Os cidadãos portugueses estão prestes a sofrer “um choque”, “um murro no estômago”, com um aumento de impostos que demonstrará que o governo socialista, apoiado pelos partidos à esquerda, está a “dar com uma mão e tirar com a outra“. Esta é a visão de Luís Marques Mendes, que no seu comentário semanal na SIC disse que, quando se fala em orçamento, “não há milagres“.

“Não quero assustar as pessoas mas podem estar aí, em preparação, medidas muito aborrecidas de aumento de impostos. Não está no programa do governo mas é aquilo que eu penso que vai acontecer”, afirmou o ex-presidente do PSD na SIC. “Vamos ter, provavelmente, aumento de impostos. Seja IVA, seja o IRS, seja o imposto sobre fortunas“, adiantou Marques Mendes.

O comentador político diz que “se for IRS, será a classe média a pagar. Claro que eles vão dizer que serão os ricos a pagar, mas será a classe média”.

Isto vai levar um problema porque as pessoas andam muito descontraídas e vai ser um choque. António Costa anda a desvalorizar tudo mas eu julgo que as pessoas vão levar um certo murro no estômago.

Para Marques Mendes, este é um cenário que demonstra que “tudo na vida tem um preço, uma contrapartida”. E, para António Costa, “a contrapartida para ter o apoio dos partidos à esquerda para ser primeiro-ministro foi ceder nestas medidas”. São medidas que provocam um agravamento do défice de 900 milhões a 1.000 milhões de euros, o que a Comissão Europeia não permitirá devido às regras do Tratado Orçamental.

Não há milagres, nem há magia nem ilusionismo“, afirma Marques Mendes, notando que a Comissão Europeia, agora, quer medidas que compensem os “900 milhões ou 1.000 milhões de euros” que compensem as medidas dadas “como troca ao PCP e ao BE”. Mesmo que a Comissão Europeia não exija uma grande redução do défice, não vai aceitar um agravamento, diz o ex-presidente do PSD.

“Alguém responsável devia ter pensado nisto antes. Agora vai ser um choque, vai ser um murro no estômago“, remata.

Críticas ao plano orçamental. “Nunca se viu uma coisa assim”

Acabou o estado de graça do governo“, diz Marques Mendes. “O ministro das Finanças está quase em estado de desgraça, porque nunca se viu um esboço de orçamento — ainda não é o orçamento todo — a ser tão criticado cá dentro e lá fora”. Marques Mendes deu o exemplo das críticas do Conselho de Finanças Públicas, liderado por Teodora Cardoso, uma “mulher muito competente e uma mulher de esquerda”. Também cá dentro, pela UTAO e, lá fora, pela Comissão Europeia e pelas agências de rating.

Nunca se viu uma coisa assim“, diz Marques Mendes.

A respeito de Mário Centeno, Marques Mendes acrescentou que “passou despercebido a toda a gente que esta semana tenha sido António Costa, e não o ministro das Finanças, a falar com o Comissário Europeu Moscovici ao telefone”.

BE e PCP vão “torcer-se todos” para aprovar Orçamento

E o que farão os parceiros do PS, que apoiam a maioria parlamentar? “É evidente que o PCP e o BE vão torcer-se todos para engolir mais aumentos de impostos e para engolir cedências a Bruxelas, “porque eles acham que se deve bater o pé a Bruxelas. Mas vimos o resultado que isso deu na Grécia“.

“Eles vão-se torcer todos para aprovar medidas que têm a ver com o Tratado Orçamental, algo que eles são contra, mas qual é a alternativa?”. Marques Mendes diz que se não aprovarem o Orçamento acaba a coligação e tem de haver eleições antecipadas. Mas Marques Mendes acredita que “eles vão ter de aprovar o orçamento”. “Quem está nestas matérias, não pode ter só as facilidades, e alguém devia ter pensado nisto antes — nomeadamente o ministro das Finanças”.

Autárquicas 2013: Campanha eleitoral do PSD em Matosinhos

O ex-presidente do PSD lança um desafio, à jornalista da SIC. “Imagine o que era ter feito uma coligação há dois meses e, agora, quebrar essa coligação. Nunca mais eram levados a sério. Além disso, o PCP, depois da pancada que levou agora nas eleições presidenciais, foge de eleições como o diabo da cruz“. “O PS também não querem eleições de maneira alguma, porque António Costa seria trucidado“, acrescenta o comentador.

Se as negociações falharem, Marques Mendes diz que “é impossível o PSD viabilizar este orçamento, com estas medidas e com esta orientação — que é tudo ao contrário do que o PSD vinha seguindo”. “A única hipótese, remota, é que a coligação à esquerda caia e o PSD, talvez por um apelo do Presidente da República, viabilize o orçamento mas com a condição de António Costa se demitir e serem convocadas eleições“, diz Marques Mendes. O que serviria “para colocar tudo em pratos limpos“.

Marques Mendes, que ainda aproveitou para perguntar “Onde para o ministro da Economia?“, não resumiu as suas críticas apenas ao Partido Socialista. Na SIC, Marques Mendes começou por comentar o caso da (não) devolução da sobretaxa de IRS relativa a 2015. “Isto choca as pessoas. É certo que o governo não fez nenhuma promessa mas alimentou as expectativas. Esta forma de fazer política é lamentável e vergonhosa, e o governo PSD/CDS deve sentir-se envergonhado“. “A execução orçamental, que é muito boa, ficou ensombrada por esta questão”, afirmou o ex-presidente do PSD.

Sorte de António Costa não depende da relação com Marcelo

Marques Mendes comentou, também, o resultado das Presidenciais, dizendo que dificilmente alguém conseguirá mais alguma vez um resultado como Marcelo, sem apoio de máquinas partidárias e um orçamento reduzido. Porém, no que diz respeito à interação entre o novo Presidente da República e o governo de António Costa, Marques Mendes diz que “o futuro de António Costa não tem muito a ver com as boas ou menos relações com o Presidente. Isso pode ajudar um bocadinho, mas o futuro dele está dependente de três coisas“.

A primeira é o acordo com a esquerda. Se for sólido, muito bem, se não for sólido, ninguém o salva. Segundo, a evolução da economia. se a economia cresce e gera emprego, Costa fica melhor politicamente. Se isso não acontecer, as coisas não vão bem (e um aumento de impostos não ajuda a economia a crescer). Em terceiro, as exigências de Bruxelas. Se ele não gere as coisas de outra maneira, evidentemente que com murros no estômago como este, temos uma péssima gestão das expectativas.

Convidado a fazer uma antevisão do que será Marcelo como Presidente, Marques Mendes diz que é sempre difícil fazer prognósticos. “De Jorge Sampaio dizia-se que ia ser um Presidente minimalista e acabou a usar a bomba atómica da dissolução do parlamento. De Cavaco Silva dizia-se que ia ser um executivo, que iria querer ser chefe do governo e criar instabilidade. E acabou por ser um Presidente mais institucional, mais formal”.

“É uma pessoa que gosta de diálogo, de consenso, de proximidade. Isso já sabemos. Mas eu admito, pelo que conheço de Marcelo Rebelo de Sousa, que ele terá de ser um Presidente muito interventivo, por necessidade, porque vivemos uma situação muito instável, muito frágil. Poderá haver intervenção para haver maior estabilidade, para que haja governos que não caiam de três em três meses. Em segundo lugar, por vocação, o seu ADN, Marcelo vai ser um Presidente comunicador“, antecipa Marques Mendes.