A Praça Rossio, em Lisboa, é tremenda de larga. A Rua da Betesga, uns passos logo abaixo, é tremendamente estreita. Serve-me a velhinha expressão de meter o Rossio na Betesga para falar-lhe do Sporting-Belenenses, esta noite no estádio José Alvalade.

O Sporting tinha uma verdadeira horda de camisolas verde-e-brancas no meio-campo. E como trocavam tão bem a bola aquelas camisolas todas. Destaque-se a camisola “17”, a de João Mário, que quer mais à direita num losango, quer mais ao centro quando do miolo se subtraiu um (Adrien foi substituído com a segunda parte ainda a meio), acertou passes e mais passes, recuperou bolas atrás de bolas, pressionou alto forçando a falha aos adversários, nunca se escondeu do jogo (quando a coisa não está fácil, quando está realmente feia, há dois tipos de futebolistas: os que assumem o jogo e os que se refugiam dele; João Mário é da primeira estirpe, a melhor das duas) e nele havia sempre uma desmarcação ali há mão de semear.

Mas a maralha de camisolas azuis era mais do que muita. Juntinha, juntinha. Se recuasse mais, tombava no fosso. Onde o Sporting procurava pôr a bola, não punha — estava lá um belenense a cortá-la. O Belenenses não se deslocou do Restelo a Alvalade para atacar. Chegou para contra-atacar. Chegava-lhe isso. Luís Leal, Kuka e Sturgeon (ligeiramente mais recuado que os restantes dois) só esperavam uma oportunidade, só uma!, para se lançarem pelo relvado acima numa correria doida. O problema é que de tanto que o Belenenses defendia (às vezes só deixava o desamparado do Luís Leal sozinho no frente), não havia ninguém livre para lançar o contra-ataque. E quando havia, fazia-o às três pancadas e o Sporting recuperava a bola sem sobressalto. Foi assim o jogo todo. Todinho.

O Belenenses fez zero remates à baliza de Rui Patrício. Nem um, nem dois ou três: zero. O Sporting não fez muito, muito melhor. Não. Só quatro remates é que foram na direção da baliza de Ventura. Chutou mais 14 vezes, só que meio a trouxe-mouxe. Mas lá que chutou, chutou.

O Sporting foi sempre um Rossio de verde-e-branco, apinhado, a querer meter-se numa betesga em tons de azul, mais apinhada ainda. A afunilar jogo como o Sporting afunilava, não se meteria ali coisa nenhuma (quanto mais um Rossio, quanto mais um golo). Nem hoje nem nunca. Não por aquela defesa atravancada do Belenenses adentro — Jorge Jesus tardou a percebê-lo, mas percebeu. Ou se desenrascava num atalho ou ficaria lá uma semana a tentar e não faria um só golo. Adiante.

Na primeira parte, contaram-se dois remates perigosos, todos do Sporting, sendo que um é daqueles que só não dão golo porque os Deuses do futebol (¿Eres tu, Maradona?) estão zangados — ou porque há um guarda-redes como Ventura que está numa noite “sim”. Ruiz não é veloz. Nem quando tinha menos cinco ou seis anos (nos idos do Twente, na Holanda) Ruiz era veloz. Mas tem uma canhota capaz de malabarismos e ziguezagues como poucas o são. Foi deixando adversários para trás, um por um, desde o meio-campo à defesa. Na área, põe a redondinha entre o lateral e o central, vai buscá-la lá à frente e chuta logo dali, um tiraço que Ventura só tem tempo de desviar com a pontinha das luvas. Mas desviou e foi-se para o intervalo com um Sporting dominador do minuto um ao 45, mas sem conseguir desbravar por entre tanta camisola azul — azul e suada; os belenenses suaram as estupinhas atrás da bola, de marcação em marcação, de dobra em dobra.

No recomeço, o Sporting ainda veio mais dominador que no início, Montero recebeu um passe de Jonathan Silva dificílimo de dominar, mas dominou-o com a peitaça, nas costas do central Gonçalo Brandão (aprende-se nas escolinhas: o defesa-central nunca não dá as costas ao avançado; dá-lhe a frente, faz a marcação em cima, respira no cocuruto do avançado e antecipa-se a ele), e chutou de primeira. O remate ia mesmo, mesmo para o canto da baliza de Ventura, lá naquele cantinho onde a coruja se aninha, e o guarda-redes só se limitou a segui-lo com os olhos. O remate acabou por sair ao lado. A bem de Ventura… e da coruja.

