os visitantes para trás durante 15 minutos, os minhotos lá equilibraram as coisas. Mas o Benfica estaria sempre melhor. E o golo chegou, aos 21′. Por quem? Ora essa: Jonas Gonçalves Oliveira, 30 anos, 1.82cm, 73kg, natural de São Paulo. Chega? Não: este era o 20.º golo em 25 jogos, igualando a brincadeira que Cardozo fez em 2009/10. Lima e Gaitán inventaram o desenho e Jonas, de longe, chutou com a confiança e ginga do costume, 1-0. Matheus esperava a bola para o outro lado, deu um passo e deu-se mal.

A seguir, Aderlan fez de Matheus e colocou-se entre Pizzi e o encanto do golo (32′). Salvio lançou o médio, que desviou com um belo toque do guarda-redes brasileiro, mas Aderlan Santos disse “deixe para lá, galera” (com sotaque) — o central brasileiro cortou em cima da linha. No seguimento, de canto, Jardel esteve perto do 2-0, mas nada. Era assim, sem mexidas no marcador, que os jogadores iriam para o balneário descansar. Intervalo.

A história deste primeiro tempo é fácil de contar: Benfica entrou forte, minhotos entraram suaves, como que tímidos com a casa cheia. Os homens da casa estavam “com ela”, como se diz na bola. Ou seja, estavam num bom dia, sem vontade de voltarem a ser surpreendidos. A atitude condizia com este pensamento. Outra nota a destacar é a competência do meio-campo encarnado: Pizzi e Samaris nunca perderam a batalha contra Danilo, Tiba e Rúben Micael. A fórmula mágica de Jesus já ameaça cantarolar como antes…

É irresistível imaginar a cara de poucos de Sérgio Conceição durante o intervalo. Afinal, o homem havia garantido lealdade mesmo se o pai, mãe e filhos estivessem do outro lado. Se assim não fosse, “arrumava as malas e ia embora pá”. E ainda bem que é assim, mas aqueles jogadores não estavam na mesma página, embora tenham começado melhor na segunda parte.

Houve mais Braga no início do segundo tempo, mas por pouco tempo. Pardo e Rafa tentaram mostrar do que são feitos, atletas com mel a pingar daquelas botas, mas hoje não era um bom dia. E pior ficou quando Tiago Gomes, lateral formado no Benfica que fazia o jogo 50 na Liga, viu o segundo amarelo aos 59′. O defesa derrubou Maxi, já muito perto da área — pura precipitação (ou frustração).

Eliseu era quem tentava mais, de longe, à bomba. Ao seu estilo, como havia feito no Bessa. Um saiu por cima da barra, com uma senhora força. Depois, aos 67′, Matheus defendeu, qual antiaérea minhota. Mas os cerca de 60 mil adeptos na Luz teriam direito a celebrar um golo do lateral. Foi aos 77′: a bomboca saiu da canhota de Eliseu já perto da risca da grande área, 2-0. O mérito desta vez está completamente abraçado, qual coala australiano, a Samaris, um médio que começa a encher as medidas dos adeptos.

A partida teria pouco mais por destacar. Este duelo foi muitas vezes intenso, mas nem por isso bem jogado (nem com a dureza que já começava a ser tradição entre ambos). Sim, o Benfica aqui e ali conseguiu fazer umas triangulações já famosas, fluídas e com pinta, mas aconteceu apenas a espaços. Algo que é inquestionável foi a atitude séria dos homens da casa. Ao Braga faltou o andamento de outros tempos…

Lima e Tiba, do Sp. Braga, foram os últimos a ameaçar fazer bailar as redes, mas estas já haviam pendurado as botas por hoje, digamos assim. Ponto final na Luz. O Benfica ultrapassou o trauma minhoto. Os caça-fantasmas foram Jonas e Eliseu, com um golo em cada parte. Os encarnados não venciam o Braga por 2-0 para o campeonato desde 2003. Lembra-se? Simão marcou primeiro e Sokota festejou depois. Tal como neste sábado, os golos foram marcados nas duas partes e houve um defesa bracarense expulso (Artur Jorge). Luisão é o único sobrevivente desses tempos idos: ficou no banco.