Os portugueses habituaram-se a ver Rosa Lobato de Faria na televisão, mas foi na escrita (tardia) que a atriz foi mais prolífica. Poeta, romancista e dramaturga, publicou em vida mais de 20 títulos, que incluem contos infanto-juvenis, crónicas e até romances. Após a sua morte, em fevereiro de 2010, o seu espólio foi organizado e doado na totalidade à Sociedade Portuguesa de Autores (SPA). Entre os vários papéis, que incluíam as versões originais dos livros publicados e cerca de 50 mil canções, ficaram vários textos inéditos — poemas, prosas e até peças de teatro.

Dois anos depois, deu-se a publicação do primeiro livro de inéditos, A Noite Inteira Já não Chega. Poesia 1983-2010, que reúne a poesia completa da autora, que era “a coisa mais importante para ela”. Por editar, ficaram apenas alguns textos soltos, que foram agora reunidos em Pedra Rara. Dispersos e inéditos, uma publicação da Parténon Edições com edição e organização de Vasco Rosa, colaborador regular do Observador.

Para o editor, Pedra Rara é “o fechar de um ciclo em relação ao espólio” da atriz. Era o livro que faltava. “Alguns anos depois da sua morte, queríamos que se fechasse o ciclo de trabalho. A família foi especialmente exemplar neste assunto. Não conheço nenhum caso como este, em que os herdeiros tenham sido tão zelosos e preocupados em dar a conhecer o que ela fez e o que ainda não é conhecido”, salientou o editor.

RLF a declamar

Rosa Lobato de Faria a declamar. A poesia era uma das grandes paixões da atriz

Apesar da qualidade da sua escrita e do esforço de divulgação levado a cabo pela família da autora, Rosa Lobato de Faria permanece, em grande medida, desconhecida. “Nunca recebeu muito reconhecimento como escritora”, admitiu Vasco Rosa. “Como achavam que ela era uma atriz de televisão, de novela, nunca foi reconhecida enquanto uma pessoa da literatura.” Com o novo livro, porém, o editor espera renovar “a presença literária e editorial de Rosa Lobato de Faria” e sublinhar “a sua capacidade de escrever em diferentes registos e géneros literários”.

“Tentei organizar o livro de modo a mostrar não só o talento dela, mas também para ajudar a compreender uma coisa importante em relação a ela — o respeito e atenção que tinha em relação aos grandes autores portugueses, como Pessoa, Camões e Gil Vicente. Ela tentou estar sempre atenta a isso”, explicou o editor.

Um dos textos que fazem parte do livro, “Dias de Alma como Hoje”, trata-se de uma colagem de textos de Fernando Pessoa, feita em colaboração com María Dolores Cortés. Trata-se de um espetáculo “muito original”, salientou o editor. “E foi feito numa altura em que não havia esta febre pessoana.” Em “Alma minha gentil”, Rosa Lobato de Faria recordou “o tema dos amores de Camões”. E, no capítulo “Gil Vicente, Camões, Pessoa”, Vasco Rosa incluiu a peça “Auto do forno de Brites”, inspirada pelos autos de Gil Vicente e dedicada à Padeira de Aljubarrota, e duas adaptações para os mais novos do famoso dramaturgo português — o Auto da Índia e o Auto da Barca do Inferno.

“A atenção que ela dava aos mais jovens”, levou-a também a escrever várias críticas a livros de “amigos muito mais novos do que ela” e a escrever a peça Sete anos. Penas de um casamento, dedicada aos amigos Fernando Luís e Rita Blanco. Apesar de os nomes dos dois atores constarem do texto original, Vasco Rosa optou por os excluir, de modo a “tornar a peça mais universal”. O livro inclui ainda várias crónicas e dois textos em prosa, “Pedra Rara”, que dá nome à publicação, e “Vem o senhor”.