Há uns anos, pensar que haveria uma maneira de conversar em tempo real com alguém que estivesse do outro lado do planeta seria inconcebível. Hoje, as ambições continuam a subir, pelo menos na mente de Michio Kaku. O físico, que estudou em Harvard em 1968, esteve em Portugal e falou sobre a evolução digital e como ela vai ser a fonte de riqueza dos países.

Foi na QSP Summit, que aconteceu na Exponor em Matosinhos, no Porto. Falou sobre computadores com tamanho de folhas de papel, de lentes de contacto que traduzem várias línguas e filmes que não serão menos do que o sonho da última noite. Mais: o norte-americano acredita que o consumidor online tem maior consciência dos produtos e dispõe-se a pagar um preço justo por ele.

O lado lunar de um mundo rodeado de cabos de Internet é a privacidade. “Não é só o capital a ser digitalizado, a nossa vida privada também o vai ser”, permitindo que todos os movimentos bancários e até a vida social estejam expostos na rede. Para evitar as quebras de segurança, “as empresas, por negócio, vão construir muros e firewalls”, prevê o físico. É que a Internet como a concebemos é ainda jovem e a falta de legislação sobre esta matéria tem dificultado a sua regulação.

Mas não é de se temer uma vida monopolizada pelos olhos do big brother: para Kaku, é impossível que a Internet volte a funcionar como uma arma militar controlada pelo governo. “Se Obama proibisse a internet amanhã, as pessoas iriam rir-se, porque ela não pode ser banida”, afirma ao Sol.

Enquanto instrumento para a busca e disseminação de informação, Michio Kaku acredita que os planos de negócios dos jornais estão no cerne do insucesso dos media. As pessoas continuam a querer notícias, mas “os jornais têm de encontrar novas maneiras de gerar dinheiro” para contornar os anúncios. É que “são menos competitivos porque não tiveram em consideração a Internet”, justifica o físico.

O segredo está na personalização: há que desenvolver os media de acordo com as tendências. “Os grandes jornais têm de oferecer algo que a internet não proporciona, que é sabedoria. A internet é de graça, a sabedoria não”, defende o norte-americano. A confiança que um órgão de comunicação social deve transparecer é o que a destaca de entre todas as vozes que se fazem expressar no vasto meio da Internet.

Michio Kaku defendeu também que oferta e procura serão perfeitas, porque produtor e consumidor vão moldar-se mutuamente. Mas a balança não se vai equilibrar: “Não se pode legislar o comportamento humano e as pessoas tornam-se gananciosas”. No capitalismo perfeito, a moeda é outra: vai ser intelectual.

Para o físico, todo o desenvolvimento de uma nação tem raízes na ciência e os cortes que se fazem nessa área têm de ser cautelosas. Quem não concebe isto são “os políticos, porque são antigos advogados e a lei é uma regra de resultado zero. Processamos alguém para lhe tirar o dinheiro e passá-lo a outra pessoa, é essa a essência da lei”, critica Kaku.

Olhar para os números que expressam o interesse pela ciência requer uma visão alargada do campo. É verdade que as pessoas que preferem programas científicos continuam a ser reduzidas, mas alcança o milhão, o que é comparável às audiências das séries centradas nas estrelas de Hollywood. Michio Kaku conclui: “Há um mercado se as coisas forem bem feitas”.