Os estudos dos mecanismos reparadores do ADN, que valeram o Prémio Nobel da Química a três cientistas estrangeiros, são fundamentais para a prevenção e o tratamento do cancro, realçaram especialistas portugueses ouvidos pela agência Lusa. “As lesões no ADN são, provavelmente, a causa mais comum de cancro. Se não tivéssemos esta capacidade de reparar o ADN, o que teríamos era cancro por todo o corpo, tumores a aparecerem em todas as partes do corpo”, assinalou o investigador Sérgio Almeida, do Instituto de Medicina Molecular de Lisboa.

As pessoas que “têm mutações nalguns dos genes que estão envolvidos nos mecanismos” de reparação da informação genética “desenvolvem cancro com muita frequência”, sublinhou.

O investigador esclareceu que as células “dispõem de várias estratégias para reparar diferentes tipos de lesões que afetam o ADN”, permitindo prevenir a acumulação de mutações ou erros genéticos que podem levar ao aparecimento de cancro.

Sérgio Almeida, também professor na Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa, compara os mecanismos de reparação do material genético existentes nas células a uma caixa de ferramentas, em que a chave de fendas, o alicate ou o martelo são usados consoante o tipo de falha a consertar. Se a reparação do ADN previne o aparecimento de cancro, também ajuda no seu tratamento.

O investigador explicou que a quimioterapia introduz danos no ADN que, depois, “a célula cancerígena não tem capacidade para reparar”, não lhe restando outra alternativa senão morrer.

Pedro Baptista, professor no Departamento de Ciências da Vida da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa, sustentou que a compreensão dos mecanismos que estão na origem dos erros genéticos pode ajudar na prevenção, por exemplo do cancro da pele.

“O excesso de radiação ultravioleta leva à formação de alterações químicas no ADN. Se evitarmos a exposição ao Sol e se a alimentação for rica em antioxidantes, conseguimos diminuir a probabilidade de acontecer estes erros, estamos a ajudar estes mecanismos de reparação a manter o texto [ADN] sem erros”, afirmou. O docente compara o ADN a um livro de instruções, neste caso para as células. As letras são os genes, sendo que os mecanismos de reparação do ADN funcionam como corretores ortográficos.

“A célula tenta corrigir o erro, substituir a letra por uma igual ou por outra que tenha significado, ou usar uma parte do restante texto que esteja correto”, ilustrou. Para Pedro Baptista, “conhecer estes mecanismos de reparação, e conhecer os processos que os desencadeiam, permite desenvolver novos alvos terapêuticos”.

A Real Academia Sueca das Ciências distinguiu hoje com o Prémio Nobel da Química os investigadores Thomas Lindalh, Paul Modrich e Aziz Sancar pelos estudos dos mecanismos que permitem a reparação de ADN. Os três investigadores, de acordo com o Comité Nobel, conseguiram mapear, a nível molecular, a forma como reparar as células danificadas, permitindo também salvaguardar a informação genética.