Tudo parecia encaminhar-se para ser a noite de consagração de Kendrick Lamar, do rap norte-americano e das minorias étnicas na indústria musical dos Estados Unidos: na festa que antecedeu os Grammys, o rapper de Compton arrecadou quatro prémios, três deles na categoria “rap” e um na categoria de “Melhor vídeo de música”, que dividiu com Taylor Swift.

Mas, chegada a cerimónia principal, ficou-se pelo Grammy de “Melhor álbum rap”, com o seu To Pimp a Butterfly, perdendo nas duas grandes categorias para as quais estava nomeado: “Melhor álbum do ano”, vencido por Taylor Swift, e “Melhor Canção do Ano”, vencido por Ed Sheeran. A sua consagração ficou-se pelo domínio na música rap, o que até nem é pouco, se recordarmos que, em 2014, estava nomeado para sete categorias e não venceu nenhuma.

Mas para a história, mais do que os cinco Grammys que arrecadou, ficará a sua performance na gala, onde surgiu acorrentado, juntamente com os seus dançarinos, numa atuação política, lembrando a história de escravatura do seu país, enquanto cantava com fúria os versos “You hate my people/ Your plan is to terminate my culture” [Vocês odeiam o meu povo/O vosso plano é liquidar a minha cultura].

Se Kendrick Lamar não fez história (seria a primeira vez que um músico rap vencia a categoria “Canção do ano”, sendo que o Grammy de “Álbum do ano” também foi vencido por músicos de hip-hop/rap apenas duas vezes, em 58 edições), Taylor Swift tornou-se na primeira mulher a vencer a categoria máxima dos Grammys por duas vezes: em 2010 conseguiu-o, com Fearless, e agora repetiu a dose, com 1989, que lhe valeu igualmente o prémio de “Melhor performance pop em duo/em grupo”, em 2016.

Nos dois restantes prémios de eleição, para o qual também estava nomeada, acabou por perder: em “Melhor Gravação do Ano” para “Uptown Funk”, de Bruno Mars e Mark Ronson, e em “Melhor canção do ano” para Ed Sheeran, com “Thinking out loud”. Em ambos estava a concurso com o tema “Blank Space”, do seu último álbum. Ao receber o prémio principal, falou diretamente para “todas as mulheres do mundo” e deixou o que parece ser uma indireta ao rapper Kanye West, que no seu último álbum, The Life of Pablo, reclama para si o mérito de ter tornado “essa vadia [Taylor Swift] famosa”:

“Haverá pessoas no vosso caminho que tentarão sabotar o vosso sucesso, ou desvalorizar os vossos feitos ou a vossa fama. Mas se se focarem no trabalho e não deixarem essas pessoas desviar-vos [do vosso caminho], um dia, quando perceberem para onde caminham, saberão que são vocês e as pessoas que vos amam que vos colocarão lá [no topo]”

Ainda nos principais prémios, Meghan Trainor arrecadou o Grammy de “Melhor novo artista” (batendo nomes como Sam Bay e Courtney Barnett) e os Alabama Shakes ganharam o prémio de “Melhor Performance Rock”, a que juntaram o de “Melhor canção Rock” e de “Melhor Álbum de Música Alternativa”, tendo apenas perdido, nas principais categorias do género, o prémio de “Melhor álbum rock” para Drones, dos Muse.

David Bowie e B. B. King homenageados

O musical Hamilton venceu na categoria de “Melhor Musical” e Chris Stapleton ganhou o Grammy de “Melhor Álbum Country“, tendo-se ainda juntado em palco ao guitarrista e cantor Gary Clark Jr., numa homenagem à lenda de blues B.B. King, que morreu em 2015.

Ainda nas homenagens a músicos que morreram recentemente, Lady Gaga cantou um medley de David Bowie, em que participou o seu antigo colaborador, Nile Rodgers. O “camaleão da pop” foi ainda homenageado pelos membros vivos dos Nirvana e por Beck, na festa que antecedeu a gala principal.

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Já os Hollywood Vampires, de Alice Cooper, Johnny Depp e companhia, que vão marcar presença na próxima edição do Rock in Rio Lisboa, homenagearam Lemmy, lenda rock/metal dos Motorhead, que morreu a 28 de dezembro de 2015. Também os Eagles surgiram em palco, com Jackson Browne na vez de Glenn Frey, icónico membro da banda falecido no passado mês de janeiro, a quem homenagearam.

Americana, R&B e Drake, o grande derrotado

Na americana, Jason Isbell foi o grande vencedor, arrecadando dois Grammy, o de “Melhor canção de raízes americanas” e o de “Melhor álbum de Americana”. No R&B foi D’Angelo a destacar-se, vencendo as categorias “Melhor canção de R&B“, com “Really Love”, e “Melhor álbum de R&B“, com Black Messiah, álbum que chegou 15 anos depois do seu antecessor, Voodoo. Um novo trabalho que D’Angelo reclama também ser político (tal como “To Pimp a Butterfly”, de Kendrick Lamar), como anunciou num folheto partilhado na festa de lançamento do disco:

[Black Messiah] é sobre as pessoas que se levantam em situações como a de Ferguson [protestos após o homicídio do afro-americano Michael Brown, às mãos do polícia Darren Wilson], do Egito e do Occupy Wall Street e sobre todos os locais onde uma comunidade sente que já chega e decide que tem de provocar mudança. Não se trata de elogiar um líder carismático mas de celebrar milhares deles”, explicava.

The Weeknd, que era candidato em sete categorias, levou dois Grammy para casa: o de “Melhor álbum contemporâneo urbano”, com Beauty behind the madness, e o de “Melhor R&B Performance”, com “Earned it”, canção composta para o filme “50 Sombras de Grey”. Já o rapper Drake foi o grande derrotado da noite: cinco nomeações, nenhum Grammy.

Eletrónica, Folk e Blues

Na eletrónica, o duo Skrillex & Diplo bateu nomes como os Chemichal Brothers, Disclosure, Jamie XX e Caribou. Na categoria “Melhor álbum de blues” o vencedor foi a lenda viva Buddy Guy, que aos 79 anos ainda arrecadou um prémio com o disco de originais “Born to Play Guitar”.

A mesma sorte não teve outra lenda da música norte-americana, Bob Dylan, que apesar de ver a nova e extensa edição de bootlegs de um dos seus álbuns dos anos 1970, Basement Tapes, receber o Grammy de “Melhor álbum histórico” do ano, perdeu na categoria em que ia a concurso com o seu último álbum (Shadows in the Night), a de “Melhor álbum tradicional vocal de pop“.

Na categoria de “Melhor Álbum Folk”, o prémio foi para o duo Béla Fleck e Abigail Washburn. Na de “Melhor álbum de jazz instrumental”, o Grammy foi vencido pelo guitarrista John Scofield. Angelique Kidjo, por sua vez, bateu Gilberto Gil na categoria “Melhor Álbum de World Music“. Já o Grammy de “Melhor álbum de pop latina” foi vencido pelo espanhol Ricky Martin.

A lista completa dos vencedores das 83 categorias pode ser consultada aqui.

Texto editado por Miguel Pinheiro