Título: Disputar a democracia
Autor: Pablo Iglesias (tradutor: Dinis Pires)
Editora: Bertrand
Páginas: 221
Preço: 15.50 euros

Disputar a Democracia_final

Pablo Iglesias, o dirigente do Podemos, publicou em 2014 um livro que foi agora traduzido para português. O seu objecto explícito é a actual crise europeia, sobretudo tal como ela se reflecte em Espanha. Mas há vários outros temas de que o livro se ocupa, sendo um deles, muito patentemente, o próprio Pablo Iglesias.

De facto, é difícil ler este livro sem ter por vezes a sensação de que o autor tende a não distinguir muito bem a importância da sua figura histórica da de, por exemplo, Trotsky, com a indiscutível vantagem de não se ter arriscado a participar em duas revoluções (1905 e 1917) e a organizar o Exército Vermelho – e, sobretudo, de não ter sido assassinado a mando de Estaline. Tirando esses pequenos detalhes, o orgulho pelos grandes feitos está lá, até em momentos de aparente modéstia.

Sem exército e sem revoluções, restam outras coisas, como, por exemplo, a televisão, “o grande dispositivo mediático do nosso tempo”. Pablo Iglesias fala incansavelmente, e com visível satisfação, do “[s]eu protagonismo mediático” e do facto de a sua “exposição” continuar a “ser enorme”, dado aparecer “com regularidade em alguns dos programas mais vistos de debate político” em Espanha. “Ser visto”, ganhar “exposição”, eis algo que visivelmente agrada a esta alma gémea de Varoufakis. Tais programas são enumerados com minúcia e rigor.

É claro que há aparentes sobressaltos de pudor, como, por exemplo, quando nos informa que o seu livro pretende ser apenas “uma modesta caixa de ferramentas para a práxis política”. Mas a menção à glória televisiva percorre subterraneamente o livro inteiro. O Podemos criou “um novo estilo de comunicação política” que fará com que o trabalho das suas campanhas venha certamente a ser “estudado nas faculdades de Ciência Política”. A televisão está de facto no centro deste livro. Por várias vezes propósitos de natureza teórica são ilustrados com exemplos de séries televisivas.

O narcisismo

O narcisismo é patente. O texto que abre o livro, logo a seguir ao Prólogo de Alexis Tsipras, acaba, anunciando a sua partida para mais altos voos: “Aqui me têm, então, disposto ao duelo de fogo com o meu último sorriso de enfant terrible. Aproveitem, porque não poderei dar-vos muito mais oportunidades”. Como? Será possível? Avancemos, então, conscientes de que esta oportunidade poderá ser a última, procurando disfarçar a melancolia que a possibilidade do sorriso ser o último em nós possa criar. E esperemos que a televisão espanhola consiga sobreviver à perda dos duelos de fogo do seu auto-proclamado enfant terrible.

O culto da televisão, manda a verdade que se diga, não corresponde apenas a uma busca se satisfação egotista. Cumpre também uma função política. A televisão é um dos lugares onde se joga o jogo de xadrez que é possível, na terminologia de Gramsci que Iglesias faz sua, pelo “optimismo da vontade”, ao qual se opõe, como outra face da mesma moeda, o combate de boxe e a “política do pugilismo”, o “pugilismo político”, aconselhados pelo “pessimismo da inteligência”. O jogo de xadrez, naturalmente, tem um estatuto provisório. O verdadeiro combate dar-se-á no ringue de boxe. A coisa aí é que é a sério. É no pugilismo político que a verdadeira dimensão do revolucionário, metamorfose esperada do enfant terrible, se dá a ver. Não é, note-se, uma mera opinião subjectiva: é o que “a história ensina”, é “o que nos dizem os livros de história”.

Gramsci não é certamente o único autor tutelar de Pablo Iglesias. Maquiavel, um Maquiavel amputado de subtilezas e aporias, também o é, tal como Carl Schmitt (um fenómeno habitual em certa extrema-esquerda) e Negri e Hardt. E, sobretudo, Lenine. Quem, de facto, como ele tão bem compreendeu a política como um combate de boxe? E quem como ele deu o exemplo de uma concepção militar da política, de um pugilismo elevado à arte de técnica brutal para a conquista e manutenção do poder? Pablo Iglesias é um bom aluno e, por isso, as metáforas militares surgem espontaneamente da sua pena. A tal “modesta caixa de ferramentas para a práxis política” visa fornecer “munição política” para atacar as “trincheiras inimigas”. É preciso que o “exército democrático” persevere no “duelo” e se empenhe em “manter a guarda”. Mais explicitamente, cumpre agradecer “aos membros das forças de segurança e das forças armadas que nos apoiaram: sei que muitos deles esperam o dia em que receberão a ordem de algemar um banqueiro ou um corrupto”.

Nesta passagem, e numa outra onde também são referidas as forças armadas e as forças de segurança, um espírito medianamente atento lê, com perfeita legitimidade, algo mais vasto. Não basta conquistar o governo: é preciso conquistar o poder, algo de muito mais permanente. Em todo o caso, tais instituições (exército e polícia) poderão ser-nos muito úteis para nos libertarmos da “democracia formal”, como aquela que sucedeu à queda do franquismo, do “totalitarismo do mercado livre”, da “casta” que nos governa e do famigerado “Partido de Wall Street”.

