Quer melhorar a qualidade de vida dos portugueses e, como na Suécia, reduzir o horário de trabalho para as 30h semanais. Mas como vai o porta-voz do Pessoas-Animais-Natureza (PAN) gerir a sua qualidade de vida, agora que ganhou um assento na bancada parlamentar? André Silva, 39 anos, dá uma gargalhada: “Não parece muito coerente, não é? Agora espera-me um horário de trabalho significativo, mas a médio e longo prazo penso ter uma carga horária um pouco menor. Não trabalharei só cinco ou seis horas”, garante.

Mas se o mais recente deputado da Assembleia da República (AR) entra no mandato a furar uma das suas medidas, outras há que quer propor mal se sente na nova cadeira: acabar com os abates nos canis. O porta-voz ainda não fechou a decisão, mas dá-lhe lugar de destaque. “Cerca de 70 mil cidadãos movimentaram-se a favor e houve mais de 45 mil assinaturas validadas. Entregámos esta legislativa [Iniciativa Legislativa de Cidadãos] em maio, quero dar-lhe seguimento o quanto antes”, revela.

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Chega à sede do PAN descontraído, não fossem alguns puxões de Nilo, o cão que o acompanha preso por uma trela. Adotado e meigo, o cachorro tem um ano e sete meses, e uma energia de miúdo de oito anos. Por causa disso, Francisco Guerreiro, o segundo candidato do PAN por Lisboa, passa toda a entrevista a passeá-lo na rua, não fosse Nilo derrubar tripés, câmaras de filmar e saltar constantemente rumo à lente (proeza que conseguiu mesmo cumprir quando regressou à sala, no final da entrevista).

Os direitos dos animais são uma das grandes bandeiras do PAN que, este ano, teve mais 30% de votos em relação às últimas legislativas.  Como têm defendido desde que se formaram, em 2009 (André Silva entra para o PAN em 2012), proteger os animais é mesmo uma das lutas do partido e estende-se a várias frentes: acabar com os animais no circo, com as touradas, com a venda e adoção de animais selvagens ou com a produção e comercialização de foie gras, um paté que submete “patos e gansos a um tratamento absolutamente cruel”. A juntar a isto, o PAN defende ainda a redução da taxa do IVA, atualmente nos 23%, nos produtos de alimentação dos animais de companhia e nos tratamentos médico-veterinários: “Uma medida que afetará, pelo menos, 50% da população”, acredita. O programa do PAN tem 160 pontos e defende a qualidade de vida dos cidadãos, dos animais e a proteção da natureza. É o mais recente partido a conquistar um lugar na AR, um objetivo que um dos pequenos não conseguia alcançar há 16 anos.

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André Silva nasceu em Lisboa, mas tem raízes no norte. Os pais, naturais de Tondela, acabaram por escolher viver na cidade grande e foi ali que cresceu. Mas nem por isso o ambientalista se confinou à vida na capital. Além de Lisboa, o trabalho pede que o engenheiro passe muitas temporadas no Alentejo, e Almodôvar, Barrancos, Viana do Alentejo, Vila Viçosa ou Ourique, passaram a fazer parte do quotidiano: “Gosto muito da cultura alentejana, da proximidade da terra, do barro”, desabafa.

Essa é também uma das razões para o PAN apostar em melhorar a qualidade de vida das pessoas. Propõem a tal redução de trabalho para as 30h semanais, assim como a Suécia está a testar atualmente (mas que o deputado não vai poder cumprir no seu dia a dia). “Mas mantendo o mesmo rendimento. É possível, traz mais felicidade para as famílias e cria mais postos de trabalho, que vão ser precisos para colmatar esta diferença”, explica. Além disso, querem estender a licença de parentalidade para um ano, distribuída por ambos os educadores, medida que consideram prioritária. “Vem na esteira do aumento de tempo entre pais e filhos. Tudo o que são recomendações mais avançadas falam em ano e meio, dois anos”.

E de onde vem o dinheiro? André Silva é imperativo: “Países como a Albânia, Macedónia e Croácia não têm o PIB da Noruega e da Finlândia, e têm 8, 9, 10 meses de licença de parentalidade. Tem a ver com vontade política, prioridades políticas e canalização de fundos.”

Para a campanha, esclarece Francisco Guerreiro, o PAN tinha “30 mil euros disponíveis”, dos quais ainda restaram alguns trocos: “Sobrou uma pequena margem, apesar de não ser significativa”, revela o candidato. Acrescenta entusiasmado: “É o sucesso de uma campanha com poucos recursos, mas com muita motivação e estratégia.”

“Recursos e estratégia”, é precisamente o que André Silva quer aplicar no Plano Nacional de Barragens, do qual discorda totalmente.

