– Filho olha ali a Torre de Belém! – grita uma mãe enquanto aponta entusiasmada para o Padrão dos Descobrimentos. Seguem-se as inevitáveis selfies, antes de o grupo marchar para o interior dos Jerónimos. Ao longe, de costas, o infante D. Henrique, eternamente olhando o Tejo, já está certamente habituado à ignorância da História acabada de exibir. Afinal está ali há 75 anos. É um dos três edifícios que restam da Exposição do Mundo Português de 1940 com a qual Salazar celebrou a nacionalidade e o império luso. Ao lado estão o fantasmático Museu da Arte Popular e o restaurante Espelho d’Água, projetado pelo arquiteto António Lino, que depois de muitos anos ao abandono foi reabilitado por um empresário angolano orgulhoso da História portuguesa. Irónico não?

Vista aérea do edifício em 1940, na Exposição do Mundo Português

Vista aérea do edifício em 1940, na Exposição do Mundo Português.

Quando passam 600 anos sobre a conquista de Ceuta, o primeiro ato da expansão para lá das fronteiras, e 40 sobre a independência das ex-colónias e o consequente fim de um império de 500 anos, o café-restaurante Espelho d’Água serve-nos uma ementa feita de sabores vindos desse antigo mundo português, uma galeria de arte, um painel da autoria do pintor americano Sol Lewitt, pioneiro do Minimalismo, e até cadeiras de lona iguais àquela que derrubou o octogenário ditador português.

Zona de restaurante com mural de Sol Lewitt ao fundo

Zona de restaurante com o mural de Sol Lewitt ao fundo.

Ao longo de sete décadas o Espelho d’Água foi palco de muitos projetos e até de intervenções arquitetónicas de Cotinelli Telmo a Manuel Graça Dias. Foi um restaurante-danceteria nos anos 40, foi um seleto clube da Legião Portuguesa, foi o T-club, foi um restaurante chinês…até que em 2012 a exploração do espaço foi posta em concurso público. A concessão foi ganha por Mário Almeida, um luso-angolano que cresceu em Portugal mas regressou a Angola onde fundou o Espaço-Baia, em Luanda. O seu projeto não só reabilitou a arquitetura modernista do edifício como lhe acrescentou uma galeria de arte e espaço para concertos, um restaurante, um café, uma esplanada e uma área de quartos para residências artísticas.

É imperdoável ir a Belém e ficar pelas pizzas do NoSolo Itália, pelos bifes da Portugália, ou mesmo pela alta cultura do CCB se se pode atravessar as portas do Espelho D’Água, ver uma pintura minimalista e valiosíssima que esteve durante anos escondida atrás de uma parede falsa (desconhece-se o autor desta brilhante ideia — talvez um inimigo do Minimalismo americano), e saborear uma vista deslumbrante sobre o Tejo e sobre as ironias da História, ali entre o Padrão dos Descobrimentos e a Torre de Belém. Quem sabe se o infante não sai do seu mutismo pétreo e até se ri também…

Esplanada com vista para o Tejo, a ponte 25 de Abril e o Padrão dos Descobrimentos

As célebres cadeiras de lona da esplanada com vista para o Tejo, a ponte 25 de Abril, o Padrão dos Descobrimentos e as colinas da margem sul.

Nome: Espaço Espelho d’Água
Morada: Avenida de Brasília (Belém), Lisboa
Telefone: 21 301 0510
Horário: Todos os dias, das 11h à 00h
Sitewww.espacoespelhodeagua.com