Depois da festa, arruma-se a casa. Ainda as decorações de Santo António não saíram das janelas e varandas e já a Vila Berta está em obras. Aquela típica artéria do bairro lisboeta da Graça vai ser alvo de trabalhos de requalificação, mas o objetivo é que, no fim, ninguém note diferenças. Ou melhor, que tudo esteja mais tratado e bonito, mas não alterado.
“A nossa ideia é tentarmos conseguir repor toda a originalidade e graça da Vila Berta”, explicou esta segunda-feira aos jornalistas Estêvão Tojal, arquiteto e um dos mentores do plano de recuperação daquela zona. Para tal, as fachadas dos 16 edifícios que compõem a Vila Berta serão pintadas de fresco, os azulejos vão ser substituídos e conservados e os cabos vão desaparecer das paredes. “Uma das nossas intervenções vai ser a colocação dos cabos no interior” das habitações, referiu Estêvão Tojal, afirmando que já tem o acordo de diversas empresas de telecomunicações e de eletricidade para que isso suceda.
O plano de requalificação da Vila Berta, construída no início do século XX por um familiar de Estêvão, tem o apoio da Câmara Municipal de Lisboa através do programa BIP/ZIP (Bairros e Zonas de Intervenção Prioritária). O orçamento inicial é de 45 mil euros, a serem gastos em pinturas, rebocos, trabalhos de serralharia e carpintaria. Além desta verba, a Associação de Defesa do Património da Vila Berta, que promove a obra, conta ainda receber algum dinheiro resultante da realização do arraial de Santo António naquela rua e o apoio de patrocinadores. Como a Barbot, por exemplo, que ofereceu todas as tintas.
“Este programa vai melhorar esta joinha que temos em Lisboa”, disse uma entusiasmada Elisabete Ferreira, de 68 anos, há 50 moradora na Vila Berta. “É bom abrirmos a janela e estarmos rodeados de coisas bem tratadas e cuidadas”, afirmou, acrescentando que “basta olhar” para perceber que “estas coisas todas estão a precisar urgentemente de intervenção”.
A Vila Berta, classificada como Imóvel de Interesse Público em 1996, foi construída no início do século XX para albergar uma pequena burguesia que por essa altura começava a pontificar em Lisboa, movida pelo desenvolvimento industrial da capital. Com prédios de dois andares, de um lado e de outro da estreita rua que a atravessa, a Vila Berta destaca-se, entre outras coisas, pelas largas varandas em ferro, pelos azulejos arte nova e pelas muitas flores que enfeitam as janelas. Apesar de ser um local acarinhado pelos moradores e cada vez mais procurado por turistas, em alguns locais a degradação é evidente.
“Isto acaba por ser uma aldeia dentro da cidade e pretende-se continuar a preservar” essa vivência, disse Estêvão Tojal. Joana Grilo, coautora do projeto, pensa que “muita gente não conhece ou não reconhece [este local] como património da cidade de Lisboa”, pelo que a intervenção passa também por consciencializar as pessoas para isso. O que se pretende, disse, é criar “um efeito bola de neve”, para que as obras no exterior inspirem os moradores a fazer obras também no interior das casas.
Estes trabalhos têm uma duração prevista de três meses, mas deverão ser apenas o primeiro passo de uma obra maior, para “que ela [a Vila] dure mais 50 ou cem anos”, disse Estêvão. Em cima da mesa, para o futuro, pode estar o fecho da rua ao trânsito, por exemplo. Enquanto o futuro não chega, pintam-se paredes. Logo após a apresentação do projeto, vários operários começaram a trabalhar.