Uma pulga, o cão que a aloja e o dono desse cão dificilmente poderiam ser colocados num mesmo grupo a não ser que os analisemos ao nível das células. As células destes organismos, e de quase todos os organismos vivos que conhecemos, são eucariotas, por oposição às células procariotas das bactérias. Mas estes dois tipos de células são tão diferentes que é difícil acreditar que as células eucariotas evoluíram das procariotas. Contudo, uma descoberta das profundezas do oceano veio abanar todas as convicções.

Para separarmos estes dois tipos de células temos de as olhar por dentro. As procariotas não têm um verdadeiro núcleo (káryon), mas as eucariotas sim – além de serem células muito mais complexas. Os organismos com células procariotas são obrigatoriamente unicelulares, como as bactérias. Mas o grupo Archaea, que em tempos se pensou pertencer ao grupo das bactérias, também é procariota. Estes organismos são conhecidos por viverem em ambientes extremos – temperaturas muito altas, salinidade elevada ou concentrações de enxofre insuportáveis por outros organismos.

Os estudos mais recentes têm mostrado que as células eucariotas podem ter evoluído do grupo Archaea, mas até agora ainda não tinha sido possível identificar um organismo que fizesse a ligação destes dois grupos de células. Remexendo os sedimentos oceânicos, a mais de três mil metros de profundidade, a equipa de Thijs Ettema, investigador na Universidade de Uppsala, na Suécia, descobriu uma Archaea nova. A Lokiarchaeota, como lhe chamaram os investigadores, ou “Loki” para os amigos, pode ser um dos elos perdidos que os investigadores procuravam. A descrição da nova espécie, encontrada junto às fontes hidrotermais oceânicas entre Noruega e Gronelândia, foi publicada esta quarta-feira na revista Nature.

É que este organismo continua a ter uma célula procariota, mas produz proteínas típicas das células eucariotas, tal como as proteínas do citoesqueleto – um conjunto de fibras que controla o movimento das células, mas que só existe nas eucariotas. Células procariotas com este tipo de parafernália podem ter criado as condições ideias para o aparecimento de células mais complexas que deram origem às células eucariotas.

Durante a evolução, as células eucariotas também podem ter incorporado células procariotas no interior. É este fenómeno que parece justificar a existência de mitocôndrias com material genético próprio ou de cloroplastos capazes de realizar fotossíntese no interior das células eucariotas.