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André Silva é vegan (não consome nenhum alimento de origem animal), formado em Engenharia Civil com um Mestrado em Reabilitação de Património e Artístico, e foi eleito pelo círculo eleitoral de Lisboa com cerca de 75 mil votos (1,39%). Tem uma horta, trabalha há 12 anos, e já viveu dois anos entre as ilhas do Faial, Pico e Terceira, nos Açores, a recuperar Igrejas danificadas pelo sismo de 1998. “A minha vida faz-se em palácios, em conventos e em castelos. É o que gosto e que vou deixar de fazer com alguma pena”. As duas atividades – a profissão e o PAN – sempre foram paralelas. Até ao dia das eleições. Agora, André Silva pedirá uma licença sem vencimento porque quer cumprir o mandato “com o maior e melhor empenho possível, sem defraudar as expetativas”. Deixa o emprego na empresa de reabilitação suspenso no tempo e prepara-se para conhecer os novos companheiros de trabalho. Apesar de nunca ter falado com nenhum dos restantes deputados, está “motivado e curioso”.

E por que é que é vegan, queremos nós saber? O “culpado” é Gary Yourofsky, um ativista defensor dos direitos dos animais. Há cerca de quatro anos André Silva cruzou-se com um documentário do americano e, conta, “foi altamente impactante. O filme mostra a forma como os animais são tratados, na pecuária, para a nossa alimentação. Perturbou-me profundamente e alterou os meus hábitos alimentares de um dia para o outro”. Por isso, reduzir a produção e o consumo de carne é uma das grandes apostas do PAN, a médio e longo prazo, assim como “explicar às pessoas o que estamos a comer e qual o impacto deste tipo de alimentação nas pessoas e no planeta”.

Daqui, partimos para a agricultura biológica. André Silva quer que este tipo de produção receba apoio estatal. O deputado acredita que os subsídios disponibilizados para a agricultura convencional e pecuária agro-química e intensiva devem ser reduzidos, ao mesmo tempo que se criem outros para a descriminalização positiva dos alimentos biológicos: “Produzir só biológico não é utópico. Países tão diferentes como a Dinamarca ou o Butão estão a implantar. O mito de que a agricultura biológica não é rentável é mesmo isso: um mito”, defende. E para quem não come carne, o PAN acredita que deve ser criada uma roda de alimentos vegetariana.

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Sobre renegociação da dívida, outra das medidas que o PAN apresenta no seu programa, o deputado prefere não adiantar muito, garantindo apenas que vai pedir uma auditoria: “Perceber de facto como essa dívida foi contraída, se é justa ou injusta. Nos assuntos que não dominamos, precisamos ter os dados primeiro e só depois é que nos pronunciamos.”

Mas aquilo que estudou bem, é o método utilizado para as eleições legislativas, que diz não refletir a igualdade de voto. Propõem, por isso, a reforma do sistema eleitoral: “Temos 22 círculos eleitorais. Isto promove que 500 mil dos votos úteis não tenham servido para nada no domingo. O PAN teve em todo o país 75 mil votos e elegeu um deputado. Mas no círculo do Algarve, o PSD teve 62 mil votos e elegeu quatro. Ou o PS que no círculo dos Açores, com metade dos votos do PAN, elegeu três deputados. Se tivéssemos um círculo único, na mesma com o método D´Hondt como acontece nas presidenciais ou nas europeias, o PAN teria eleito três deputados”, explica.

Não sabe ainda onde se vai sentar na Assembleia porque quer afastar-se da “categorização” de esquerda, centro e de direita: “É a velha política que divide e nós defendemos causas e valores que são transversais a todas as pessoas e a todos os movimentos políticos”, justifica. E, por isso, sabe apenas que quer estar à frente: “Só temos um deputado e gostaria de ter a maior visibilidade possível. Muitas das medidas que defendemos são entendidas por muitos portugueses como alternativas ou como uma ideologia alternativa. Mas elas estarão no centro do debate político daqui a um curto espaço de tempo e, portanto, queremos trazê-las já para a AR”. Por exemplo, atira, estender os Orçamentos Participativos (como os que existem nas Câmaras Municipais) a nível nacional: “Paulatinamente, claro, mas pode ajudar a aproximar as pessoas.”

Não sabe também se vai apresentar uma moção de rejeição ao programa do governo PSD/CDS, porque “ainda não conhece todo o programa” da coligação. Mas uma coisa é certa: “Estou motivado para os próximos tempos. Sei que me espera um volume de trabalho enorme, mas estou preparado.” Acrescenta: “O PAN toca em assuntos que mais ninguém toca e isso é positivo, é o que nos aproxima das pessoas. É uma nova forma de fazer política que traz mais pluralidade ao hemiciclo”, acredita o porta-voz.

A biodanza (prática de desenvolvimento pessoal através dos movimentos, da música e dos sentimentos positivos) é às quartas-feiras e há um mês que não consegue meter lá os pés. Na próxima, passada a campanha e as eleições que lhe deram um assento na bancada parlamentar, o deputado volta finalmente a dançar. E é também a esta prática que diz ir buscar algum do seu equilíbrio.