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A digestão da saída de Paulo Portas ainda não está feita mas entre os centristas todos sabem que é preciso pensar nos novos desafios. O primeiro e mais premente é o da sucessão e, para já, a única coisa que parece certa é que a corrida será renhida. No momento do anúncio, Portas pediu aos dirigentes e militantes que não tivessem “medo” e apelou ao desejável consenso para que não houvesse lutas fratricidas no partido, mas ao Observador, dirigentes como Pires de Lima e Adolfo Mesquita Nunes defendem as vantagens do debate interno e da proliferação de candidaturas. Assunção Cristas e Nuno Melo partem em vantagem, e a hipótese de um defrontar o outro é uma forte possibilidade, apurou o Observador.

Os nomes que pairam são óbvios, todos os conhecem: Assunção Cristas, Nuno Melo, Luís Pedro Mota Soares, João Almeida. Mas em fase de rescaldo poucos ousam pronunciá-los, muito menos os próprios. Preferem chamar-lhes “nova geração de talentos”, mas todos sabem que a passagem do testemunho será decidida entre as três promessas masculinas mais próximas de Paulo Portas e a estrela feminina em ascensão que está longe de ser a preferida entre os alinhados do núcleo duro. Cristas entrou no CDS pela mão de Portas mas os dirigentes mais antigos não veem com bons olhos a sua rápida subida.

No campeonato das redes sociais, a ex-ministra da Agricultura e o eurodeputado são os que lideram, com as suas páginas a encherem-se de comentários de apoio e incentivo para avançar. E o Observador sabe que durante esta terça-feira Cristas recebeu várias mensagens de apoio, incluindo de empresários.

Certo é que suceder ao líder mais antigo e carismático do CDS não será tarefa fácil e é preciso tratar do processo com pinças. Depois de fazer o anúncio, na reunião de ontem à noite da comissão política, Portas pediu aos centristas que não tivessem medo e que confiassem na qualidade dos quadros do partido, mas antes, fora dos microfones, já tinha pedido que o processo de transição não servisse para dividir o partido, mas sim para conciliar. Há, no entanto, quem veja o processo de diálogo e de debate que se vai iniciar no Largo do Caldas como um bom sinal de afirmação do partido. E quem deseje mesmo uma eleição concorrida.

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Ao Observador, o ex-ministro da Economia António Pires de Lima defendeu que deve haver tantos mais candidatos quanto os que quiserem avançar e que espera que a eleição do novo presidente seja “concorrida”, “aberta” e “franca”. Sem riscos de divisões internas porque só assim, na base da abertura e do diálogo, o CDS conseguirá afirmar-se como “um partido livre, atrativo e capaz de reposicionar-se como alternativa à esquerda radical”, disse. Mostrando-se confiante nos “talentos” que enchem as fileiras do partido, o ex-governante lembra ainda outro dado que irá garantir que a sucessão se faça de forma tranquila: Paulo Portas não estará na sombra, isto é, não estará no seu lugar de deputado e isso permitirá ao próximo líder vir a afirmar-se “com espaço e com tempo”.

“Quem decide as lideranças do CDS são os seus militantes. Não são os seus politburos. Não há herdeiros legítimos nem há uma qualquer short list deixada pelas lideranças cessantes. Terá que haver candidato, com vontade, projeto e equipa”, defendeu o deputado Filipe Lobo d’Ávila no Facebook.

Adolfo Mesquita Nunes também admite a possibilidade de vir a existir mais do que uma candidatura na ala portista, e que tal não implica que o “partido se divida”. “É bom para o debate”, diz ao Observador o ex-secretário de Estado do Turismo. Já o deputado Manuel Isaac, eleito pelo círculo de Leiria, não esconde ao Observador que a sua preferência vai para Cristas – que “há muita gente com vontade que ela avance”. Mas, com o conselho de Portas bem presente no ouvido, Manuel Isaac afirma que o desejável seria que houvesse “entendimento” entre o núcleo duro para que dali saísse apenas um candidato.

“Espero que o CDS não responda a este desafio perdendo-se em crises de identidade e em concursos ideológicos que dizem pouco às pessoas”, acrescenta Adolfo Mesquita Nunes ao Observador, defendendo que o partido se deve centrar na apresentação de propostas concretas como forma de fazer valer a sua “ideologia”, independentemente de quem venha a ser o líder.

João Almeida quebra tabu: avança apenas com moção de estratégia

Era um dos nomes incluídos na hipotética short list para suceder a Portas, mas João Almeida não aguentou o tabu por muito tempo. E, falando “no tempo certo” e pela “sua voz”, publicou esta terça-feira no Facebook uma nota onde deita por terra as “especulações” sobre a sua candidatura. Não avança – “estou certo de que para isso há pessoas com vontade de concorrer e indiscutível capacidade para exercer o cargo” – mas irá apresentar uma moção de estratégia para redesenhar as opções políticas do partido e “fazer diferente”.

“O Congresso do CDS terá que refletir e tomar decisões sobre a sua organização, estratégia e programa político. É neste segundo plano que me encontro empenhado e para o qual estou disponível (…) Proponho-me assim reunir essas ideias numa nova Moção de Estratégia Global. Num momento em que o CDS saiu de uma coligação de 4 anos e em que teve a mesma liderança em 16 dos últimos 18 anos, vai ser preciso fazer em 2016 o que Paulo Portas fez em 1997: abrir um novo caminho e fazer diferente”, escreveu.

Dia 8 de janeiro há Conselho Nacional para marcar o Congresso, que será entre março e abril, por isso ainda há tempo para alinhar posições e contar espingardas. Para já ninguém rejeita que um dos “homens” de Portas possa vir a defrontar Assunção Cristas, numa disputa que terá certamente outras figuras da ala crítica portista (como Filipe Anacoreta Correia) ou até outros nomes da segunda linha do partido.