A ONU mandara avançar. A aeronave MV-22 Osprey, com uma equipa composta por fuzileiros portugueses e marines norte-americanos, começou a sobrevoar o complexo onde estava sediada uma célula terrorista plantada no Monte Belchior, no coração de um país devastado por uma guerra civil há mais de dois anos — se quiserem, chamemos-lhe República Democrática de Alcochete. Faltavam poucos minutos para as 11 horas da manhã quando os militares começaram a descer do Osprey, deslizando por uma corda a 30/40 metros do solo. O cenário era verde e calmo, só agitado depois pela potência das hélices da aeronave, que fazia dançar todos aqueles pedaços de vegetação. O ruído, a desordem, o rebuliço, o bailarico das árvores, o chão solto a voar e os cabelos a reivindicar um motim atestavam o arranque da missão. It’s a go!

A Força de Intervenção Especial de Fuzileiros Aeroterrestres (SPMAGTF) dividia-se em duas equipas. Uma era a de apoio, que assegurava alguma segurança e abria o caminho à segunda, a equipa de assalto. Pelo meio registaram-se algumas trocas de tiros, o suficiente para os jornalistas ficarem alerta e prontos para a ação. Afinal, era a isso que convidavam aqueles decibéis entusiasmados. Não sobravam olhos, notas e fotografias, acontecia muita coisa ao mesmo tempo.

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Toda esta narrativa foi fabricada para oferecer algum realismo e sentimento à operação. Este foi um exercício levado a cabo por fuzileiros portugueses e marines, no campo de tiro de Alcochete. A SPMAGTF é uma força de intervenção norte-americana que está ao dispor das embaixadas daquele país no norte de África, uma zona outrora castigada pela Primavera Árabe e agora pelo avanço do Estado Islâmico (EI). Basta ver a proximidade entre a Líbia, um território que tem sido alvo de investidas do EI, e a Itália, por exemplo, para entender o que move e inspira este tipo de exercício conjunto.

Agora que já introduzimos a lengalenga sobre o que é real e ficção, voltemos à República Democrática de Alcochete. A equipa de assalto avançou pelas traseiras do complexo. Os terroristas, armados com senhoras metralhadoras (não eram AK-47), espalharam-se: uns no interior das casas, outros do lado de fora da entrada principal. Os jornalistas, também eles a viver um exercício que um dia pode ser real para eles, situaram-se na entrada principal, onde tudo acabaria. Seriam 15 minutos intensos.

“Manda flashbang, Teixeira!”

Os tiros ao longe, os gritos, as bombas a rebentar (eram flashbang, servem para atordoar os sentidos dos inimigos) e o calcar pesado das botas dos soldados transportavam aquela gente toda para outra dimensão. Para outra realidade, a que muitas vezes vivem certamente, e com pólvora nos ossos das balas. Os sons eram cada vez mais fortes, o que significava o avanço dos aliados. Ou seja, os bons estavam a ganhar aos maus. Os terroristas, completamente concentrados (e bons atores também), moviam-se e pareciam nervosos. Mudavam de poiso, chamavam um, depois outro. Sentia-se o cheiro da derrota…

Por muito dramático que seja, apesar de tudo o que traduzem, o tilintar dos cartuchos a confundirem-se com o chão e o som do carregar das armas não deixam de ser sedutores. Mas há também o outro lado da moeda, aquele que intoxica a alma de quem está habituado a ver filmes de ação ou sonha com aventuras em cenários de guerra em nome da profissão. É que ouvir um “manda flashbang, Teixeira!” ou “anda, Zé!” é sempre uma boa forma de descer à terra e lembrar que todo aquele aparato não passa de um exercício. Não é um sentimento mau de todo quando o ouvido ganha um zumbido que arranha as suas entranhas, cortesia de um disparo a poucos centímetros de distância.

Um a um, os terroristas acabariam todos por cair. O que impressionou mais foi o pós-assalto: a numerosa equipa de apoio começou a surgir no horizonte — mais de 100 militares estiveram envolvidos no exercício de ação tática rápida. Parecia um filme: o cenário estava pintado num tom acinzentado (o sol descansou por momentos), o andar dos militares era descontraído-calma-estamos-prontos-para-outra, convicto e vitorioso, só faltava uma música épica (podia ser esta) para fechar o capítulo.

“Cuidado com as minas…”

Robert Sherman, o embaixador norte-americano em Lisboa desde abril de 2014, estava sorridente no final. “Como se sente?”, perguntaram-lhe. “Sinto-me seguro!”, não hesitou. O diplomata, vestido de forma informal (camisa e óculos escuros), chegou também ele no MV-22 Osprey, para depois ouvir o briefing do comandante Brito. Quando ouviu toda a história sobre a célula terrorista no Monte Belchior, sorriu e soltou um “ótimo”, como quem diz “vamos a eles”. No final de todo o exercício, Sherman elogiou o profissionalismo dos portugueses e o facto de falarem inglês. “O mundo é um lugar perigoso, por isso temos de trabalhar com os nossos aliados.” O embaixador fez depois questão de agradecer a um dos líderes dos marines, caminhando depois até aos militares para os cumprimentar a todos. 

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Também o coronel Thomas Savage deixou algumas palavras simpáticas. “Fuzileiros are tough (os fuzileiros são duros)”, começou por dizer. “Estão muito bem preparados a nível tático e estão muito bem fisicamente”, assegurou. Este homem, casado e com dois filhos, sabe do que fala: alistou-se nos marines em 1986 e já esteve em inúmeras missões, algumas delas no Iraque. Agora é o líder da força especial que dá apoio a crises no norte de África.

A situação em Portugal é pacífica, mas é impossível esquecer que existem ameaças diariamente pelo mundo fora. O avanço do Estado Islâmico no norte de África é uma delas. Mas também ali no campo de tiro de Alcochete ouviu-se um homem fardado, de nome José Chorão, avisar os jornalistas que se posicionavam para observar e filmar as movimentações do MV-22 Osprey para os perigos no terreno: “cuidado com as minas.” As orelhas ficaram em sentido, seguiram-se as gargalhadas… afinal, falava-se apenas de imponentes bolas de estrume. Que seja sempre esse o preço da paz.

 

Texto: Hugo Tavares da Silva

Fotografia: Hugo Amaral