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“A maior barreira é entrar numa reunião que está cheia de homens e ver que há preconceito. Às vezes, temos de dar um murro na mesa.” É assim que acaba a mesa redonda sobre empreendedorismo no feminino do ICT 2015, maior evento da Europa sobre tecnologia organizado pela Comissão Europeia, esta quinta-feira. As palavras são de Ana Paula Reis, líder e fundadora da startup portuguesa Seldata. “Exemplos a seguir” e “falta de confiança” foram as expressões que mais se ouviram no auditório. 

Ana Paula Reis considera-se uma “pessoa com muita sorte” – pelas empresas onde trabalhou ou pela educação que teve em casa. Às mulheres e homens presentes num dos auditórios do Centro de Congressos, em Lisboa, conta que o pai nunca a tratou diferente do irmão por ser menina. “Jogávamos futebol, discutíamos notícias”, afirma. Porque é isso que Ana Paula Reis diz construir uma grande empresa, “a diversidade” – não só de géneros, mas de competências e de perspetivas.

Para Marie Kjær Hansen, fundadora da startup dinamarquesa Plan Penny e vencedora do prémio “WeHubs”, destinado a mulheres empreendedoras, é muito importante que as empresas possam mostrar “exemplos de diversidade”, porque, no final trata-se disso mesmo: de equipas mistas e de mulheres que têm oportunidade de conversarem com outras mulheres sobre os seus desafios.

Géraldine Quetin, consulta na InterInnov, empresa francesa especializada em parcerias de inovação e investigação entre entidades privadas e públicas, adianta que as mulheres precisam de outras mulheres que sejam “exemplos” para elas. “E não, não estou a falar de ‘Wonder Womans’ [em alusão à super-heroína Mulher-Maravilha]. Mas de mulheres reais”, acrescentou.

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Sherry Coutu, a empreendedora e investidora que é considerada por diversas publicações uma das pessoas mais influentes no mundo da tecnologia, concorda. “Estes ‘exemplos a seguir’ são muito importantes”, diz. E por isso sugere que as escolas primárias, do ensino secundário ou universidades identifiquem as empresas tecnológicas que estão perto delas e convidem mulheres deste meio a virem dar o exemplo, a darem o seu testemunho aos mais novos.

“É preciso levar estes exemplos para dentro das salas de aula. Mostrar às crianças que ’empreendedoras’ não são só aquelas que aparecem na televisão, mas aquelas que estão à nossa volta. Devemos deixar que as crianças percebam isso, que é brilhante mudar o mundo”, acrescenta.

Soraya Gadit, líder da startup portuguesa InoCrowd, conta que trabalhou durante 15 anos na indústria farmacêutica. Mas que um dia sentiu que tinha de encontrar “algo novo”. Mudou de carreira. Juntamente com outros dois sócios, Esta quinta-feira lembrou quão importante é desenvolver uma empresa assente em conceitos como “credibilidade e confiança” e ter pessoas com quem falar sobre os desafios do projeto.

Quanto ao acesso ao investimento – uma das questões levantadas pela audiência – Sherry Coutu considera que não se relacionado com o facto de o empreendedor se do género feminino ou masculino. “Se tiveres lançado uma empresa que está a resolver um grande problema, não terás problemas em aceder a financiamento. E acho que criar fundos específicos para mulheres seria controverso”, explica.

De acordo com os dados disponibilizados pela associação sem fins lucrativos Women In Tech, apenas 19% das empresas digitais criadas na Europa são fundadas por mulheres. Nos Estados Unidos, esta percentagem sobe para 33%.

O ICT 2015 foi organizado pela Comissão Europeia e pela Fundação para a Ciência e Tecnologia e decorreu pela primeira vez em Lisboa. Estiveram presentes cerca de sete mil pessoas.