Passou uma vida de miúdo a ouvir o mesmo. Os treinadores variavam, a cassete era a mesma: “Tabela com o James”, “Vejam como o James levanta a cabeça”, “Rematem assim, como o James”. Cresceu a usar a canhota no toma-lá-dá-cá com a bola, como gosta e ainda hoje usa, para ser exemplo involuntário para quem não jogava tão bem quanto ele — o que era quase toda a gente em Banfield, na Argentina. O menino adorava jogar, amava sentir-se importante, o centro de tudo, aperceber-se que tinha nos pés o par de botas que mais podia resolver coisas na equipa. Não lhe podia era acontecer uma coisa: “Se se dá por vencido, perderá tudo”. Juan Carlos Retrespo conhecia-o bem.

Não era bruxo, era o padrasto. Ou o pai que James Rodríguez não teve porque fugiu quando o colombiano era um bebé. Ou alguém que viveu a carreira do craque com cara de menino como se fosse a dele. “O teu sonho foi o meu sonho. A tua ilusão foi a minha ilusão. Agora tens de travar a guerra sozinho. Tens que fazer o dobro do que fizeste até aqui”, disse-lhe, em 2010, quando o viu entrar num avião para só desembarcar na Europa. O colombiano armado com uma zurda de ouro honrou as palavras no Porto e no Mónaco. Assumiu, colou a bola ao pé, marcou golos. Foi feliz. A felicidade que dava às equipas em que jogava tem um preço e o Real Madrid pagou 85 milhões de euros para a ter, em 2013. Já a teve, mas, esta época, não a tem tido.

A cabeça de James mostrou-o no último domingo. Quanto menor é a felicidade, maior costuma ser o peso e, saído do banco, o colombiano estava cabisbaixo. Olhos colados à relva, como se um íman lhe puxasse a cabeça para os pés. Nunca olhou para Zinedine Zidane, a lenda careca que, há semanas, passou a ser treinador do Real Madrid. O francês teve que se baixar para conseguir falar com James. “A jugar!”, foi a última coisa que lhe disse. Mas o colombiano nem lhe fitou os olhos por um segundo. Além de infeliz, tinha ar de envergonhado. Tímido pelo episódio ao qual, minutos antes, se auto-submetera — desde que Zidane o mandou a ele e a Jesé irem aquecer os músculos, a segundos do intervalo, quando Gareth Bale se lesionou.

Ambos ficaram no relvado durante o descanso, a obedecerem, enfiados no suspense de não saberem quem seria o escolhido para ir a jogo. Seria Jesé. E mal James soube, desatou a correr para o banco de suplentes e lá sentado estava quando o jogo recomeçou. Zidane só reparou quando, já na segunda parte, olhou para o canto onde os jogares aquecem e não viu o colombiano. Olhou para trás e, espantado, apontou-lhe o dedo, seguido de um gesto de incredulidade, e disse: “O que estás aí a fazer? Vai aquecer”. A falta de vontade parecia tramar James Rodríguez, que ainda assim jogaria 30 minutos, embora com o mesmo cabisbaixo com que se aproximaria de Zidane.

O colombiano não era o mesmo menino bonito. O bem-disposto, sempre a mostrar os dentes do sorriso, esforçado como uma máquina que não abranda, que fora a temporada passada. E para se tentar adivinhar porquê é preciso rebobinar a cassete.

Porque a temporada não tem sido simpática para James e a culpa nem sempre foi dele. Não teve uma pré-época como deve ser devido ao segundo verão seguido que passou com a seleção colombiana. Jogou a Copa América, o Real Madrid deu-lhe férias quando a equipa já trabalhava e o canhoto chegou tarde aos trabalhos que Rafa Benítez comandava. É suplente no primeiro jogo da liga e titular no segundo, antes de se tornar azarado. Em setembro vai jogar pela seleção e regressa com uma ruptura muscular que lhe rouba a bola do pé esquerdo durante dois meses. Volta no início de novembro, mas joga parcos minutos, dá pouco nas vistas e só é titular a meio de dezembro.

<> at Estadio Ramon Sanchez Pizjuan on November 8, 2015 in Seville, Spain.

Foto: Denis Doyle/Getty Images

Rafa Benítez, o técnico com brigas no balneário e assobios vindos das bancadas, não o vê a esforçar-se o suficiente. Nota-lhe um quilo ou outro a mais, exige-lhe mais trabalho nos treinos. “É um futebolista que esteve 55 dias lesionado. É um excelente jogador, e quanto melhor se treinar mais perto ficará do James de quem todos gostamos e queremos ver jogar”, chegou a dizer. Mas o treinador desgosta ainda mais da atitude do colombiano quando, antes da partida contra o Sevilha — a do suposto regresso de James após a lesão –, o jogador diz aos jornalistas que já está “pronto para jogar há duas semanas”. Deixa-o no banco.

Florentino Pérez não gosta de ver isto. Mas não discorda do colombiano, mas do treinador, que não põe a jogar James nem Isco. Benítez esconde no banco os médios com mais ideias nos pés e o presidente chateia-se, mais ainda quando não dá minutos a James em Valência, onde um empate (2-2) o empurra para fora do clube. E mais outra coisa, porque o El País escreve que a direção merengue se reúne nessa mesma noite e um dos assuntos ninguém digeriu bem, para os males de Rafa Benítez, terá sido o facto de o treinador, uma vez mais, não colocar James Rodríguez em campo.

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Entra em cena Zinedine Zinedine. Na primeira conferência de imprensa em que fala guarda palavras bonitas para o colombiano: “James e Isco são muito bons, há que dar-lhes carinho e confiança”. O francês teve mais para dar ao espanhol, que é titular nos dois primeiros encontros com Zizou a mandar no banco. James Rodríguez joga em ambos, mas pouco, tão pouco como os 772 minutos que leva contados esta época — 30% do tempo que o Real Madrid já esteve em campo. Os três golos e as seis assistência estão bem longe das 17 bolas rematadas para dentro da baliza e os 13 passes decisivos que somou em 2014/15. Não é o mesmo.

Fora do relvado, tão pouco. Logo no primeiro dia de 2016, o colombiano chega a Valdebebas, centro de treino do Real, com carros da polícia a persegui-lo. Fica sem carta de condução por acelerar quando vê as as luzes e ouve as sirenes dos veículos que o mandam encostar o Audi R8, por excesso de velocidade. Diz que se assustou, que achou tratar-se de um assalto. Pediu desculpa, mas a polémica estava lançada. E não têm ajudado as vezes em que a imprensa espanhola escreve que James tem saído muitas vezes de casa para entrar em discotecas de Madrid. Ou que pessoas que trabalhem no Real digam aos jornalistas que James copiou o chip com que Isco começou a época: a preferir a diversão com bola, o jogo pelo jogo, do que o trabalho nos treinos para conseguir jogar ao fim de semana.

Este domingo é o Real que volta a entrar em campo (19h30), no do Bétis, em Sevilha, com ou sem James Rodríguez. E o problema para o colombiano é que já não é assim tão estranho vê-lo a ficar sentado no banco. “Se se dá por vencido, perderá tudo”, já dizia o padrasto. Ou pelo menos mudará, como parece estar a acontecer.