As mulheres portuguesas trabalham mais anos que as restantes mulheres europeias, ganham menos e estão mais em risco do limiar de pobreza. Para além disto, têm menos poder e estão menos representadas no Governo, no Parlamento e nos negócios do que a média europeia. Estas condicionantes fazem com que Portugal seja o terceiro país mais desigual da União Europeia, segundo o Índice da Igualdade de Género, divulgado esta quinta-feira em Bruxelas.

Este índice analisou seis indicadores (trabalho, dinheiro, tempo, educação, poder e saúde) e coloca as mulheres portuguesas a pouco mais de um terço de igualdade com os homens, já que o país pontuou 37.9 – neste índice, 100 representa a igualdade máxima entre os dois sexos e zero representa a desigualdade total.

Apesar de o relatório que acompanha este índice, elaborado pelo Instituto Europeu para a Igualdade de Género (EIGE), referir que a crise económica sentida em muitos países da Europa fez com que as desigualdades entre homens e mulheres “fossem fortemente reduzidas nalgumas áreas”, nomeadamente emprego – porque muitos trabalhos ligados a setores tradicionalmente masculinos foram afetados -, isso não aconteceu em Portugal. Os indicadores de trabalho e dinheiro relativos aos dados de 2012 baixaram face ao nível de igualdade atingido em 2010, como é visível no gráfico.

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Estes são os dados mais atualizados para os 28 Estados-membros, dizem respeito a 2012 e mostram uma perda acentuada para as mulheres portuguesas nos campos ligados ao emprego. Para calcular o indicador do trabalho, este índice olhou para o número de mulheres empregadas – há menos mulheres empregadas em Portugal face aos homens, embora acima da média europeia -, a segregação no mercado de trabalho – com 28% das portuguesas a trabalharem na educação ou saúde, face a 8% de homens – ou a capacidade para tirar horas de trabalho para tratar de assuntos pessoas ou familiares – o homens portugueses conseguem tirar estas horas mais facilmente.

Quanto ao dinheiro, o EIGE teve em conta o salário mensal, o rendimento anual e o risco de pobreza, que mostram que as mulheres portuguesas ganham menos e estão mais em risco de pobreza do que os homens. Mesmo em relação às restantes europeias, as portuguesas estão em desvantagem, havendo 17,9% de mulheres com mais de 16 anos no limiar da pobreza, enquanto a nível europeu são 16,9%.

No poder, e tendo em conta que estes dados são relativos a 2012, a perspectiva das portuguesas melhorou desde aí com a entrada de figuras como Maria Luís Albuquerque e Anabela Rodrigues na equipa de Passos Coelho, havendo agora quatro mulheres no Executivo. No entanto, as mulheres representam apenas 28% dos deputados, 25% das assembleias municipais e há apenas 7% de mulheres nos conselhos de administração das principais empresas portuguesas cotadas em bolsa. Apenas em Chipre o indicador de poder e representação de mulheres em cargo de topo é tão baixo como Portugal.

Apesar de Portugal continuar a fazer progressos na área da educação, onde cada vez mais mulheres têm formação superior – havendo até mais mulheres a aceder a licenciaturas, mestrados e doutoramentos do que homens – e a saúde também estar a par com a média europeia, os indicadores no seu conjunto fazem com que Portugal esteja abaixo da média europeia e muito longe de uma igualdade plena entre os dois sexos.

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Os dados relativamente ao tempo não foram atualizados face a 2010, mas já na altura mostravam que mais de metade das mulheres portuguesas dedicavam pelo menos uma hora a tratar dos dependentes (filhos ou pais) e mais de 90% dizia passar pelo menos uma hora a tratar da casa, cozinhando ou limpando, enquanto apenas 39% dos homens portugueses diziam tratar dos filhos e menos de 20% limpavam ou cozinhavam. Em média, os homens europeus passam menos tempo com os filhos do que os portugueses, mas mais tempo a limpar e a cozinhar (24%).