Recorda-se da história da Branca de Neve, a princesa que caiu na tentação de comer uma maçã vermelha dada pela rainha bruxa má que quase a levou à morte? Ou de Eva, que não conseguiu dizer “não” à proposta da serpente na origem bíblica do mundo? A tentação e a incapacidade de resistir foram castigadas em ambas as histórias. Mas Mischel, um psicólogo da Universidade de Nova Iorque, chegou com a salvação para qualquer um que se vê perante um teste ao autocontrole: há que prever as situações onde a tentação nos testa e criar mecanismos capazes de a combater quando é necessário.

A conclusão do estudo de Walter Mischel, iniciado ainda nos anos sessenta e terminado em 2006, foi publicado este ano no livro “The Marshmallow Test: Mastering Self-Control”.

E o segredo, diz o psicólogo, pode estar guardado nalgumas ações da infância.

Conta o El Mundo que tudo começou quando Mischel decidiu juntar os filhos com idade pré-escolar dos colegas de trabalho na Universidade de Berkeley, onde trabalhava nos anos sessenta. As crianças ficaram sozinhas numa sala sem nenhuma distração, exceto um marshmallow (um doce semelhante a uma goma açucarada muito comum nos EUA).

Depois de estabelecida uma relação de confiança entre o investigador e a criança, ele fazia-lhes uma proposta: ou comiam de imediato a guloseima, ou esperavam pelo regresso do adulto e seriam recompensados com dois doces – quando a tentação chegasse a níveis incomportáveis, a criança podia chamar o adulto abanando um sino.

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Os resultados que os psicólogos retiraram desta experiência permitiu estudar a função executiva do cérebro: segundo Mischel, tudo passa por manter um objetivo em mente e estar apto para eliminar todos os obstáculos que possam dificultar a sua concretização. E há que “regular a atenção e a imaginação” para facilitar esse percurso.

A fisiologia da tentação

Ora, essa capacidade depende do equilíbrio entre os dois sistemas de controlo que existem no ser humano. O sistema “quente” está dependente das amígdalas e do sistema límbico e responsabiliza-se por regular o medo e a fome. É mais imediato, menos ponderado e mais antigo. Depois vem o sistema de controlo “frio”, localizado no córtex pré-frontal, capaz de analisar as consequências de uma ação no futuro. É a partir deste último, o mais recente da história da evolução do Homem, que conseguimos perseguir um objetivo.

De acordo com o The Wall Street Journal, um terço das crianças observadas nos anos sessenta conseguiram esperar pelo segundo doce. E algumas conseguiram esperar mais tempo pela recompensa do que outras: ora isso é ditado pelo equilíbrio entre os dois sistemas de controlo, algo que mais tarde determina alguns comportamentos dessas mesmas crianças.

No estudo, as crianças que esperaram mais pela segunda guloseima tiveram, já jovens adolescentes, melhores médias de ingresso na universidade e tinham encontrado formas de ganhar mais dinheiro. Além disso, os mesmos indivíduos, já com idades entre os quarenta e os cinquenta anos, tinham um índice de massa corporal mais baixo. Tudo isto porque tinham tido maior habilidade em perseguir objetivos e persistir neles, mesmo tendo em conta o sofrimento que isso pode causar e de os ter obrigado a superar a frustração.

Fugir à tentação

Mas como se resiste à tentação? Mischel considera que o segredo está em mudar o modo como representamos o objeto de desejo. Imagine que aquele bolo é um objeto inanimado, como uma fotografia ou uma estátua. Outra técnica é distanciar-se do que deseja no espaço e no tempo, recordando-se sempre das consequências que terá se cair na tentação.

Também há mecanismos fisiológicos que o podem abstrair da tentação. Durma e coma de forma saudável, faça exercício e encontre-se com pessoas que compreendem as suas fraquezas, mas que sejam capazes de reforçar o seu autocontrole.

E Mischel fala em causa própria: este psicólogo foi fumador durante muitos anos e só conseguiu largar os três maços que fumava por dia quando se cruzou com um homem doente na Escola de Medicina de Stanford: o homem tinha desenvolvido metástases de cancro no pulmão e tinha o corpo marcado com cruzes que indicariam os pontos onde a radiação de tratamento iria recair. A visão alertou-o e motivou-o a mudar hábitos.

O psicólogo Mischel destacou na The New Yorker que “se tivermos capacidades que nos permitam diferenciar sobre quando fazer ou não fazer algo, beber ou não beber alguma coisa ou sobre analisar corretamente quando esperar ou não esperar por algo, deixamos de ser vítimas do nosso desejo”.