Há seis anos e meio, Lisa Reisman virava um capítulo na sua vida: ultrapassava por completo um tumor cerebral. E quase não pensou nisso. A jornalista do Quartz conta toda a experiência sob a tese: “Não dar importância pode ser uma estratégia para combater o cancro”. Vamos à fundamentação.

Agosto de 1998. Lisa recebia o diagnóstico. Tinha um tumor cerebral, um glioblastoma multiforme. Ao ouvir as palavras do médico, a sua reação foi uma “não-reação”. Ouviu o nome complicado e pediu para não saber qual era o prognóstico.

O glioblastoma multiforme é o tipo de tumor cerebral primário mais comum e mais letal. A taxa média de sobrevivência está entre um e dois anos.

“Não há forma de saber se a minha decisão de não querer saber nada ajudou na minha recuperação”, admite a jornalista. “Posso simplesmente ter tido sorte. Posso ter tido um excelente cirurgião. Os tratamento de radioterapia e de quimioterapia podem ter parado o cancro de se espalhar”, reconhece a jornalista. Mas reforça: “Há informações que não podem ser ‘desaprendidas’ ou ‘eliminadas’, especialmente quando estamos frágeis”. Ou seja, no seu caso, o melhor mesmo foi não saber porque a informação, uma vez apreendida, iria ficar a tilintar no pensamento todos os dias.

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Lisa lembra a primeira vez que que foi à ala de oncologia para receber os tratamentos. Lembra o que viu: a “pele cinzenta”, os “olhos sem brilho” e os “inchaços”. Era a cara do cancro, diz. Por isso, decidiu afastar-se o mais possível daquele ambiente, ignorando o que estava à sua volta. “Durante os tratamentos de quimioterapia, fui tratada num pequena recanto separado da ala principal. Durante a radioterapia, mantive sempre os olhos fixados numa revista enquanto esperava na sala pela minha vez”. Esta forma de negação é entendida por Anna Freud como uma “forma inconsciente de defesa” contra os aspetos dolorosos daquela situação, escreve Lisa.  Apesar dos dias em que essa força fraquejava, a negação era a atitude mais constante.

“Uma coisa é a negação que faz com que o paciente recuse o tratamento. Mas estudos recentes revelam que um outro conceito de negação pode ser uma estratégia adaptativa para minorar o impacto da doença”, refere Lisa Reisman.

Ou seja, o tipo de negação apresentado pela jornalista consiste em assumir que se tem cancro, mas não deixar que isso tome o controlo da vida — pelo contrário, reduzir a “presença da doença” o máximo possível e adotar uma postura positiva.

Em jeito de conselho, Lisa conclui. “Por outras palavras, defina metas para cada dia. Andar, por exemplo. Faça 500 passos mas, se não se sentir com tanta energia, ande só 100 ou 50. Decore um poema. Se não conseguir decorar todo, decore só uma parte”. Segundo a própria, é uma forma de compartimentar a doença. E de viver como se ela (quase) não existisse.