O mundo da bola não é igual ao quotidiano. É fácil sair de casa, garantir que na carteira estão notas e moedas, ou um cartão que torne os euros eletrónicos, entrar na loja, escolher o que se quer, pagar e pronto. As regras do quê, do quando e do onde podem ser inventadas por cada um, porque ir às compras é das tais coisas que se fazem ao sabor da vontade do freguês. No futebol, a história é outra. As regras são-lhe impostas e os clubes bem podem olhar para a própria casa e notar que falta mobília, mas só podem mexer-lhe de seis em seis meses. Por isso é que no verão e no inverno há sempre 30 dias de um fartote de compras e vendas. É a única altura em que os clubes podem dar uma volta à casa.

Em Portugal, quando os negócios têm uma bola pelo meio, é mais habitual ver dinheiro a entrar do que a sair. Há mais euros a apanharem boleia nos móveis que saem do que nos que entram e não há Casillas, Gutiérrez, Carcela-González, Imbulla, Ruiz ou Mitroglou que cheguem para inverter um costume que já tem anos. Benfica, FC Porto e Sporting têm contratado muito jogador, mas o dinheiro que foi não chega para fazer metade do que entrou — em conjunto, os três grandes gastaram 48,5 milhões de euros, bem menos do que os 124,7 milhões que lucraram. É obra? Sim. É surpresa? Nem por isso, porque meia Europa sabe que os clubes portugueses compram o barato, trabalham-no, fazem-no melhorar, e depois vendem-no caro.

Transferencias-Porto

Os dragões fizeram algo diferente — compraram um móvel jovem e carregadinho de potencial, mas tiveram que pagar bem caro por ele. Foram 20 milhões os euros que transferiram para a conta do Marselha para ficar com Giannelli Imbula, um médio corpulento, 22 anos, corredor por natureza, que usa o pé esquerdo para passear as muitas bolas que rouba por jogo. “Tem uma capacidade tremenda para ser centrocampista” e “titular de caras”. É assim que Manuel José, treinador que com 69 anos já viu éne jogadores a irem e a virem para Portugal, analisa o francês que se tornou na transferência mais cara de sempre do FC Porto. O clube gastou como nunca e também vai remunerar como um milionário — porque foi a Madrid buscar um dos melhores guarda-redes do mundo. E Iker Casillas “sabe tudo o que é estar num clube grande” e “dá uma grande moral” a troco dos seis milhões de euros de salário anual que os portistas lhe vão pagar.

Além destes dois nomes, Manuel José diz que há um outro que passará a vida a ser titular. É Maxi Pereira, a contratação dois em um, que serviu de “vitória sobre o principal adversário” e de “reforço a sério” para ocupar o vazio deixado pela venda choruda de Danilo (31,5 milhões de euros, para o Real Madrid). Depois vieram Alberto Bueno, homem “habituado a fazer golos” e o espanhol que mais golos (17) marcou na última edição da liga nuestra hermana (a espanhola), Pablo Osvaldo, “que é craque”, e Danilo, André André e Sérgio Oliveira, que dão “muitas e boas” soluções ao meio campo. Manuel José está curioso para ver a luta entre os avançados, já que Aboubakar passou “a época passada a aprender a jogar no campeonato português” e agora parece ser a aposta de Julen Lopetegui. O português só vê um problema no meio disto tudo: “A margem de tolerância com o treinador, que é praticamente zero.”

Passar “quase” duas épocas inteiras sem canecos novos a entrarem no museu não é normal para os dragões e Manuel José acha que a paciência dos adeptos já não é muita. “O treinador chegou a época passada, não conhecia o campeonato, achava que era tudo muito fácil e, ao início, cometeu erros atrás de erros”, argumenta, embora ache que “talvez o FC Porto seja o principal candidato” à conquista do campeonato. Afinal, foi o que mudou menos e o único que manteve o treinador. Mas dos nove jogadores que o FC Porto contratou, apenas três deverão passar a época como titulares. Isto sem contar com Silvestre Varela, o extremo que não é Ricardo Quaresma — “é um bom jogador, mas não tem nem o carisma nem o talento” — mas que voltou de um empréstimo para fazer as vezes do português que se foi embora por andar sempre às turras com Lopetegui.

