É irresistível não recordar Giovanni Trapattoni depois daquela espécie de declaração de amor de Jesus a Gaitán. Em novembro de 2004, o treinador italiano lamentava a lengalenga das lesões. Para o duelo com o União de Leiria, a contar para a 12.ª jornada, faltariam Miguel e Petit. Mas a Velha Raposa, ao estilo lusitano, encolheu os ombros e lá soltou um desabafo que ficaria para a história: “Graças a Deus nunca nos faltou o Simão”.
Dez épocas depois é Jorge Jesus quem suspira por outro craque. O Benfica perdeu oito pontos quando Gaitán não calçou as botas. Já nem dá para disfarçar. Se o canhoto não entra em campo, o jogo dos encarnados é pobre, triste e muitas vezes trapalhão. A melancolia e a saudade, aquelas senhoras encantadoras que consomem a paixão dos adeptos do lado certo do coração, afetam até os companheiros. Gaitán regressou e o Benfica voltou a aprender a arte de vencer bem. O argentino, com número (10) e nacionalidade de divindade, esteve em grande e mostrou o caminho para os golos: 3-1 (Lima e bis de Jonas; Tiago Rodrigues).
BENFICA: Júlio César, Maxi, Lisandro, Jardel, Eliseu, Salvio, Samaris, Pizzi, Gaitán, Jonas, Lima
NACIONAL: Gottardi, João Aurélio, Zainadine, Rui Correia, Sequeira, Ali Ghazal, Gomaa, Luís Aurélio, Wagner, Lucas João, Marco Matias
Os 27 graus que abraçavam o Estádio da Luz nesta tarde de sábado nem seriam necessários para aquecer e agitar a alma dos cerca de 48 mil nas bancadas. O regresso de Gaitán ajudou, sim, mas aquela coletividade (para usar um termo de Manuel Machado) vestida de vermelho estava empenhada em dar espetáculo. E solidez, cortesia da dupla Pizzi-Samaris, que está cada vez mais certinha. O Nacional não sabia para onde se virar. Estes foram dos melhores 45 minutos praticados pela equipa de Jorge Jesus durante 2014/15.
O primeiro a dar um safanão no jogo e a tentar fazer dançar as redes da baliza rival foi Gaitán, pois claro (6′). O remate ficou-se pela rede lateral. A seguir, o argentino surgiu na direita e inventou um cruzamento para Jonas, que obrigou Gottardi a uma grande defesa. Depois tentariam a sorte Eliseu e Lisandro, que substituía o castigado Luisão, mas sem sucesso. Que grande entrada dos homens de vermelho, senhoras e senhores. Os madeirenses estavam organizados, no seu meio-campo, a fazer tudo para fechar os caminhos para a sua baliza, mas começariam a abrir cada vez mais brechas, com a reação a ficar mais lenta face às movimentações e triangulações do Benfica.
#SLBxCDN: Jonas leva 12 golos em 20 jogos. Em 00/01, van Hooijdonk tinha marcado 17 nos primeiros 20 jogos na Liga. #playmaker #PrimeiraLiga
— Playmaker (@playmaker_PT) April 4, 2015
E a resistência da equipa de Manuel Machado quebrou à passagem do minuto 21. Gaitán, que saiu do viveiro donde brotaram Maradona, Ortega, Riquelme e tantos outros, e contrariando toda a lógica do seu talento, lançou-se para a relva num carrinho, recuperou a bola e tocou para Maxi. O uruguaio lançou mais à frente Salvio, que passou o pé por cima da bola e cruzou atrasado, onde estava Jonas para assinar o 21.º golo da temporada.
Jonas é um caso sério. O toque de bola é uma história de encantar, como um samba molengão, que assentaria bem com um daqueles textos mágicos de Chico Buarque. Jonas tem um quê de Hollywood, graças àquele jeito que dá ao cabelo sempre que acaba uma ação. Tem pinta este brasileiro natural de São Paulo. E isto tudo com bola. Sem bola, é um génio da movimentação.
