Vestidas com as capulanas tradicionais de Moçambique, que reinterpretam, não como uma farda, mas como a expressão pessoal de cada uma, as jovens alunas da GirlMove Academy movem-se em palco com energia. Fazem-no primeiro durante as talks, que várias delas realizaram nesta segunda-feira, 26 de outubro, na Fundação Champallimaud, em Lisboa, e depois, no final da sessão, na explosão de alegria de uma dança em palco que rapidamente contagia o auditório.
Assim culminou, nesta cerimónia de apresentação pública, o trabalho desenvolvido pela 11ª turma do programa Change, da GirlMove Academy, uma Organização Não Governamental que combate as desigualdades de género no acesso à educação em Moçambique e que, por causa desse trabalho, ganhou o Prémio UNESCO 2021 para a Educação de Raparigas e Mulheres.
Um trabalho cuja urgência é evidenciada pelos números: neste país africano, 45% das raparigas casam ou engravidam antes dos 18 anos, apenas 31% transitam para o Ensino Secundário e só 2% completam uma licenciatura. Números que a pobreza endémica (Moçambique é um dos países mais pobres do mundo) agravam, já que o casamento das meninas é encarado como uma bóia de salvação por muitas famílias em situação de grande precariedade.
DIOGO VENTURA/OBSERVADOR
“Mesmo em Nampula, onde é sabido que há determinadas características matriarcais na sociedade, as mulheres são relegadas para segundo plano em lugares estratégicos”, diz Amália Fotine, uma das jovens que chega agora ao fim da sua passagem pelo programa Change. “Estão impossibilitadas de alcançar boas oportunidades e mesmo de ter acesso à informação.” A jovem advogada garante que, em todo o território, “ainda é dificil que as mulheres terminem o Ensino Primário. É uma questão cultural relacionada com os casamentos precoces porque os pais encaram esse caminho como uma forma de sair da pobreza. O que é muitas vezes uma ilusão. Eu já vi situações em que as meninas foram trocadas por cinco litros de óleo ou duas capulanas.”
Por mais avassaladora que seja a imagem, a resignação não pode ser a resposta. Na abertura do evento, Filipe Santos, diretor da Católica-Lisbon SBE, salientou a importância “de fomentar o desenvolvimento de Moçambique através das lideranças femininas, fortemente enraizadas nas comunidade.” Uma prática que , acrescentou, “poderia muito bem ser replicados noutros países africanos e não só”.
Ao lado de Filipe Santos esteve uma antiga girlmover, Alódia Nhaca, especialista em marketing estratégico, que considerou a passagem pela Girlmove Academy como “determinante”. Mas, mais relevante do que a experiência pessoal, frisou, é o facto de muitos programas desenvolvidos neste contexto “estarem finalmente a crescer à escala nacional, deixando de ser apenas experiências-piloto desenvolvidas em comunidades locais”. “Tornámo-nos um movimento muito poderoso graças às mais de trezentas raparigas que passaram pelas turmas desta academia ao longo de mais de uma década.”
Esta ideia de empoderamento foi nota dominante nas talks das alunas da 11ª turma, todas de áreas disciplinares diferentes. Falou-se do papel do jornalismo enquanto fator de desenvolvimento cívico, da democratização da tecnologia ou do impacto dos desastres naturais no planeamento de casas em meio urbano e rural — sabendo-se que Moçambique é um dos países mais vulneráveis a este tipo de situações da África subsaariana. Mas também estiveram em foco questões fulcrais para o país, como as políticas públicas de habitação, a importância de despertar os jovens para a educação cívica ou o tratamento de águas — com a engenheira Karen Mavie a recordar a estranheza quando, sendo jovem universitária num país europeu, lhe deram a beber um copo de água de torneira, sem qualquer filtragem adicional, “algo ainda impensável em Moçambique”.
O testemunho mais emocionante da sessão foi o da jurista Elisa Gordo, a quem a explosão de um paiol, quando tinha três anos não só lhe matou a mãe e os irmãos, como lhe amputou os dois braços. Depois de uma infância e adolescência a lidar com o estigma da deficiência e com o olhar dos outros sobre a sua “incapacidade”, Elisa decidiu tornar-se jurista para ajudar à criação de políticas públicas mais integradoras, fazendo da alegada “incapacidade” um motor de mudança.
Em comum, estas girlmovers, independentemente da formação e da região de Moçambique de onde vêm, acreditam ser capazes de mudar o país (e o mundo), se quem exerce o poder executivo for capaz de chamar a si os jovens e as mulheres, dando-lhe um papel ativo nas políticas públicas.
“Este evento representa o culminar de um ano de trabalho e de experiência que as girlmovers têm connosco, cabendo-lhes agora partilhar com o público tudo o que esse ano de seleção rigorosa e formação intensa lhes trouxe”, disse Raquel Castanheira Soares, head of strategy and impact da GirlMove Academy. “Moçambique tem uma alta percentagem de população jovem (mais de 50%), e também uma maioria de mulheres. Ora, neste caso, quase todas estão fora da economia formal, embora, na verdade, sejam elas as líderes da economia informal porque são elas que fazem mover a vida de todos os dias, na comunidade e nas famílias.” No mercado laboral e empresarial “ainda encontramos algumas mulheres na base da pirâmide, mas é praticamente impossível chegar ao topo”.
O objetivo do Girlmove Academy, fundada por Alexandra Machado e Luis Amaral (acionista do Observador) é, pois, inverter esta cultura patriarcal, envolvendo jovens licenciadas (ou prestes a terminar a licenciatura) de diferentes áreas, entre os 20 e os 30 anos. A ONG recebe anualmente cerca de cinco mil candidaturas para cerca de trinta raparigas escolhidas. A seleção é rigorosa e a formação dura um ano. “Fomos recentemente contactados pelo Ministério da Educação moçambicano no sentido de transpor a nossa metodologia de trabalho para as políticas nacionais, o que, obviamente, é um reconhecimento importante”, disse Raquel Castanheira.