Transferencias-Benfica

Alguns adeptos do Benfica também já andam a torcer o nariz a Rui Vitória. A pré-época só com derrotas e empates cozinhou o bolo ao qual, a derrota na Supertaça, deu o toque sensaborão. Os encarnados deixaram a temporada arrancar sem milhões gastos na contratação de um craque. Manuel José estava no Algarve de férias, “sem SportTV nem nada” e não viu os jogos que o Benfica foi fazendo nos EUA e no México, mas da derrota (1-0) frente ao Sporting, no domingo, tirou uma lição: “O Benfica contratou poucos jogadores”. Os que apareceram não chegam porque “Taarabt está gordo”, Carcela “lesionou-se” e “ninguém conhece o miúdo [Bilal Ould-Chikh] de 18 anos”. Manuel José não vê nenhum destes com as hipóteses que Mitroglou tem de ser titular, já que o grego “tem características para ser um bom companheiro de Jonas”, o brasileiro que não rende se jogar sozinho na frente.

O clube da Luz deu sinais de que guardou o saco de compras para ver no que dava e, como deu numa equipa a tremer, “ficou claro que os reforços vão tarde” e “mais pela pressão dos adeptos”. Um deles já chegou e chama-se Raúl Jiménez. É mexicano, tem 24 anos, avançado de corpanzil que vem para procurar a sorte que não teve no Atlético de Madrid, onde marcou um golo na época passada entre os poucos minutos que teve no meio de Mario Mandzukic, Antoine Griezmann e Fernando Torres, os outros avançados que por lá andavam. “Vai ter de resultar rápido, foi matador e goleador no México, mas não se conseguiu impor no Atlético. O campeonato português é mais acessível que o espanhol, vamos lá ver se resulta”, resumiu Manuel José. O problema, lá está, é que chegará tarde, com a pré-época feita noutro clube.

Transferencias-Sporting (1)

Sobra o Sporting. O novo leão em que Jorge Jesus pegou e “mudou tudo” em cinco semanas, como chegou a dizer. Teve a ajuda do clube, que lhe encheu o saco de compras como há muito não enchia. Pagou 3,4 milhões de euros por um avançado de 30 anos, que decidiu a Supertaça sem querer (Teófilo Gutiérrez), que Manuel José viu a “dominar bem a bola sob pressão” e que, deduz, tem qualidade para ser titular — “Quem esteve na Copa América e deixou tantos pontas de lança no banco [Carlos Bacca e Jackson Martínez, por exemplo] só pode ter talento”. Depois, o clube ainda contratou um homem que parece ter cola no pé esquerdo. “O Bryan Ruiz já demonstrou ao que vem, é tecnicamente muito evoluído, dribla e passe, tem muita qualidade e ainda só se mostrou numa posição que não é a dele”, diz o técnico sobre o costa-riquenho que, segundo JJ, “sabe tudo”.

Estes e outros chegaram e Jesus fez como faz sempre: “Os que contratou, avançou logo com eles.” Ruiz e Gutiérrez jogaram de início na Supertaça, como Naldo, o central brasileiro que dá pouco nas vistas e que Manuel José viu fazer muito em campo. “Não cometeu erros, não o vi em excessos. Impecável”, resume. Na defesa também esteve João Pereira, lateral que o Sporting transformou em retornado (já tinha estado no clube entre 2010 e 2012) para fazer o lugar que era de Cédric Soares. “Nem se notou, parece que com 31 anos já estava acabado, mas está mais calmo e a controlar os ímpetos que tinha. O tempo funciona como no vinho: azeda os maus e apura os bons. E se ele continuar a ter aquela alma vai até Almeida”, argumentou o treinador. Restam Bruno Paulista, o mais caro dos reforços que ninguém ainda viu jogar, e Alberto Aquilani, o passador de bolas italiano, já com anos de seleção transalpina (38 jogos, o último em novembro de 2014), que Paulo Sousa não quis na Fiorentina.

Até às 23 horas, 59 minutos e 59 segundos de 31 de agosto, mais jogadores poderão ser comprados e inscritos por Benfica, Sporting, FC Porto e todos os outros clubes portugueses. Por isso, mais compras poderão estar a caminho.