Mais o Sporting dominasse, mais o Belenenses recuaria. A defender, defendeu sempre bem — e aí não há mal de que acusá-los. Mas quem começa a gastar minutos nas reposições de bola (o guarda-redes Ventura viu amarelo aos 60′ por fazê-lo ostensivamente e nas barbas do árbitro Artur Soares Dias) mal o jogo recomeça, sabe ao que vai no jogo e vai ao pontinho da ordem. É pouco. Mas talvez por ter jogado olhos nos olhos com o Benfica e o FC Porto é que Sá Pinto foi goleado na Luz (6-0) e no Dragão (4-0). Hoje deixou-se de romantismo e foi pragmático. Um ponto é melhor do que nenhum — e se os três caíssem do céu, que é como quem diz, de um contra-ataque, melhor seria.

O jogo mudou aos 57′. E depois aos 66′. E novamente aos 79′. Primeiro, Jorge Jesus, que no banco não sossegou (como nunca sossega, afinal) um minuto que fosse, esbracejava muito, assobiava mais, mostrava-se irado que só visto, lá percebeu que de nada lhe valia ter tanta gente no meio do meio-campo. Havia bola de sobra (o Sporting terminou o jogo com mais de 80% de posse da redondinha), mas não havia como verticalizar essa bola na direção em que é suposto verticalizá-la: a da baliza. Então pôs Gelson Martins em campo. Foi a primeira de três substituições — substituições essas que alterariam o placard no final.

Aos 66′ foi a vez de Matheus Pereira entrar na vez de Montero. Porquê? É que “JJ” percebeu que de nada lhe valia ter dois avançados-centro (o colombiano e Slimani) se a bola não lhes chegasse aos pés. Ou à cabeça — ou lá onde fosse que eles conseguissem desviar para golo. Gelson e Matheus — dito assim, soa a dupla sertaneja –, ainda com o Belenenses de candeias às avessas nas marcações, foram uns quebra-cabeças, com o português a vergar Filipe Ferreira pela esquerda, uma e outra vez, e o garotinho brasileiro a “entortar” João Amorim no lado oposto e a chutar quando havia espaço para chutar. Chutou uma mão-cheia de vezes.

O Belenenses, a pouco e pouco, lá foi metendo um médio (André Sousa na esquerda e Ricardo Dias na direita) a apoiar os laterais. E foi aí que Jesus, aos 79′, fez Tanaka entrar. Se a lateral do Belenenses foi reforçada, alguma nesga havia de vazar no meio. E vazou. Tanto vazou que Tanaka teve vezes e vezes sem conta a bola no pé, sem ninguém em redor, e ia cruzando (lá nisso ele é bom; nisso e nos livres) para Slimani. Quem o viu ao pulinhos para entrar, quem viu Ruiz sair, logo pensou que o japonês ia lá para a frente, para o chuveirinho de cruzamentos. Mas não. Jesus viu nele mais um cruzador do que um “pinheiro”.

Quatro minutos. Nem mais um. Artur Soares Dias deu quatro minutos de compensação no jogo. O Belenenses, mais preocupado em marcar Gelson e Matheus nas alas e Tanaka no meio, deu espaço de sobra para que Slimani recebesse um passe de João Mário na área. Era só o argelino e Tonel. Se Islam Slimani dominasse, virar-se-ia sozinho para a baliza e era o que Deus (ou Alá) quisesse. Se Tonel cortasse a bola, o jogo terminaria logo ali. Já corria o minuto 93 e mais uns pozinhos. Tonel intimidou-se, quis saltar mais alto do que as suas pernas de trintão lhe permitem, e saltou com o braço no ar, em cima de Slimani, dando uma mãozinha à gravidade do argelino.

O que foi de gravidade foi a mãozinha que deu na bola também. O penalti é claro e às claras. William, que não marcava desde março, contra o Penafiel, foi a escolha improvável de Jesus — Slimani, Adrien (que tinha saído no entretanto) ou Tanaka (o japonês também só joga quando o rei faz anos, é verdade) são os habituais marcadores de penaltis. E sabem da metafisica do penalti. Mas o mister queria que fosse o “Sir” William a marcar. Deitou o polegar e o indicador aos lábios, assobiou, priiiiiiiiii!, e disse que era William ou ninguém. E quem manda é ele. Golo. Bola para um lado, Ventura para outro.

Isto de vencer com “estrelinha”, como amanhã se vai dizer que o Sporting venceu, tem muito que se lhe diga. Não é só meter jogadores lá para dentro de enfiada, como se o Rossio coubesse na Betesca. Não é metê-los à molhada a ver se a Betesga cede. É ir abrindo caminho. Calmamente. Até que a Betesga ceda. A Betesga até podia não ter cedido — e Tonel foi anjinho quando pulou com Slimani, sim. Mas a ceder, dê-se o mérito a quem a fez ceder. É que meter o Rossio na Betesga não é façanha que se veja todos os dias. E Jorge Jesus meteu-o mesmo — sem que a Betesga (que é como quem diz, o Belenenses de Ricardo Sá Pinto) tivesse sequer dado por isso.