As candidaturas para a 12ª turma do programa Change (2027) já estão abertas.
3 histórias, 3 ideias de futuro
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Imércia, a médica
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Natural de Maputo, licenciada em Medicina pela Universidade Eduardo Mondlane, Imércia Sigauque cedo compreeendeu as enormes lacunas existentes em matéria de educação e informação para a saúde. Assim que foi para os centros de saúde prestar cuidados a doentes crónicos, nomeadamente em doenças como diabetes ou hipertensão. “Lembro-me de ter muito pouco tempo para consultar cada doente, mas identificava logo um grande desconhecimento em relação a sintomas básicos, medicação, dosagem ou mesmo a nutrição adequada.”
Para tentar responder a estes problemas, a médica de 27 anos criou uma plataforma digital para ajudar os doentes e suas famílias, promovendo a literacia em saúde, que desenvolveu agora como girlmover. “A educação e a saúde são duas coisas que devem andar a par.” O que é um desafio suplementar num “país enorme, com várias línguas.”
Imércia andou por Moçambique e rapidamente percebeu que saíra “de Maputo a promover literacia em saúde de uma maneira e chegou ao Norte, a Nampula, e teve de ser de outra, até porque o português nem sempre é a língua dominante. Tive de me socorrer das comunidades, nomeadamente das mulheres, para fazer chegar a mensagem de forma correta”.
A passagem pela GirlMove trouxe-lhe propósito. “Eu via várias coisas que me incomodavam, mas nem sempre sabia como reagir. Agora tenho a certeza de que estamos a criar uma narrativa e a dar espaço à juventude para trazer novas propostas.”
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Érica, a jornalista
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Érica Matsinhe é jornalista e diz-se interessada em fazer a intersecção entre o jornalismo cívico, a participação cidadã e a batalha pela transparência das instituições, nomedamente na gestão dos dinheiros públicos.
“Quando fui para a universidade, escolhi o curso de Jornalismo, mas não entrei logo para essa área. Fui para a Administração pública e lá percebi que talvez esse não fosse o caminho errado porque aprendi a linguagem de poder. Ora, eu sempre quis fazer Jornalismo para gerar mudanças e esses instrumentos foram-me utéis, embora mais tarde tenha conseguido também cursar Jornalismo.”
Hoje, o objetivo da jovem de 23 anos é ambicioso. “É importante que todo o cidadão se envolva no debate sobre a gestão dos dinheiros públicos, por exemplo. Não cabe só aos jornalistas fazer perguntas e interpelar o poder.” E recorda, a propósito, o trabalho que fez no maior centro de refugiados de Moçambique, em Nampula, de onde é natural, “cheio de pessoas deslocadas dos países do Corno de África, por causa da má gestão dos muitos recursos naturais pelos seus governos”.
Da sua passagem pela Change, Érica destaca os laboratórios comunitários, nomeadamente o educação transformadora. “Fazemos sessões com as meninas do 9.º ano, que depois replicam esse trabalho junto das do 6.º ano, o que é muito inspirador. Dizemos-lhe, a brincar, que queremos que seja impossível ir a um ministério, em Maputo, e não encontrar mulheres com capacidade de transformação.” Esta educação para a mudança passa pela consciência de questões sócio-culturais muito enraizadas na sociedade moçambicanas: “Há a ideia de que as meninas não precisam de estudar muito, que não precisa de garantir o seu futuro porque vai casar e é o marido é que vai cuidar dela. E isto tem de ser invertido.”
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Amália, a jurista
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O gosto pela intervenção cívica nasceu-lhe ainda antes de conseguir perceber tudo o que cabia neste nome. Natural do distrito de Manica, província de Gondola, no centro de Moçambique, Amália começou na escola primária, como membro ativo no parlamento infantil, primeiro na sua região, depois a nível nacional. Recorda agora que essa experiência, em idade tão precoce, lhe “permitiu ver que havia outras realidades e muitas outras crianças não tão privilegiadas” como ela.
Já na adolescência, foi-se envolvendo “em diferentes programas de empoderamento de raparigas, procurando mais oportunidades de participação das mulheres.” Aos 18 anos deciciu trabalhar como assessora do parlamento infantil nacional. Objetivo: “Garantir que tivesse noutras crianças o mesmo impacto que teve em mim.”
Licenciou-se em Direito, com a ideia clara de “fazer da justiça um instrumento para aproximar as pessoas do sistema.” Graças a esse trabalho (que a levou também a assinar um programa numa rádio local), viajou por todo o território de Moçambique, onde coexistem, afinal, várias línguas, culturas, religiões e modos de estar. “O país é muito grande e os desafios mudam de face de região para região e temos de ter em conta essa diversidade.”
Aos 25 anos, Amália, que também quer trabalhar com pessoas com deficiência e idosos (grupos que também correm riscos acrescidos de exclusão), considera que a passagem pela Change lhe deu “a metodologia e os instrumentos certos para fazer a diferença. Posso dizer que a intenção já lá estava, mas foi reestruturada”. Do trabalho que fez, enquanto girlmover, destaca o laboratório de educação transformadora, com crianças e pré-adolescentes, “que depois vão replicar junto de outras o que aqui aprenderam”.
E acrescenta, toda ela determinação: “Somos mulheres ativas, queremos mostrar que Moçambique está a trabalhar e que não é apenas um beneficiário de apoios externos. As pessoas que vemos nas comunidades como vulneráveis são resilientes. Conseguem existir, apesar de condições muito difíceis. Queremos mudar o país e, quem sabe, o mundo.”