As declarações de Paulo Rangel sobre a promiscuidade e corrupção durante os Governos socialistas face à ação durante o Governo da coligação, não foram bem recebidas por todos os sociais-democratas. Desde logo, Passos Coelho veio esclarecer as declarações e, ao Observador, vários militantes destacados disseram que o eurodeputado não foi bem interpretado e que trazer Sócrates para a campanha não beneficia ninguém. Há ainda quem vá mais longe.

“Foi durante este Governo, não é obra deste Governo, não é mérito deste Governo, mas foi durante este Governo que pela primeira vez em Portugal houve um ataque sério, profundo e consistente, à corrupção e à promiscuidade”, foi a frase da discórdia durante o fim-de-semana e o novo tema da pré-campanha. “Não foi devidamente interpretado. A questão é simples e é neste quadro: o problema aqui não é o problema dos Governos interferirem na Justiça, é sim, exercer-se o poder em termos de ocultação de uma possível ação da Justiça”, disse o deputado Guilherme Silva ao Observador.

Noutras alas do PSD, há até quem seja mais duro, como um ex-dirigente do PSD que classificou como infelizes as palavras de Rangel , acrescentando que o partido não ganhará com elas. Uma pessoa dá a cara pela crítica:  “Os editorialistas tem muita razão. A pergunta do Paulo Rangel é chocante. Aliás, mais chocante só imaginar, com sinceridade, a resposta”, reagiu no Facebook o ex-deputado e ex-secretário de Estado do Ambiente, José Eduardo Martins.

Já Hugo Soares, ex-presidente da JSD e candidato nas listas do PSD em Braga, considerou que as declarações não têm “nada a ver com a competência da Justiça portuguesa” e que houve muita “extrapolação” a partir do que foi dito por Rangel.

Passos Coelho veio esclarecer logo em seguida, mas deitou mais achas para a fogueira ao dizer, no encerramento da Universidade de Verão da JSD, no domingo, que “bancos e Governos não existem para trazer amigos”. Soares afirma que essa é uma das expressões mais conhecidas do primeiro-ministro, já que durante o seu mandato terminou “a politização da economia”. “Houve vários notícias sobre pedidos feitos pela liderança do BES ao primeiro-ministro e ele nunca acedeu. O primeiro-ministro veio apenas dizer o que tem sido prática na sua governação”, garante o social-democrata.

Ainda sobre o BES e voltando às declarações de Rangel, Guilherme Silva deu como exemplo o caso do BES, dizendo que “toda a gente sabe e é público” que no Governo de Sócrates “havia promiscuidade entre o Executivo e o BES”. “É comum avaliar-se que se José Sócrates ainda continuasse a exercer funções, o BES não seria investigado”, diz o madeirense, referindo que um Governo pode “criar barreiras que não permitem a percepção de um problema”.

Quanto a trazer Sócrates para a campanha, Guilherme da Silva discorda com a possibilidade do ex-primeiro-ministro se tornar o centro do debate. “Há a presunção de inocência, é uma matéria afecta à Justiça e o PSD tem todo o interesse em manter-se afastado deste tema”, afirma o deputado.

O PS não gostou mas não se alongou muito em comentários. A reação foi entregue a Francisco Assis, que desafiou Passos a dizer se se revia nas declarações de Rangel, que configuram uma “partidarização” da justiça.