A questão já tinha sido colocada em janeiro, logo depois dos ataques ao Charlie Hebdo e a um supermercado kosher nos arredores de Paris: deverá a França voltar a ter um serviço militar obrigatório?

A ideia volta agora a ser discutida, numa altura em que, tal como em janeiro, jovens de nacionalidade francesa renegam os valores da República e matam concidadãos seus. Foi assim com os três terroristas dos ataques de janeiro, tal como com pelo menos dois dos protagonistas do 13 de novembro. Há quem ache que o regresso de um serviço nacional obrigatório — com uma vertente militar, como o que foi abolido em 1996 pelo governo de Jacques Chirac — seria uma forma de aproximar a juventude dos valores da República, antes que seja demasiado tarde.

Surpreendentemente, o regresso de um serviço nacional obrigatório — com uma vertente militar — é uma ideia que reúne apoio em vários setores da política francesa. Da extrema-direita à extrema-esquerda. Ora veja-se:

Marine Le Pen, líder da Frente Nacional, de extrema-direita:

[Deve haver uma] formação militar para cidadãos, teórica e prática durante um mês (…). Durante os dois meses seguintes, os jovens serão destacados para uma guarda nacional, seja numa unidade regional, em organismos locais de segurança civil, os bombeiros ou segurança interior, como a polícia municipal ou nacional.”

Xavier Bertrand, antigo ministro de Sarkozy e deputado dos Republicanos:

“É importante que os jovens, de maneira obrigatória, saibam aquilo que devem à nação. Isto lembrá-los-á das regras, que são a autoridade e a nação francesa.”

Eric Ciotti, deputado dos Republicanos:

“É preciso restaurar a autoridade republicana, voltar a iluminar os caminhos dos jovens (…) Há parte da nossa juventude que não tem essas referências. É preciso que haja momentos e lugares onde os jovens se reapropriem dos valores da República e o serviço nacional pode ser esse momento.”

Jean-Luc Mélenchon, do Parti de Gauche, de extrema-esquerda:

“[Sugiro que] devemos restabelecer um recenseamento [obrigatório] para setores de interesse nacional, em particular para tarefas como a segurança interior (…). Antes éramos mobilizados para irmos para o exército. [Agora] eu não serei contra se mobilizarmos pessoas para irem para uma guarda nacional que terá tarefas desta natureza.”

Depois dos atentados de sexta-feira, a revista esquerdista Marianne fala da necessidade da criação de “um momento de reencontro entre a nação e a sua juventude”. Algo que, segundo os autores do artigo, não pode ser feito com o Dia de Defesa e Cidadania (semelhante ao português Dia de Defesa Nacional). “Quem pode achar seriamente que, das 8h30 às 17h, entre um teste de francês e uma iniciação de primeiro-socorros, os ensinamentos sobre o civismo e os fundamentos da República têm a mínima hipótese de serem registados de forma duradoura num cérebro de 18 anos?”, escreve a mesma revista.

Em França já existe o serviço cívico desde 2010, destinado a jovens entre os 16 e os 25 anos. Este serviço, porém, não é militar, mas antes destinado a várias áreas, entre elas a saúde, a educação, cultura ou o ambiente. Tem uma duração de 6 a 12 meses, não é obrigatório e os participantes recebem entre 573 e 680 euros por mês.

Em janeiro, o Partido Socialista, no governo, anunciou que estava a preparar legislação no sentido de reformar o serviço cívico. “É preciso encontrar momentos de reunião destes jovens com o serviço nacional republicano para demonstrar que há um compromisso perante a nação”, disse à altura o porta-voz dos socialistas. No entanto, a lei continua por alterar.

“Teoricamente positivo” mas difícil, diz especialista

Ao Observador, Michael Lambert, investigador do IRSEM, um think-tank de apoio técnico ao ministério da Defesa, explica que “os argumentos a favor do regresso do serviço militar obrigatório podem fazer sentido mas depois quando são colocados em prática a questão torna-se mais complicada”.

“A ideia de juntar pessoas que de outras forma nunca estariam juntas, ainda para mais em condições completamente novas, pode ser algo teoricamente positivo”, avança o especialista, para depois contrapôr: “Mas quando se juntam pessoas diferentes num ambiente fechado, quase de reclusão, é provável que haja confrontos e que as mesmas divisões que existem no mundo civil sejam ali replicadas, talvez até de forma mais acesa”.

Para além disso, o especialista argumenta que a permanência intensiva e extensiva de jovens nestes centros militares — ou até civis — não é à prova de bala contra o risco de radicalização dos mesmos. “O problema não é quando estes jovens têm 18 anos. É verdade que é aí que se começam a formar muitas noções, mas o maior problema é mais tarde, quando chegam aos 25, 26, 27 anos.” É por volta dessa idade que alguns jovens de minorias étnicas se radicalizam. “Não conseguem viver de forma digna e independente, não têm trabalho, não têm estudos, não têm perspectivas”, aventa Lambert.

“Por mais valores que um novo serviço militar lhes tentasse inculcar, a verdade é que isso não vai mudar a economia e o facto de estes jovens não terem perspectivas de um futuro minimamente bom”, diz.

Daí até à radicalização pode, nalguns casos, ser um percurso muito curto. E, argumenta o especialista, a aprendizagem de técnicas militares pode levar à repetição de novos cenários trágicos: “Se eles aprendem como usar armas aos 18 e depois de radicalizam anos depois, podem muito bem vir a usar esses skills da pior maneira”.