José Mourinho tem na prateleira lá de casa duas medalhas de vencedor da Liga dos Campeões, mais outras que ganhou por conquistar o campeonato em Espanha, Itália e Inglaterra. É lá que está hoje, a liderar a Premier League, que também já venceu, duas vezes, e a dar ordens num Chelsea que tem sete pontos a mais que o segundo classificado. Leva 15 anos a treinar jogadores e formar equipas para ganharem, sempre, e vai com 21 títulos guardados na gaveta. Sucesso é com ele. Mas Mourinho, tantas taças depois, ainda diz que tem um problema: “Estou a ficar melhor em tudo o que é relacionado com o meu trabalho.”

E o português não se limitou a dizê-lo, também quis explicá-lo, tintim por tintim, a meio de uma conversa que teve com o Daily Telegraph, jornal inglês que conseguiu ter uns minutos do tempo do treinador para o entrevistar. “Houve uma evolução em muitas áreas: a forma como leio o jogo, como me preparo para o jogo, a forma como treino, a metodologia… Sinto-me melhor e melhor. Mas há um ponto no qual não posso mudar: quando encaro a imprensa, nunca sou um hipócrita”, argumentou José Mourinho, que vai com cinco anos contados a viver em Inglaterra — entre o verão de 2004 e fevereiro de 2008, primeiro, e agora desde agosto de 2013.

É por lá, mais do que em Itália ou Espanha, que adeptos, jornalistas e televisões escrutinam o quase tudo o que Mourinho diz, deixar por dizer, critica ou elogia. Um exemplo: a entrevista, publicada na quinta-feira, já vai para lá dos 300 comentários na versão online. “Gosto de elogiar pessoas quando elas merecem. Como outro treinador ou jogador. Adoro dizer ‘árbitro fantástico’, especialmente após uma derrota”, explica o ex-treinador do FC Porto, entre 2002 e 2004, quando o jornalista o questiona se um elogio vindo de Mourinho é sinal que Mourinho não vê a pessoa elogiada como uma ameaça.

LONDON, ENGLAND - APRIL 04:  Jose Mourinho, manager of Chelsea reacts during the Barclays Premier League match between Chelsea and Stoke City at Stamford Bridge on April 4, 2015 in London, England.  (Photo by Richard Heathcote/Getty Images)

A conversa com o Daily Telegraph não cobre tudo, mas toca em vários momentos da carreira de Mourinho e, sobretudo, no papel que, aos olhos do português, um treinador deve ter. E José exemplificou-o com várias histórias. “Uma vez tive um jogador que apareceu com um carro novo, e perguntei-lhe: ‘Outro? Porquê? E já tens uma casa?’ Não. ‘Tens muito dinheiro no banco?’ Não. ‘Não comprei este carro. O meu pai comprou-o de graça em leasing e eu assinei o documento’, disse-me, e eu respondi-lhe: ‘Sabes o que é um leasing?’ Ele respondeu: ‘É de graça!’ Não, senta-te aqui e vou-te explicar o que é. Ele não sabia porque ninguém lhe tinha explicado”, contou José Mourinho, para defender que, hoje, os jogadores não são acompanhados.

E este, garante, é “um exemplo entre mil”. Mourinho afirma que tem como “dever” ser uma figura parental para os jogadores que aos 16, 17 ou 18 começam a ter no bolso e na conta bancária dinheiro que o treinador teve “aos trinta e tal” anos. “Foi no meu segundo contrato com o FC Porto, em 2003, mas era casado e estava preparado para isso”, sublinhou. “Antes os jogadores vinham para o futebol à espera de serem ricos na altura em que se retirassem. Agora esperam ser ricos antes de fazerem o primeiro jogo”, lamentou. O treinador critica depois o que vê como a importância a mais que é dada ao futebol e aos futebolistas. “Como é possível que um jogador, ou aliás, dois [Cristiano Ronaldo e Lionel Messi], apareçam na lista das 100 pessoas mais influentes da Forbes? É absurdo! Nós não salvamos vidas! Como se pode comparar um jogador de futebol com um médico ou um cientista? Não se pode comparar”, argumentou.

A entrevista, depois, vai à boleia de muitas coisas como Mourinho defender, com todos os dentes, que “a equipa está sempre primeiro” que o indivíduo — “não é ele [uma nova contratação] que vem descobrir a equipa, como o Colombo descobriu a América, não, não, vem para nos ajudar a sermos melhores” –, ou que, quando perde um jogo, tenta não levar “o futebol para casa”, para junto da família. “Mas depois, quando lá chego, eles estão com má cara. Estão tristes por mim. Mesmo que eu consiga separar as coisas, às vezes eles não conseguem”, revela o treinador, casado há 26 anos e com dois filhos. E Mourinho, pelos vistos, está bem em Londres, cidade onde diz que “as pessoas percebem o que é incomodar e não incomodar”, ao contrário, defende, de Madrid e Milão.

Mourinho, como toda a gente, teve um primeiro trabalho onde tudo começou — ensinar crianças com Síndrome de Down e outros tipos de deficiência mental. “Não estava tecnicamente habilitado para ensinar estas crianças e só tive sucesso por causa de uma coisa: a relação emocional que estabeleci com eles”, lembrou, sublinhado que, ainda hoje, vê as relações emocionais como “a coisa mais importante” na vida de um treinador de futebol. Mourinho explica esta e outras histórias na entrevista, que está aqui para ler.

Uma delas toca na relação picada que sempre teve com Arsène Wenger, treinador do Arsenal que, na época passada, o português disse ser “um especialista em falhanços”, mas com quem, afinal, até concorda numa coisa: “O Wenger disse uma coisa interessante. É contra a Bola de Ouro [que Cristiano Ronaldo já venceu por três vezes], e tem razão, porque neste momento o futebol está a perder o conceito de equipa para se focar no indivíduo. Estamos sempre à procura da prestação e da estatística individual, o jogador que corre mais. Porque se correste 11 quilómetros num jogo, e eu nove, fizeste melhor do que eu? Talvez os meus nove tenham sido mais importantes que os teus 11”, criticou o treinador português.