É o inferno e chama-se Baotou, a maior cidade industrial da Região Autónoma da Mongólia Interior, norte da China. Mas o que tem de especial esta cidade? Um gigantesco lago negro alimentado por lixo tóxico de fábricas de telemóveis, televisões e computadores. A BBC descreve assim o local: “O cheiro de enxofre e o rugido dos tubos invadem os meus sentidos. Parece o inferno na Terra”.
Antes, estes campos eram uma quinta. Agora, é um lago tóxico que transparece apenas o esforço chinês no crescimento económico. Está a uns meros vinte minutos de carro do centro da cidade de Baotou.
Para o jornalista que descobriu este lago negro de desperdício, a zona parece um cemitério: é para aqui que escorre o que resta e que sai das fábricas que rodeiam o local. Os materiais de terras raras são o ouro do século XXI: dezassete metais radioativos fazem parte dos motores, televisões e do computador onde mexe todos os dias. Só a China detém 95% do fornecimento destes elementos. 70% deles saem desta de uma mina a norte de Baotou.
Quanto custa?
Toda a cidade de Baoutu na Mongólia Interior se move em redor da máquina industrial: os postos de trabalho dependem daqueles campos. E o “ambiente patológico” que reina por aquelas bandas dá vida à cidade. Esta realidade é explicada pelos números: nos anos cinquenta, quando a tecnologia não conduzia a vivência da população mundial, Baotou acolhia 97 mil pessoas. Mas bastou meio século para este número subir quase 26 vezes. Os minerais atraem as pessoas para Baoutu.
O complexo fabril de Baotou tem raízes de metal: os tubos estendem-se até à cidade, lado a lado com as estradas e os passeios. Baotou é uma cidade em erupção, construída para acolher todas máquinas. As ruas têm de ser largas: os camiões têm de passar. Quando chove, o mundo torna-se mais negro na Mongólia Interior. A água torna-se plástica e inunda as estradas.
A indústria das terras raras
Numa das fábricas implementada em Baotou, processa-se o cério, a mais abundante terra rara do mundo. A maior parte deste elemento é oxidado e utilizado depois para criar ecrãs táteis dos smartphones e tablets. Mas em 2012 noticiou-se que o maior produtor chinês de terras raras terá suspendido as operações para evitar a queda dos preços. Além deste material, há a hipótese do neodímio, um elemento aplicado na produção de acessórios tecnológicos como headphones ou microfones para telemóvel. Mas há uma utilização muito mais majestosa para o neodímio: equipamentos que operam à conta de campos magnéticos potentes.
Mas tanto o cério como o neodímio são, na verdade, elementos comuns, comparados com o níquel ou com o cobre. E é verdade que a China detém 90% do mercado do neodímio, mas apenas 30% se desenrola em Baotou. O que torna esta indústria tão cara – e, por consequência, tão lucrativa – é o processo altamente tóxico que exige a sua extração: o cério é retirado de uma mistura de minerais que são transformados em pó e dissolvidos em ácido nítrico e em ácido sulfúrico.