Antes de voltarmos a este último, uma pequena nota sobre aquilo que Iglesias nos diz, inspirado sobretudo num livro do historiador marxista Perry Anderson, The New Old World (2009), sobre alguns aspectos do processo da chamada “construção europeia”. Há, com efeito, alguns problemas bem reais que se encontram apontados, como por exemplo aqueles que resultam da perda acentuada de uma soberania dos Estados, que, sendo mais nominal do que real, fazia parte das estruturas mais profundas da nossa maneira de viver. O “esvaziamento da soberania”, o (aqui a linguagem é excessiva) “sequestro da soberania”, introduziu problemas graves na Europa. Com uma ou outra pequena variação, não repugna excessivamente aceitar que “a criação de novas instituições supranacionais não tem de ser paga a um preço que incapacita a cidadania”.

O problema aparece com o que vem a seguir. Primeiro, na boa tradição de uma certa esquerda, Iglesias vê a causa única de todos os males numa entidade unívoca e, aos seus olhos, perfeitamente determinada, o tal “Partido de Wall Street”. Poupo ao leitor a lista de todos os seus funcionários, dos mais responsáveis aos mais subalternos. Basta dizer que não seria estranho que Daniel Cohn-Bendit, “exemplo de transformismo e indignidade”, contribuísse para as suas actividades, bem como Jürgen Habermas, “aquele digno príncipe das Astúrias que se ajoelhou perante o Borbón”, e o recentemente falecido filósofo alemão Ulrich Beck. Para além dos líderes socialistas europeus.

O “Partido de Wall Street” tudo organiza minuciosamente com o único fim de trazer a miséria aos povos do mundo. Pablo Iglesias não se poupa a esforços para sublinhar a mais fantástica coerência da sua interpretação, onde tudo, sem espaço algum para a incerteza e a contingência, faz sentido. Desgraçadamente, como se sabe, há sistemas delirantes que exibem uma coerência inatacável: é mesmo próprio de certas formas de paranóia. E, indiscutivelmente, o sistema de Iglesias tem toques disso.

A caixa de utensílios

Mas fosse só isso… O verdadeiro problema vem em segundo lugar. O propósito explícito do livro é o de oferecer a tal “caixa de utensílios” que nos permita pensar o modo de sair da crise actual. Ora, onde é que nos levam invariavelmente os utensílios de Pablos Iglesias? Não à Coreia do Norte, apesar de Pablo Iglesias se limitar a dizer que o país daquela curiosa dinastia de monstrinhos “tem todo o ar de ser” uma “abominável ditadura opressora”. “Todo o ar de ser”: notem bem a discreta dúvida que aqui se insinua.

Não, o rumo do pensamento revolucionário conduz-nos à América Latina. Sob o modo de nostalgia, ao Chile de Allende, é claro, com o inevitável complemento romântico de uma morte gloriosa, a morte dos que “morreram armados, a combater, com a dignidade e a beleza dos heróis”. E, do ponto de vista do presente e do futuro, a líderes como Dilma Roussef, José Mujica, Álvaro García Linera, verdadeiros “pugilistas políticos”, e, é claro, Hugo Chávez. A aparente sofistificação maquiavélica e gramsciana leva-nos direitinho para o coração dos populismos latino-americanos. É aparentemente para esses simpáticos modelos que a luta contra o Partido de Wall Street nos deve, aqui na Europa, conduzir.

ATHENS, GREECE - JANUARY 22:  Alexis Tsipras, leader of the radical leftist Syriza party is joined by Spanish Podemos party Secretary General Pablo Iglesias (R) as he campaigns at a pre-election rally ahead of this weekend's general election on January 22, 2015 in Athens, Greece. According to the latest opinion polls, the left-wing Syriza party are poised to defeat Prime Minister Antonis Samaras' conservative New Democracy party in the election, which will take place on Sunday. European leaders fear that Greece could abandon the Euro, write off some of its national debt and put an end to the country's austerity by renegotiating the terms of its bailout if the radical Syriza party comes to power. Greece's potential withdrawal from the eurozone has become known as the 'Grexit'.  (Photo by Matt Cardy/Getty Images)

Alexis Tsipras e Pablo Iglesias em Atenas, em Janeiro deste ano ‘ (Matt Cardy/Getty Images)

O livro contém várias referências elogiosas ao Syriza e a Alexis Tsipras, que, como se disse, assina o Prólogo. Para este, é nítido, o mal da situação presente do mundo inicia-se no princípio dos anos noventa, com os prolongamentos da queda do Muro de Berlim. Pablo Iglesias, sem o dizer explicitamente, parece também partilhar uma tal visão: a queda do muro fortificou uma “retórica antissocialista e anticomunista” que se encontra no centro das nossas desgraças colectivas presentes. Se se pudesse voltar atrás…

Lamento não poder oferecer, nesta recensão, nada de mais substantivo do que estes comentários. A verdade é que não encontrei no livro nada que, mesmo vagamente, se pudesse assemelhar sequer a um arremedo de um programa político efectivo, algo que fosse susceptível de uma discussão crítica. Por detrás da exibição egotista do autor e da construção fantasmática do “Partido de Wall Street”, onde um eventual niquinho de verdade se dilui veloz como um raio num caldeirão de mentira, nada. A não ser, talvez, a paixão revolucionária pelos vários avatares dos companheiros de Guevara. O que, convenhamos, é pouco.

Uma coisa, no entanto, salta aos olhos, depois da leitura deste “último sorriso” do enfant terrible. Os negociadores da União Europeia têm aqui uma boa aproximação ao que se passa dentro da cabeça da gente do Syriza, que é muito parecida com a de Pablo Iglesias. Eles andam a jogar xadrez, mas o que lhes interessa é verdadeiramente o ringue de boxe. Sobre isso não há dúvida possível. E, sendo assim, qual a possibilidade de levar uma negociação a bom porto? Nenhuma.