Um dos contos mais conhecidos de MR James, o mestre inglês da literatura de terror sobrenatural, “Casting the Runes”, é sobre uma maldição demoníaca que é lançada pela transmissão individual de um papel com runas, e que só pode ser afastada se esse mesmo papel for devolvido a quem o escreveu (o conto deu um filme de Jacques Tourneur em 1957, “A Noite do Demónio”). Esta ideia foi adoptada por Gregory Hoblit no arrepiante “A Queda” (1998), onde um polícia interpretado por Denzel Washington enfrenta um demónio que passa de pessoa para pessoa pelo toque.

E agora manifesta-se de novo em “Vai Seguir-te”, a segunda longa-metragem do jovem norte-americano David Robert Mitchell (estreia-se hoje), na qual uma entidade maléfica é “transmitida” pelas relações sexuais e persegue, silenciosa, lenta e implacavelmente a sua vítima para a matar, podendo tomar a forma de quem a transmitiu, de um familiar vivo ou morto ou de um desconhecido. E ninguém a vê, senão o perseguido. No caso, uma adolescente, Jay (Maika Monroe), que a “herda” do namorado após ter feito amor com ele no carro.

Trailer de “Vai Seguir-te”

Também autor do argumento, Mitchell cria aqui um novo tipo de ameaça maléfica, um “monstro” para os nossos tempos, e inscreve-a no quotidiano mais banal e anónimo possível: os subúrbios de classe média iguais a tantos outros de uma grande cidade dos EUA que nunca é referida, a exemplo de John Carpenter no seu clássico “Halloween-O Regresso do Mal”, e fazendo-a eclodir no meio de um grupo de adolescentes. Aliás, “Vai Seguir-te” é devedor da fita de Carpenter, quer no eficacíssimo uso que faz do “widescreen”, para instalar tensão, mal-estar e a sensação de que algo terrível está para acontecer, e para sublinhar a presença ameaçadora e muda da entidade sobrenatural, quer da banda sonora electrónica, que cria tanto “suspense” quanto nos vai estraçalhando gradualmente os nervos.

O realizador quase não lança mão de efeitos especiais, se exceptuarmos a aflitiva sequência na piscina interior. Em “Vai Seguir-te”, o medo é gerado pela câmara, pela música e pelos actores; todo o filme, rodado por apenas dois milhões de dólares e com um elenco de desconhecidos, assenta numa ideia singela mas poderosamente visual.

Entrevista com o realizador

Vários foram os livros de terror que tiveram origem em pesadelos dos seus autores (Bram Stoker alegava ter concebido “Drácula” após uma note de sonhos maus provocados por uma indigestão de caranguejo estragado). David Robert Mitchell disse que “Vai Seguir-te” é o resultado de um pesadelo que costumava ter quando era miúdo, no qual era perseguido por uma presença maligna lenta mas inexorável. A história do filme pode ter uma leitura relacionada com a actividade sexual – mais particularmente, com a promiscuidade vulgarizada e desumanizada das sociedades contemporâneas –, já que é através do sexo que a entidade se manifesta e transmite, qual versão sobrenatural de uma doença venérea ou da Sida.

Segundo o próprio Mitchell, o uso de preservativo ou as relações homossexuais não impedem a passagem da maldição para outra pessoa. Mas nem esta interpretação é pesadamente sinalizada pelo realizador, nem ela impede a fruição do prazer mórbido do medo que “Vai-te Seguir” nos faz sentir de forma tão simples e tão brilhante.

Entrevista com a actriz Maika Monroe

Estreado no Festival de Cannes de 2014, “Vai Seguir-te” chega a Portugal já premiado em festivais como Deauville e da especialidade, caso de Gérardmer ou Neuchatel, entre outros. É, desde já, um dos melhores filmes do ano, e uma das mais conseguidas e impressionantes fitas de terror dos últimos tempos.