Terra

Para conhecer esta faixa de terra à beira-mar, seja ambicioso. Parta de Odemira e rume a Norte. Inserido no Parque Natural do Sudoeste Alentejano e da Costa Vicentina, está um território muito concorrido por cegonhas, lontras e um número crescente de turistas que, fugindo às praias do Algarve, procuram águas mais frias mas com menos confusão. Pelo menos, por agora.

Porto Covo e Vila Nova de Milfontes são pontos de paragem obrigatória, com ou sem acompanhamento musical de Rui Veloso. Mas não se perca: há herdades com vista para o mar, há lagoas amplas e muitas capelinhas brancas, vestígios de outras passagens.

Se não quer saber de praias, mergulhe nos trilhos da Serra do Cercal. Procure a Rocha de Água d’Alte, suba ao Pico da Vagarosa e contemple a vista do ponto mais elevado da Rota Vicentina: o Pico de São Domingos. Mas se quer saber de Terra, há uma festa que celebra as músicas de todo o mundo. Pelo 17º ano, Sines vai receber artistas de vários continentes e influências. O cartaz completo ainda está por revelar, mas já são conhecidas datas para mais um Festival Músicas do Mundo: 17 a 25 de julho.

Tome nota: Está a decorrer a 11ª edição do Festival Terras Sem Sombra, um evento do Departamento do Património Histórico e Artístico da Diocese de Beja que leva concertos, conferências e muitos passeios a várias cidades do Baixo Alentejo. As actividades junto ao Atlântico já decorreram, com Grândola, Santiago do Cacém, Sines e Odemira a receberem artistas musicais de renome e excursionistas ambientais. Desta ligação entre a música, a defesa do património e a conservação da biodiversidade surgiu um dos festivais mais emblemáticos do sul, já distinguido com um selo de qualidade europeu.

Ar

Levante os olhos e aproveite a oportunidade: uma década depois, a águia pesqueira voltou aos céus alentejanos. Este é o exemplar mais mediático de entre as inúmeras aves que pode observar por estes lados. Existem vários roteiros para quem se dedica a este hobby de paciência: o birdwatching.

Para não ficar com inveja destas aves raras, aproveite uma paragem em Alcácer do Sal e faça um baptismo especial: voe de helicóptero. Se o tempo ajudar, é uma forma única de experienciar os encantos do Alentejo à beira-mar.

A ligação dos alentejanos aos céus do Atlântico é histórica: nasceu em Alcácer do Sal um cosmógrafo real, inventor de um sistema de navegação – o nónio – que impediu muitos desvios de rota no período das Descobertas. Chamava-se Pedro Nunes, deu nome a um liceu na capital e foi um dos mais brilhantes cientistas portugueses. Por outro lado, muitos séculos depois, foi de Vila Nova de Milfontes que, em 1924, partiu o avião de Brito Pais e Sarmento Beires, na primeira travessia aérea entre Portugal e a longínqua Macau.

Tome nota: Inspire-se nos ares do Alentejo e rume a Santiago do Cacém, onde uma Escola de Voo está pronta para o desafiar. Parapente, parastrike e até voo livre são algumas das opções a explorar.

Fogo

A ligação a este elemento é antiga nestas bandas. Com séculos de experiência, as cerâmicas de Santiago do Cacém são reconhecidas pela sua qualidade, pintura detalhada e pelo número de oficinas que ainda se dedicam exclusivamente a esta arte. Herança da época romana, a olaria é apenas um dos legados que perduram.

Um sistema subterrâneo de ar quente (o hipocausto) alimentou as delícias de quem, entre a Idade do Ferro e o século IV d.C., frequentou as Termas de Miróbriga. Entre banhos quentes ou frios e sessões de massagens, os romanos construíram o que é hoje um dos espaços arqueológicos mais importantes do país – por aqui, descobriu-se também um dos maiores hipódromos da Europa.

Já que falamos de calor, pode percorrer a terra natal do escritor Manuel da Fonseca, autor de “O Fogo e as Cinzas”, e imaginar que foi nas ruas de Santiago do Cacém que, pela primeira vez, foi visto um automóvel em Portugal – em 1895, uma compra de um jovem aristocrata, D. Jorge de Avillez.

Tome nota: O Alentejo é também conhecido pela sua toponímia. Experiente um roteiro mais cálido, em que pode conhecer localidades como Torrão, Paiol, Fornalhas Novas e ainda a Praia das Furnas. Termine a viagem com um pôr-do-sol na Ilha do Pessegueiro (Porto Covo), no topo do Forte de Nossa Senhora da Queimada.

Água

Conhecer o Litoral Alentejano sem visitar as praias não faz qualquer sentido. Espreite as reentrâncias da linha costeira e abrace o Atlântico. Há praias de renome mundial e de renome popular: Tróia, Almograve, Malhão, Zambujeira do Mar (ligada ao Festival Sudoeste) e Comporta (ligada aos escândalos da família Espírito Santo).

Aproveite o roteiro e conheça também as lagoas e barragens que compõem estes espelhos de água tão especiais: Santa Clara, Melides, Vale do Gaio, Pego das Pias, entre outros. Se preferir os rios, navegue pelo Sado num cruzeiro de sul para norte que atravessa a Reserva Natural.

No entanto, se estiver farto de natureza e só tiver olhos para o progresso, há outro espaço a visitar e bem no centro desta faixa litoral: o Porto de Sines. A constante entrada e saída de barcos de recreio ou de grande porte, além do volume de mercadorias registado, dão uma dinâmica distinta à localidade. E a paisagem também é muito diferente. Passeie pela ZILS (Zona Industrial e Logística de Sines) e tente imaginar como tudo era há séculos.

Se a imaginação não chegar, pegue num livro de Al Berto, poeta ligado a Sines e patrono das artes locais, e perceba porque “já quase não se ouve o riso de[le]” (segundo uma reportagem de Raquel Ribeiro, em 2012, para o jornal Público). Para um programa mais calmo, vá ao teatro. Do Mar, claro.

Tome nota: Não deixe de procurar as Lagoas de Santo André e da Sancha, que juntas compõem uma Reserva Natural a visitar em qualquer altura do ano. Neste espaço único protegido, pode sentir o calor alentejano na pele, ver as aves que navegam pelos céus e apreciar como, entre a terra (dunas) e o mar, todos os elementos se conjugam para passar bons momentos.