Tem acesso livre a todos os artigos do Observador por ser nosso assinante.

Desde o início do surto de ébola – cuja primeira notificação aconteceu em março de 2014 –, a semana de 7 de outubro foi a primeira em que não se registaram novos casos de infeção com o vírus – uma situação que se manteve na semana passada. Mas um relatório preliminar sobre a persistência do vírus, publicado pela revista científica New England Journal of Medicina, mostra que o ébola pode ficar “escondido” no sémen mais tempo do que inicialmente se previa, podendo provocar infeções semanas ou meses mais tarde, o que torna o controlo da doença mais difícil. Os investigadores encontraram homens que ao fim de nove meses do início da infeção ainda tinham vírus no sémen.

Em março de 2015, uma mulher na Libéria foi infetada com o vírus ébola e a única fonte de contágio possível seria o companheiro que sobreviveu à doença. O que os investigadores verificaram é que o homem mantinha no sémen o mesmo vírus que o tinha infetado 199 dias antes (mais de seis meses). Esta situação lançou o alerta na Organização Mundial de Saúde (OMS), surgiram novas medidas de prevenção, mas também a necessidade de investigar o caso.

Como precaução, a OMS recomenda atualmente que os homens que sobreviveram ao ébola, e respetivos parceiros, usem preservativos nos contactos sexuais, ou que não os tenham de todo, até que o sémen apresente duas vezes resultados negativos para o vírus. O teste deve ser realizado ao fim de três meses e se der positivo para o ébola, deve ser repetido todos os meses até que se alcancem resultados negativos. Se os testes derem negativos duas semanas seguidas, o homem é considerado livre do vírus.

Caso não realizem nenhum teste, os homens são aconselhados a manterem comportamentos de prevenção durante, pelo menos, seis meses. Isso inclui não só usar preservativo, como também garantir “boa higiene pessoal e das mãos, lavando-se imediatamente e minuciosamente com água e sabão depois de qualquer contacto físico com o sémen, incluindo depois da masturbação”. A utilização e descarte dos preservativos também deve assegurar que não há possibilidade de contaminação.

PUB • CONTINUE A LER A SEGUIR

O novo relatório, ainda que preliminar, mostra que seis meses podem não ser suficientes. Os investigadores encontraram sinais do vírus em 46 dos 93 sobreviventes liberianos (49%) incluídos no estudo: nove indivíduos (em nove) tiveram testes positivos para o ébola durantes os primeiros três meses após a infeção, 26 em 40 indivíduos (65%) tinham ébola no sémen ao fim de quatro a seis meses da infeção e 11 em 43 indivíduos (26%) ainda tinham a infeção no esperma ao fim de sete a nove meses depois do início da infeção.

O caso detetado em que houve uma permanência maior do vírus chegou aos 272 dias (nove meses), mas todos os indivíduos estudados tinham tido a infeção há menos de 10 meses. Os investigadores consideram assim que esta triagem dos sobreviventes pode ter provocado uma limitação do estudo e não descartam que alguns sobreviventes possam manter o vírus ativo no sémen depois dos nove meses. Outra ressalva feita pelos investigadores é que, apesar se terem encontrado o vírus no sémen, não foi estudado o potencial de transmissão duram os contactos sexuais.

Sabe-se que o vírus pode incubar durante dois a 21 dias antes da pessoa apresentar sinais da doença – febre, fadiga, dores musculares, e mais tarde vómitos, diarreia e hemorragias. Mas só depois dos primeiros sintomas se manifestarem é que um doente pode contaminar as pessoas que o rodeiam. Não pelo ar, mas pela troca de fluídos, como suor, saliva, urina, sangue ou fluidos seminais. E enquanto o vírus continuar no sangue, o doente pode continuar a transmiti-lo. Agora, os investigadores querem estudar a possibilidade de transmissão pelo sémen, mas também pelos fluídos vaginais.

O contacto com carne de caça contaminada pode ter sido a origem do primeiro contágio deste surto, mas um dos maiores problemas para a disseminação descontrolada foram os rituais fúnebres em que os familiares lavam o corpo do morto e que portanto contactam diretamente com os fluídos corporais contaminados. E como Jorge Atouguia, especialista em doenças infecciosas e medicina tropical, já tinha confirmado ao Observador, o vírus pode manter-se vivo pelo menos 24 horas depois de a pessoa morrer.

Como os enterros seguros estão mais ou menos garantidos, as relações sexuais podem agora apresentar um risco de contágio a longo prazo com que os profissionais de saúde ainda não estavam a contar. Mas o vírus também já foi encontrado nas lágrimas, no líquido amniótico ou no líquido que protege o cérebro no crânio, conforme lembrou El País. A enfermeira britânica, Pauline Cafferkey, que teve recentemente uma recaída (depois de ter recebido alta e janeiro) pode dever-se à reativação do vírus que se encontrava “adormecido” no corpo.