Um dos lugares-comuns do jornalismo é dizer-se que uma notícia “caiu como uma bomba” quando se trata de falar dos sítios afetados pelas últimas novidades. Ora, a haver uma bomba a 26 de outubro de 2015, sobram poucas dúvidas de que foi a que deu conta de que o consumo diário de 50 gramas de carnes processadas aumenta o risco de cancro do colorretal em 18%. Como se não bastasse, 100 gramas de carnes vermelhas num dia aumentam esse risco em 17%.

A notícia veio num relatório de uma entidade da Organização Mundial da Saúde e pôs muita gente a olhar para o próprio prato. Mas o que dizer dos restaurantes da Rua dos Correeiros, em Lisboa, provavelmente um dos sítios do país com maior concentração de travessas de cozido à portuguesa por metro quadrado?

O que será agora feito do mais português dos pratos? Tira-se a morcela, a farinheira, o chouriço de carne e também o de sangue? E das carnes, noves fora, fica o quê? Estará o cozido à portuguesa destinado a ser um caldo deslavado, com um pouco de frango desfiado, cenouras cozidas e couves empapadas?

“O cozido à portuguesa nunca vai mudar”, diz António Touceda, gerente do restaurante João do Grão, um entre os vários que se situam nesta rua pedonal da baixa lisboeta. António di-lo com um ar estoico. No dia em que o mundo acordou sabendo que as carnes vermelhas e também as processadas podem não ser a melhor opção, o gerente do João do Grão fala sem pejo em favor do seu prato preferido: “Se eu tivesse de comer cozido o resto da minha vida não ficava nada mal servido, seria uma vida bem passada”.

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António Touceda, gerente do restaurante João do Grão, garante que vai continuar a comer cozido duas vezes por semana. MICHAEL M. MATIAS/OBSERVADOR

António come cozido tantas vezes quanto o seu restaurante o cozinha: duas por semana. Quinta-feira e domingo, como é regra na maior parte dos restaurantes da Rua dos Correeiros, este homem de cintura larga deleita-se perante um prato de enchidos e carnes várias, com algumas verduras a enfeitar. “Eu ouvi aí qualquer coisa das notícias, mas não liguei. Era o que faltava, ficarmos sem cozido…”

Gonçalo Estrela é empregado de mesa no restaurante do lado, a Cervejaria Moderna. Aqui, todos os dias são dias de cozido e este homem de 32 anos e sete de casa sabe vendê-lo a quem quer que passe. Ao todo fala oito línguas. Português na perfeição, como seria de esperar, e outras sete bem arranhadas: inglês, alemão, holandês, francês, italiano, russo e polaco. Se calhar um dos turistas que passam pela Rua dos Correeiros não falar nenhum destes idiomas, Gonçalo pergunta-lhes de onde são na mesma. Se não fala a língua conhecerá pelo menos um jogador de futebol daquela nacionalidade. “República Checa? Okay, Karel Poborski!”

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“Querem ver que agora ando aqui a vender cancros, é?”, disse Gonçalo Estrela perante a conclusão da OMS. MICHAEL M. MATIAS/OBSERVADOR

A menção do antigo número 7 do Benfica arranca alguns sorrisos a esta família de quatro, mas o que Gonçalo está cá a fazer é mesmo vender comida. Até para um poliglota descrever um cozido à portuguesa noutra língua que não português torna-se difícil. Afinal de contas, farinheira é farinheira, chouriço é chouriço, tal como acontece com o chouriço de sangue, e morcela não é outra coisa que não morcela. Ainda assim, o empregado esforça-se na descrição do cozido e os checos acabam por entrar. Vitória? Mais ou menos — quando se sentaram à mesa, nenhum dos quatro pediu o prato que a OMS agora põe em causa. Será por receio das notícias desta segunda-feira?

Será a gastronomia portuguesa cancerígena?

“Então mas agora o cozido já dá cancro? Isso é alta tanga, pá. Querem ver que agora ando aqui a vender cancros, é? Nós temos esta gastronomia incrível e agora vai-se a ver que é cancerígena…”, reage Gonçalo a quente. “O meu avô viveu até aos 80 e tal anos, comia cozido uma vez por semana e não foi por isso que morreu novo!”

Gonçalo parece estar em negação. Antes da hora de almoço, altura em que se dedica à necessária tarefa de angariação de clientes, leu o Correio da Manhã juntamente com os colegas. “Tudo bem que os jornais dizem isso, acho que é 18% mais provável ter um cancro se se comer chouriços e essas coisas”, diz, com os colegas a ouvi-lo à distância. “Os jornais dizem isso, pronto, mas também não podemos confiar em tudo o que escrevem, não é? Isso é como aquela história das pessoas que apanham cancro do pulmão sem nunca terem fumado um cigarro na vida. Como é que é, quem é que explica isso? Ah, pois…”

Umas portas abaixo na Rua dos Correeiros está António Ferreira, gerente da Cervejaria Lisboa Portugal. Faz questão de dizer que já leva “34 anos disto” e que, portanto, já assistiu a várias “histerias” em relação a alimentos. “Já foram as sardinhas, diziam que faziam muito mal, isto e aquilo, e depois passou a ser um peixe como deve ser. Vai daí e o preço triplicou. Depois foram as batatas, diziam que faziam mal a isto e aquilo e, de um momento para o outro, já era bom comer batatas. ‘As batatas são um tubérculo como deve ser’, diziam eles. Depois também houve aquilo das vacas loucas… Mas isso também passou, hoje já ninguém fica preocupada se for comer um bife!”

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António Ferreira lembra-se bem do tempo das vacas loucas. “Isso também passou, hoje já ninguém fica preocupada se for comer um bife!”. MICHAEL M. MATIAS/OBSERVADOR

A haver um problema, António acha que ele está no processo de produção agrícola — e aí as culpas são das “organizações”, onde inclui a OMS. “O que faz mal é o que as organizações permitem que se metam químicos e outras coisas nos animais. As galinhas foram feitas para meter ovos uma vez por dia. Então se ela estiver a dar ovos duas vezes ao dia é porque há ali qualquer coisa que foi mudada.” E, para António, isso tem tanto de contra-natura como de errado. “Isto é como tudo: se o meu amigo tivesse nascido com quatro braços e uma perna também ninguém o ia achar normal.”

Do prato ao poema, o que será feito do cozido?

Mas, afinal de contas, onde é que fica o cozido à portuguesa no meio disto tudo? O mais português dos pratos, típico das quintas-feiras nos restaurantes de Lisboa, servido com grão e pão no Alentejo, cozinhado debaixo da terra nos Açores? O prato que até Ary dos Santos, poeta da segunda metade do século XX português, serviu para o seu poema “Auto-retrato”, onde se lia “Cozido à portuguesa mais as carnes / suculentas de auto-importância / com toicinho e talento ambas partes / do meu caldo entornado na infância”?

A julgar pela Rua dos Correeiros ficará tudo na mesma. Se os jornalistas procuravam por notícias caídas que nem bombas, bem podem esperar sentados. Recapitulemos. “É tanga”, disse-nos, Gonçalo. “Era o que faltava, ficarmos sem cozido…”, disse-nos António do João do Grão. E o que diz António, da Cervejaria Lisboa Portugal?

“Isso para mim não tem validade nenhuma. Essas empresas e organizações vão para a televisão dizer essas coisas, vão todos com gravatinha e com sapatos engraxados, mas depois eles é que fazem o mal todo. Falam de coisas que não entendem.