Arte

O que há de comum entre as luzes de Paris e as bonecas do Minho?

O pintor Eduardo Viana inspirou-se na técnica da amiga Sonia Delaunay e criou um quadro a partir do artesanato português. Há bonecas disfarçadas e pistas para o cubismo. Pode ser visto na Gulbenkian.

No ano em que Portugal entra na I Guerra Mundial, Eduardo Viana, então com 35 anos, assina a pintura mais vanguardista de quantas produziu: “A Revolta das Bonecas”.

Estamos em 1916. Com esta composição, Viana encontra o “momento de modernidade e vanguarda mais pronunciado da sua obra”, ele que “não foi um pintor de rasgos vanguardistas”, como explica a historiadora de arte Ana Vasconcelos, curadora da exposição em que agora podemos ver o quadro.

Intitulada O Círculo Delaunay, a exposição abriu há dias no Museu de Arte Contemporânea da Gulbenkian, em Lisboa, e pode ser vista até 22 de fevereiro do próximo ano.

Não é uma mostra sobre Eduardo Viana, antes sobre os seus dois amigos Sonia e Robert Delaunay, artistas plásticos a quem foi buscar inspiração. Conheceram-se na capital francesa, onde Viana viveu entre 1905 e 1914.

Além de obras do casal, “O Círculo Delaunay” inclui trabalhos de Eduardo Viana, Almada Negreiros e Amadeo de Souza-Cardoso. Os nossos modernistas.

Em concreto, “A Revolta das Bonecas” colhe sugestões de “Prismas Elétricos”, que Sonia Delaunay pintara cerca de três anos antes e que tinha a iluminação pública de Paris como motivo principal.

Apresentada ao público pela primeira em abril de 1968, numa retrospetiva organizada no Palácio Foz, em Lisboa, esta pintura a óleo de Eduardo Viana é uma dissertação de cores e de formas geométricas em que figuras do artesanato português – duas bonecas – tomam o centro de um mundo imaginário e em movimento.

A tela faz hoje parte do acervo do Museu do Chiado, tendo sido doada em 1957 pela pintora Mily Possoz. Sofreu um restauro há 14 anos e essa versão que agora está na Gulbenkian.

1. Bonecas do Minho disfarçadas

Criada na fase em que vivia em Vila do Conde (1915-17), a tela de Viana (nascido em Lisboa) aplica aquilo a que o historiador José-Augusto França chamou “uso coisificado da abstração”, isto é, uma tentativa de ser abstrato sem conseguir fugir à coisa concreta. Foi o quadro “mais difícil” que Viana fez até então, dirá o artista numa carta. Vejamos as bonecas, que se encontram no centro. Parecem ter sido pintadas para não parecerem bonecas, mas parecem. São bonecas minhotas. Quando se olha para os pés consegue-se acompanhar melhor as figuras. A boneca da direita tem o braço levantado, como que a dançar o vira do Minho. Não se sabe se a “revolta” do título sugere revolução ou algo revolto, mexido. Sabe-se que “o artesanato e a produção popular são valorizados pelos modernistas”, nota Ana Vasconcelos. “Eles estão contra o passado, contra a grande pintura histórica do século XIX, este tipo de objetos dá-lhes um novo motivo pictórico e abre novas maneiras de representar”.

2. Quase cubista

Descrito no catálogo da Direção-Geral do Património como um quadro de “formas circulares e prismas triangulares e retangulares em contrastes simultâneos de cor”, “A Revolta das Bonecas” tem um lado cubista subjacente. No canto inferior esquerdo, aparecem mesmo cubos. Talvez sejam pessoas a observar as bonecas, ainda que a presença de figuras humanas não seja uma interpretação consensual. Para Eduardo Viana, e para o casal Delaunay, a pintura deveria ser independente de escolas e apanhar dos vários movimentos apenas o que interessasse. Daí que o cubismo, aqui, assome apenas.

3. Frutos ou quase tudo o que se quiser

A forma que nos surge na parte inferior esquerda, estriada ou fatida, parece ser uma abóbora. Ou uma melancia. “Ao brincar com a justaposição de cores complementares, ao juntar os frutos e as formas circulares, o pintor cria a sensação de movimento”, interpreta a curadora da exposição na Gulbenkian. Mas será que podemos começar à procura dos significados e objetos que quisermos? “Dentro de um espectro aceitável, qualquer interpretação pode ter lugar”, responde Ana Vasconcelos. “Esta pintura foi feita a pensar nisso, interpela a nossa capacidade de observação e compreensão”, acrescenta.

4. As árvores e a dimensão escondida

“Este quadro sugere-me os ‘Prismas Elétricos’, que Sonia Delaunay pinta em fins de 1913, antes da Guerra”, analisa Ana Vasconcelos. “Ela pinta a partir das luzes elétricas que são instaladas em Paris, no Boulevard Saint-Michel, logo, o quadro de Viana tem essa componente, essa sugestão.” Mas há mais. Os dois círculos que vemos na zona mais à direita, em tons de azul e verde, interpretados como duas árvores estilizadas, são uma clara versão do “disco simultaneísta ou órfico” de que Sonia e Robert Delaunay eram cultores. O “disco órfico”, explica Ana Vasconcelos, não é nenhuma teoria mística, tem que ver com a forma como a cor e as formas são usadas na pintura. “O casal Delaunay quer demarcar-se do cubismo, aspira à simultaneidade da nossa apreensão da tela, através da cor e da luz eles aspiraram a representar a vida nas suas múltiplas facetas, a tela torna-se o local onde as coisas acontecem por si, a pintura não tem de ser naturalista e retratar o que está fora dela. O ‘disco órfico’ é quase como a quarta dimensão dos cubistas: o olhar apreende o que não se vê e procura uma dimensão escondida.”

Título: “A Revolta das Bonecas”
Autor: Eduardo Viana (1881-1967)
Data: 1916
Técnica: Óleo sobre tela
Dimensões (cm): 114×132
Coleção: MNAC – Museu Nacional de Arte Contemporânea do Chiado, Lisboa

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