O segundo da tarde chegou dez minutos depois (31′). A jogada foi de Gaitán (surprise, surprise), que furou pela esquerda, enganou dois defesas e picou para a pequena área. Aí, na zona de caça, aquela onde só resistem os bravos e valentes, Lima empurrou de cabeça para a baliza deserta, 2-0.
#SLBxCDN: Juntando Campeonato, Taça e Taça de Liga, Lima chegou aos 100 golos. #playmaker #PrimeiraLiga
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Até ao intervalo Jonas poderia ter chegado ao hat-trick. Primeiro, após assistência de alto gabarito de Gaitán (okay, começa a ser repetitivo). No início dessa jogada, Salvio também deu um ar da sua graça e, com a sola, fez uma cueca a um madeirense muito perto da bandeirola de canto. A seguir, o avançado brasileiro cabeceou para as mãos de Gottardi, já praticamente na pequena área.
Na segunda parte haveria menos ginga, mas o Benfica continuaria superior. Houve de tudo: controlo, técnica, dinâmica, pedalada, pressão e golos — e depois a travagem e poupança. Eliseu, o homem com mais golos de fora da área da Liga (4), foi o primeiro a deixar as mãos de Gottardi a ferver.
À quase traição de Saleh Gomaa, que esteve perto de marcar um autogolo, seguiu-se um falhanço daqueles grandes, de Lisboa até Buenos Aires, de Salvio. O cruzamento saiu da canhota de Gaitán (promessa: acabaram-se os adjetivos), a bola seguiu obediente até à cabeça de Salvio, que falharia o alvo.
Manuel Machado, um treinador que não é de se ficar, mexeu na equipa e colocou ainda mais risco no tabuleiro de xadrez. Existe uma velha máxima no futebol: quem tapa de um lado destapa do outro. E o Benfica continuou a fazer mossa, ainda que já sem a mesma velocidade e triangulações ao primeiro toque. O ritmo da partida baixaria, mas Jonas nem por isso. Depois de um passe de Salvio, o avançado brasileiro colocou em jeito no ângulo da baliza dos rivais, 3-0. A tranquilidade com que este jogador faz estas coisas é assombrosa…
#SLBxCDN: Jonas marcou 7 golos nos últimos 6 jogos do campeonato. #playmaker #PrimeiraLiga
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#SLBxCDN: Desde 00/01 que um jogador do SLB não marcava tantos golos nos primeiros 20 jogos na Liga. #playmaker #PrimeiraLiga
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O Nacional reduziria aos 74′, por Tiago Rodrigues, o médio emprestado pelo FC Porto, que enviou uma bomba sem sequer a preparar à MacGyver, 3-1. Mais um golaço nesta tarde de verão no Estádio da Luz. Quem julga ter tudo decidido e fechado antes do tempo corre sempre o perigo de tropeçar em sustos. A seguir foi Christian que quase fez o 3-2, a bola passou muito perto do poste da baliza de Júlio César — a Luz perdeu a alegria e ganhou apreensão. Os homens de Manuel Machado mostraram brio e coragem, nunca baixaram os braços apesar do bom futebol que se viu dos encarnados durante 60 minutos.
Ponto final na Luz. Benfica vence com uma exibição sólida e aumenta para 11 as vitórias consecutivas em casa. Os golos foram de Jonas e Lima, uma dupla de avançados que está para as curvas, mas o homem do jogo foi Gaitán. Por todas as vezes que toca na bola, que aparece no espaço e foge, por todos aqueles toques de calcanhar e cruzamentos que mais parecem saídos de uma atuação de David Copperfield. Nos últimos tempos, quiça porque conheceu o peso da braçadeira de capitão, juntou-lhe coração, ganas e idas ao chão. Este homem é a alma do Benfica. Quem tem dúvidas?